July 29, 2008
Há um par de dias sonhei ser um agente secreto. Por algum tipo de traiçom, perseguiam-me e tinha que cumprir umha última misom. Lembro lhe confesar a alguém o trabalho, (”jás ves, agente secreto, com estas pintas”) e caminhar polas ruas de Compostela Mais tarde, essa mesma noite, roubávamos umha locomotora enorme na Costa do Cruzeiro de Gaio e punhamos rumbo Sevilha. Baixei para acompanhar um grupo de pelegrins de volta.
Nos dous casos, aquela Compostela à que já lhe conheço várias ruas doutros sonhos, era umha cidade grande e revirada. A mesma na que tenho ido de estaçom de comboio a estaçom de comboio. Na que atravessei já algum descampado antes de chegar à Rosaleda, onde havia um centro comercial ali ao carom, e onde as ruas labirínticas multiplicavam-se à sombra do muro da Rua das Rodas. O sol bate mais de carom, lá dentro, e há umha sensaçom de que é possível perder-se, que há recantos escuros de mais e que nom se pode de certo saber que vai seguir tudo no sítio ao virar a esquina.
Tem um aquel de mau acavado. Ervas, casas arruinadas, espaços sem cuidar, um alento algo mais selvagem e velho.
Colho-lhe carinho a base de sonhar com ela, a essoutra cidade, segundo me vou atopando de volta nos mesmo espaços sonhados.
July 12, 2008
Sábado de manha anuvado de verao.
Saio à rua caminhando de vagar e é coma se nos reconhecéssemos doutra volta, Compostela e mais eu.
Coma a fazer essa caste de turismo que de quando em quando fago aqui mesmo, ando com as maos nos petos e pissando suave. Olho as pedras, sinto-lhe o pulso lene destas horas.
O magnólio deita-me folhas enriba ao passar, a me achegar outono, mas bem sei que está é manhá anuvada de verao e que é esta a minha cidade.
Polas esquinas há restos de vida. Um copo baleiro. Um cartom de tabaco. A luz de calma.
Caminho de vagar, coma um pulso mais dos que vagam por Compostela.
Os pés enterram-se até o nocelho no chao: Sei deste tempo, sei deste lugar.
February 19, 2008
Às vezes, sentado à beira da fiestra que dá ao precipício detrás do obradoiro, surprendem-me as gaivotas. Nom as havia quando eu cheguei à cidade. Vinhérom pouco depois, quando descobrerom o lago do auditório e mais o do Monte do Goço coma bases privilegiadas. E cá as estám, a outorgar-lhe cos seus chios à cidade um aquel de porto de mar.
Coma se a catedral puidesse, por acaso, dar a um horizonte de água e fosse possível a chegada dum veleiro, a descarga, a festa nos bares portuários, as gruas enferruxadas, os desperdícios pequenos, um vento salgado a nos despeitear ou o sítio ao que irmos olhar o solpor e fumar um cigarro no verao, como agora imos à Quintana e olhamos os nenos a jogar e a gente desde as escaleiras.
January 29, 2008
É na noite que os rios reclamam o seu espaço primigénio. Lá na escuridade manifestam o seu poder e dim-nos dalgum jeito que nom é cousa de nos achegar. Que som espaços fondos e desconhecidos, nom aptos para vidas coma as nossas. Mesmo os mais amansados, nos parques das cidades fam da sua superfície um espelho preto e proclamam o seu senhorio no correspondente silêncio do contorno. Nom há ninguém. Podemos caer, podemos molhar-nos, podemos ficar fora do mundo. Eles saberám arrebatar-nos, eles tenhem o poder de levar as cousas todas correntes abaixo, de deixar-nos sem identidade.
É nessas horas de lua que apodrece a madeira das pontes, que a água conta as histórias das ribeiras do nascimento (o cadáver nas silveiras, os peixes novos, um carro do super ficou no fundo lá atrás, hoje um pescador atreveu-se a entrar antes do sol, umha mulher trabalhou no lavadeiro, e lá o certifica a escuma).
Do mesmo jeito que as tormentas e os temporais, algo mantenhem os rios que nos lembram que nom é o mundo todo nosso, algumha promesa nos marmúrian no inconsciente que nos arrepia sem sabermos por quê, e nos deixam a distáncia:
Cuidado, há um rio. É de noite.
January 9, 2008
É domingo de manhá.
A agardar na pastelaria para mercar croissants fico olhando umha publicidade de gelados.
Desta volta será a combinaçom de cores azul, letras vermelhas, branco, amarelo, os tons enfim em que se desenvolveu boa parte da infáncia. Ou será a sua mestura com a luz grisalha e clara da manhá dum feriado de inverno, a mesma aquela que batia no interior da tenda dos velhos (nunca mais aquele arrecendo de sombra e pedra e madeira), a mesma que batia também na visita ao comércio dos tios.
De socato é entom umha calma intensa a olhar essa publicidade. Umha certeça irredutível de que nom morreu tudo e que fica prendido em determinadas luzes, dentro de determinadas tendas, no jeito burdo da publicidade das gulosinas e dos gelados.
É apenas ao sair da tenda, e que che descrevo a pequena revelaçom, que ti me dis que nesse mesmo intre, olhavas desde fora o escaparate e que, sem o saberes, sentias o mesmo, e que nom foras quem de lhe apor palavras.
E velai está, por exemplo, esse olhar que che digo que compartimos, desta volta desde a duas bandas do escaparate.
January 8, 2008
É mesmo estranho. De quando em quando, sem causa aparente, um intre concreto, tanto tem que seja a caminhar pola rua, fazer a compra, tomando um café com alguém ou num momento cruzial da existência, ecoa de socato com tempos passados da vida. E nom se podem explicar muitas dessas conexões.
