September 1, 2009
Enquanto se move tudo um bocado, e ninguém semelha estar a salvo, caminho afundido na cidade.
Dam-me os lastros da rua pola altura dos joenlhos. Estou dentro como se tivesse cá nacido e fossem as ruas as da minha infáncia.
Caminho como a sintonizar a rádio, de sensaçom em sensaçom, como a passar os dedos por engurras conhecidas, como a ler vários livros sabidos a um tempo.
E em certos recantos, dá-me gana de me deitar no chao para abraçar um mínimo esta Compostela e lhe dizer que tenho gana de nom precisar nada mais, que gostava de ficar dentro como estou.
Mas afinal fico a pé e finco o talom na pertença a este lugar, a me amarrar para o que venha, a sentir lá no fundo do pé o bater diário da sua vida.
July 17, 2009

Enquanto janto, fico a olhar o enlousado com pintas pretas, os talhos do restaurante. As patas de madeira no soalho contenhem dalgum jeito os veraos da minha infáncia (o mesmo lugar ao que transito no arrecendo dos portais fregados), as tardes longas, a Mirinda, as viagens que semelhavam eternas até a proia. Será o debuxo das lousas tam semelhante ao da tenda dos pais, a luz indirecta que chega desde a porta, algumha combinaçom com o sabor da crema de cenoura.
De jeito semelhante, atopo sensações de empatia e emociono-me em determinados movimentos de taichi (o grou branco estende as asas, maos coma nuvens), tam queridas. Retenho manhás de sábado em jeitos concretos em que me espreguiço na cama até sentir a pituitária a se estarricar.
Simpatizo com as pedras do começo da costa da Acibacharia, lá onde se deixa a sombra do paço arcebispal. Há um anaco de sol de primavera prendido desde há anos num lateral do Pazo de Fondevila.
Tenho tempos, lugares, livros e canções amarrados por toda a parte, favoritos de navigaçom sinestésicos e descontrolados que se disparam sozinhos quando calhar.
E às vezes som de mais, algumhas manhás está o mundo cheio de madalenas e cria-se entom umha estranha tristura que algo tem a ver com estar cá e agora e nom em toda a parte que se perdeu.
July 8, 2009

