Desde esta banda preocupa-me o anquilossamento. Esse ficar na casa a ganchilhar, colhendo os livros com pouca ilussom (agora que ia arrincando-lhe de volta o amor às páginas), lamentando nom caminhar de mais e um certo baleiro que se lhe nota já no jeito em que insinua que podo ir por casa algo mais. E como lhe custa tempo soltar-se e agarda a estarmos sozinhos para me dar conta de como se portou o meu pai essa semana ou o pouco e come Hermínia e como vai costa abaixo.
Desde esta banda, ir ve-los entristece e aletarga dalgum jeito. Decato-me agora que os vejo a correr, e que o mesmo nom é abondo. E afinal, um dia pola noite, encontro-me barrenando nalgum profundo medo a quando falte algum deles, e como som estes anos algum tempo bom antes de que se precipitem as cousas por essa banda (e quêm sabe se por algumha outra), e lembro de socato como era umha moça ainda (corenta e poucos anos) quando me levou por primeira vez ao cinema ver umha de Tarzán (levou-me a merenda e numha cena o herói corria num zoológico, eu nom tivem medo da escuridade. Nengum, quase) e pouco depois recuncamos con “Las minas del rey Salomón” (penso que me enganaram a dizer que também saia Tarzán e era mentira e encontrei muitos anos depois a cena da cova que eu lembrava).
E nom me levou mais ao cinema, mas sim à praia, e conduzia, e lia, e vivia dum jeito moderno e liberal que ficou agora afogado polos anos de trabalho, o matrimónio canso, o cuidar da mae que nunca pensaram havia viver tanto e tam bem (e que continue).
Agora di o meu irmao que o mesmo lhe leva a moça para a casa. Quem sabe se nom se agocham futuros estranhos, novas vidas por alô, detrás da vindeira folha do calendário.
October 24, 2006
Desde esta banda
May 24, 2006
Artesa
Umha vizinha mercou umha artesa para decoraçom. O meu pai recriminou-lhe como pagava tanto por esse trebelho. Ela dixo-lhe que a ver de onde tirava um. El respondeu-lhe que era bem capaz de construi-lo. Ela nom o creu.
Entom o meu pai botou quinze dias dedicando o seu tempo livre (entre passeio, chapuças e chiquitos) a construir umha artesa. Madeira de pinheiro, tábuas grossas, com todas as suas peças, incluindo um pau para poder deixar a tapa aberta.
Isso sim, a um quinto do seu tamanho real.
O outro dia passei por casa e encontrei-na acima da neveira.
Abri-na para achar um inesperado tesouro. No seu interior deitavam-se, em perfeita ordem, três bolsas de olivas “La Española” a encher o espaço tudo.
Abrim o caixom e lá sorpreendu-me umha morea de sobre de açafram “Pote”.
Agora disque o meu pai está a fazer um hórreo pequeno, também de madeira, quêm sabe para agochar quê gram.
January 24, 2006
Primeiro super
Aos 65 anos, logo de botar a vida detrás dum mostrador, entra no supermercado por vez primeira (pola minha culpa) e pergunta-lhe ao primeiro trabalhador que vê se tenhem salmom e onde está.
Conta-me a sua aventura quando chego a casa a fim de semana. “Olha tu, aos meus anos, esta semana fum a um supermercado por primeira vez na vida”. E explica-me o proceso, como para ver se fixo tudo bem ou se ainda lhe podo contar algum truco. “Saquei número, pedim, algo mais? nom, fum à caixa, paguei, marchei, tudo bem”.
Nessas voltas, sinto-me dessarmado ante essa sua certa indefensom ante parte do mundo mais cotiám. Precisamente toda essa parte que ela só olhava passar, até o de agora, por diante da porta da tenda.
September 21, 2005
Caminhar sozinha
Aos poucos, como era de prever, a mai vai-se desembaraçando dos fios que a atavam à sua rota e aos seus costumes. Agarrada ainda à casa e aos seus labores coma base de operações, vai medrando a área de domínio.
“Tenho gana de caminhar soa, sem ninguém, que nom me contem nada, caminhar para adiante e via, já escuitei gente abondo”.
E nom lhe falta razom. Ainda virám depois os outros passatempos para além dos passeios, e voltarám os livros e iram-se instalando as rotinas de ócio.
Polo de agora, gosto de pensá-la a caminhar com fúria entre os pradairos e o rio, a minha mesma velha rota.
Ainda é maravilha o tempo livre para ela, como nom.
September 9, 2005
Os primeiros dias
Acaba a minha mai de se reformar . A história e longa e dá para muitos contos.
Para começar, ainda estou a assimilar aos poucos (e acho que nom me deixo) o conceito de ver fechada a tenda cos andeis baleiros. Encontrar os meus pais a se erguer mais tarde do que eu num dia da semana.
Polo momento vam poucos dias. Ela continua a fazer a mesma rota, da casa à tenda, da tenda à casa, com a excussa de ir lá umhas horas com Hermínia, ver a vizinhas, cobrar algumha conta, liquidar algumha cousa. Semelha no entanto que estivesse ainda a se afazer a ver as ruas ao tempo que percorre o invisível rail que guiou a sua vida nos últimos corenta anos.
Dá ainda a impresom de estar a se espreguizar dalgum jeito. Abrir as às. Olhar arredor, um bocado de medo por esse mundo que até o momento só chegava, dia a dia, através do balcom-frigorífico.
Suponho que a sensaçom é, amplificada, a mesma dum oficinista qualquer nas estraordinárias ocassões nas que se enfronta à manhá da cidade (o mundo da outra banda da fiestra). Pero desta vez, é para sempre.
Fico à espreita das suas mudanças, de como irám medrando os caminhos, de como tirará de enriba o po
e em que jeito vou olhar os ocos que ficam na paisagem da infáncia ainda preservada.