Quiçais seja a luz fria do supermercado a que me leva às lousas fregradas com lixívia da casa da minha tia. Ou o arrecendo da terra molhada exactamente o mesmo que havia no bosque onda aquel dólmen. E quiçais só o fagam esta vez. Quem sabe.
Ainda mais estranho é (mas a mim tem-me passado) que cousa se prolongue e já afinal botemos tempo (dias, semanas) a viver dalgum jeito num ecoar permanente doutra época. Sei, por exemplo, que quando escuitava Ordinary World na rádio (e outras) estava numha temporada em tudo semelhava ser já parte dum passado invernal e abrigado.
Mas, afinal, a questom quiçais nom seja tanto essa, se nom pensar em como somos quem
de viver essoutros intres virgens, os que nom tenhem nada associado. os que conlevam o aquel de se abeirar ao valeiro sem saber
que é a final a esência da vida.
December 13, 2007
Nunca achei de menos o mar quando cheguei a Compostela. Nom figera parte da minha paisagem cotiá. E mais, eu sempre fum de rio.
No entanto, há pouco veu-me à cabeça, a ir no comboio, como teria sido medrar num lugar onde o mar nem se adivinhasse.
Decato-me que me figem com a referência do mar. Em boa medida, a minha cidade, a minha vida, eram singulares porque estavam no límite, onda o mar, coma um espelho ou parede fronte ao que fazer identidade.
Como se viver no estremo do mapa me outorgasse mais individualidade e me desse umha base para me orientar (O Norte deixa o mar à esquerda) além do puramente geográfico.
Custa-me, é certo, concibir como se pode medrar num lugar sem o mar perto. Numha vila rodeada doutras vilas e doutras vilas e doutras vilas. Como se a vida fosse construír-se lá mais espalhada, derramada entre montes e montes iguais, em terra indiferente.
December 4, 2007
Afinal é cousa de sair à rua e fazer ai umha cançom de passos entre a gente estranha as estudantes os velhos que caminham de vagar os cadelos que me olham ao reconhecerem o cheiro ainda de Fiona.
Afinal apenas a questom é essa para nos tomar o ritmo e acordar com os passeios o jeito exacto em que devem ir as pulsações e assim voltarmos às defesas em bom estado ao humor em bom estado ao sumidoiro que tira o moco da cabeça ao sonhar enquanto durmo.
Voltar à vida ao pó aos carros ao desconhecimento aos sons aos espaços alheios aos reencontros cos passados.
Pisar o mundo no caminho é também jeito de colhermos-lhe a medida
e nom ficarmos pequenos de mais.
September 20, 2007
No sonho, baixava cara a casa e acompanhava-me o Kiko, que lhe colhia de caminho. Logo de comprovar que nom ia perder o trem ao carom do obradoiro (eterna obsessom onírica os meus comboios), baixámos e decatava-me de que havia um buraco de obras diante da minha porta.
Ou quase.
Ao me achegar comprovava que a minha porta nom era minha. Que as casas nom eram as que lembrava. Iamos a umha das três ruas paralelas ás Hortas por se nos trabucáramos. E tampouco estava lá a minha casa. É claro, cinco dias sem passar por ela, e já se perdera.
Voltámos. No lugar da Esmorga havia um bar grande chamado A Juntança. E umha tasca recóndita noutro anaco. Havia casas que parecia reconhecer, mas mudadas de sítio, e outras que nunca vira.
Eu esculcava naqueles telhados desconhecidos o perfil das janelas do meu salom. Tentava atopar referências que confirmassem que ainda estava por alô agochada.
Ao cair a noite, descobriam-me que eramos muitos os que andávamos perdidos sem casa. A vagar entre as três ruas, perguntando e petando nas portas. A certa altura, havia umha assembleia numha cozinha, onde se acordava reclamar-lhe ao Concelho compensaçons pola dessapariçom dos nossos livros, os cartazes e as postais que atessourávamos. Pola ausência do quiosque da Senhora Carmem e a subseguinte falta de gominolas na vizinhança.
Estávamos exiliados nas mesmas ruas. Compartindo umha certa inquedança e umha incerta resignaçom. Num c0ntorno familiar e traiçoeiro a um tempo. Sentindo-nos perdidos e acompanhados.
Finalmente apanhava um quarto naquela mesma casa, com a vaga intençom de descobrir como fora essa mudança, e convencido de que havia atopar a minha casa nalgum recanto das ruas.
Polo meio da noite, descobriamos umha indefinida traiçom da vogal da assembleia. A outra companheira do prédio chorava abraçada a mim e tentávamos dissimular, por ver onde ia dar aquilo tudo.
No final, sentados no passeio sobre caixas de cerveja, a minha avoa abroncava ao meu pai com a sua única retranca e ensanhamento. As cousas que contava dele o falecido taberneiro do vinho tinto, sobre as dévedas imensas e as parvadas que fazia ao beber de mais.
Dalgum jeito, iamo-nos assentando naquela mudança inexplicável.
Havia o ruje-ruje de que alguns atoparam os seus fogares detrás de portas novas.
August 30, 2007
Coma no carro num dia anuviado, nem sei por quê lembro agora da gasolineira que há à entrada de Viveiro, vindo do leste, enfronte dos assadores, por onde devim passar duas vezes na vida e sei que apenas parei umha.
Tenho ideia de pensar ou falar lá sobre a questom de ter que apagar os telemóveis ao respostar, de me ter decatado do silêncio dumha rádio.
Quem sabe de quê mais. Co Sérgio ou a Ester, foi, a pensar em cada caso nas praias do Norte e nesses veraos que nom conheço, nos espaços anodinos que, precisamente por estar feitos para nom nos dizer rem, acadam às vezes deixar as pegadas imensas
das páginas em branco.