Cada vez gosto mais de gasolineiras. Há ser por carecerem, a priori, de sentido próprio. Tudo lá está interferido polo alheio.
Desenho estándar, marcas de fóra, produtos idénticos. Nom-lugares penetrados pola globalizaçom, feitos apenas para passar deixando a menor pegada num.
Para além, há sempre um anaco de céu. Umha esplanada. Um cruze de caminhos sem cruzeiro nengum. O calor do telhado e dos alimentos, das revistas, dos joguetes e da supervivência e a comodidade rápida garantida nos seus andeis.
E gosto desse baleiro zen e acolhedor.
Mas quiçais, quando passeio por lá, do que mais gosto som das excrecências humanas que as inçam e as colonizam. Coma o briom e os liques nos muros, as personalizações, a entropia que jorde e as fai achegadas, únicas, particulares.
Cartazes com ementas cheias de gralhas ortográficas. Adornos. Lixo que revela histórias (conversas telefónicas cheias de ansiedade em pias de cigarros, viagens de estrada em litronas, namoros furtivos nos banhos na forma de envoltórios de condões, pelexas de camioneiros, perdas de documentaçom à hora de pagar). E também o deterioramento das instalações, a erva a medrar em qualquer recanto, a maquinária a se oxidar que dam nestas paragens consciência especial da futura ruína, e fam ainda mais cruzadas as sensações.
July 3, 2009
É nestes dias que a tarde demora até o ponto que o dia semelha nom rematar, de tam largos os céus.
Apresenta-se a noite entom penetrada de sol até no escuro, indissolúvel da vida.
Nom val repregar-se, fugir, fechar os olhos, fazer-se durmidos.
Há que ir, baixar as costas, olhar a gente por toda a parte, caminhar umha capa por baixo do quotidiano, inseridos mais fundo na cidade
e no bater do seu ritmo ir dançando noite através, a ser o que nos reclama, partes inexcusáveis de verao, actores do sol nas horas escuras
em desespero, jogo e leda saudade.
June 19, 2009
Jantámos num bar comum, rua anodina, pratos do mais básico, tudo aduvidado com o encanto do descuido e dumha certa pobreça.
E fago memória agora de lugares semelhantes e neutros onde tenho atopado agocho.
O assador de arnóia, com jeito de nave industrial. Aquel lugar onde jantamos um prato combinado em Alhariz, cum filme ambientado no século XVIII no televisor. Aqueloutro assador onda Ribadeo, com máquina de Pepsi fóra entre dous postes. Um bar em Viveiro com vistas a um insulso jardim onde jogavam os nenos. O comedor do Zé da Rampa, onda Santo Tirso. O bar de chineses perto da Fira de Barcelona. Aqueloutro no Parallel, tam azul. O Sam Roque mesmo onde nos citávamos Jandro e mais eu, ao agocho de ouvidos indiscretos.
Espaços pequenos sem nada de extraordinário onde tudo está no seu lugar - os cartazes, a televisom, a letra impresa das ementas, as suciedade nos recantos- e é como deve ser. Comida e refúgio, deixam umha estranha pegada de paz no bandulho.
April 27, 2009
Por vez primeira na nova casa, ajudado pola dor do pescoço, atopo-me deitado, coma quando neno, a olhar o patrom dos fios do cobertor, o jeito em que incide a luz da fim da tarde sobre os andeis cheios de livros. Aproveito o momento de imobilidade e fago por reter o friso de folhas que há no cabeceiro da cama, a cadeia da que pende a lámpada, a fendas na pintura do teito.
Lá estou por fim a me fazer dono da casa, a goçar-lhe a imobilidade da tarde de domingo. Tento esculcar até que altura chega o curuto da torres que podo olhar no espelho no armário, recortadas contra as nuvens. Verifico quantos aviões tenho afinal no quarto, busco-lhe cos pés os distintos finais à cama, angulo a visom para comprovar quê se vê na janela além de céu.
No processo de estar, descobro em certa altura a perfeiçom do intre, apreendo esse meu reino, quarto de luz queda e livros, e decato-me que nunca desejei cousa nengumha que nom esteja lá.
April 22, 2009
Ao baixar pola minha velha rua olho os lixos, as plantas que medram ridículas entre os passeios e os muros da casas assolagados polo sol, coma tantas outras tarde. Mas há algo estranho nos estómago e na cabeça, umha certa dúvida de que sejam exactamente os mesmos, o medo a ter perdido no inconsciente momentos cruziais no agromar das sementes dos telhados, de nom ter visto, coma aquela manhá, o jardim de garrafas de mil cores onda o contentor.
Enfiando polas Hortas, atopo-me ao carom da primavera coma em sítio nengum da cidade, e penso até que ponto me afastei desses ritmos. Cá está a figueira, a cerdeira pequena, as estrugas e as ervas que medram sen controlo nengum entre corta e corta baixo o sol. E nom estivem nas mudanças.
A sensaçom é quase de vertigem, mas sei que ainda é cedo. Que um dia qualquer, em baixando as escaleiras desde o obradoiro, há vir a rua empurrada polo sol da tarde e me há dar nos focinhos com toda a força. E me há fazer chorar, ou deixará-me parado no meio e meio, atoutado pola açouta.
April 16, 2009
Na geografia dos meus sonhos, há umha vila marinheira pequena ao Sul do Barbança, encirrada entre montes. Para ir lá apanhámos umha autovia que estava sem rematar. Baixámos lá algumha vez, no casco histórico havia casas abandonadas e ruas com passos por cima. Há dois dias sonhei de novo com o lugar. Numha cala havia restos dum antigo templo: colunas baixo a água, a tumba dum herói com espada… Ao espertar, decatei-me da localizaçom real: Tenho que ir por Monte Louro.
April 13, 2009

Há que amar Mondonhedo, Celanova, Monforte, Ribadavia, Ortigueira, Betanços, Caldas.
Há que ir e olhar e sentir as ruas pequenas, as glórias passadas, as vidas concentradas no espaço e a sempre saudade que acompanha as velhas vilas galegas.
Há que caminhar até o rio de vagar e olhar-lhe as trasseiras às casas, os comércios parados nos anos, as janelas de guilhotina, os lugares abandonados.
E lá querer ficar, por compartir o devalar miudo, a erosom existencial que lhes provocam as corrente, como se nalgum momento tivessem saido do próprio curso e decidissem ficar à margem, onde ainda ressistem.
E como se fosse lá possível ainda se salvar um bocadinho, ralentizar o ritmo, manter os anos amalhoados e i-los ceivando mais aos poucos
embora fosse com o temor da enchente inevitável.
April 7, 2009
Volto à casa a atravessar o casco histórico. Em cada passo, procuro detectar onde é que afundo mais o pé.
O Franco, Praterias, a Quintana, Cervantes, Casas Reais… Há lugares nos que erguer a planta do chao é um bocadinho, apenas nada, mais difícil.
Ainda nom enraizei totalmente cá, mas já se deixa sentir umha certa resistência em pontos concretos, paisagens apropriadas, chaos nos que o pé bate com a própria pegada doutros momentos
e vai desgastansdo a pedra à minha própria medida.