Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá...
Álvaro Cunqueiro Si o vello Sinbad volvese ás illas

October 24, 2006

Desde esta banda [Crónica da reforma] — São Tomé @ 12:13 pm

Desde esta banda preocupa-me o anquilossamento. Esse ficar na casa a ganchilhar, colhendo os livros com pouca ilussom (agora que ia arrincando-lhe de volta o amor às páginas), lamentando nom caminhar de mais e um certo baleiro que se lhe nota já no jeito em que insinua que podo ir por casa algo mais. E como lhe custa tempo soltar-se e agarda a estarmos sozinhos para me dar conta de como se portou o meu pai essa semana ou o pouco e come Hermínia e como vai costa abaixo.
Desde esta banda, ir ve-los entristece e aletarga dalgum jeito. Decato-me agora que os vejo a correr, e que o mesmo nom é abondo. E afinal, um dia pola noite, encontro-me barrenando nalgum profundo medo a quando falte algum deles, e como som estes anos algum tempo bom antes de que se precipitem as cousas por essa banda (e quêm sabe se por algumha outra), e lembro de socato como era umha moça ainda (corenta e poucos anos) quando me levou por primeira vez ao cinema ver umha de Tarzán (levou-me a merenda e numha cena o herói corria num zoológico, eu nom tivem medo da escuridade. Nengum, quase) e pouco depois recuncamos con “Las minas del rey Salomón” (penso que me enganaram a dizer que também saia Tarzán e era mentira e encontrei muitos anos depois a cena da cova que eu lembrava).
E nom me levou mais ao cinema, mas sim à praia, e conduzia, e lia, e vivia dum jeito moderno e liberal que ficou agora afogado polos anos de trabalho, o matrimónio canso, o cuidar da mae que nunca pensaram havia viver tanto e tam bem (e que continue).
Agora di o meu irmao que o mesmo lhe leva a moça para a casa. Quem sabe se nom se agocham futuros estranhos, novas vidas por alô, detrás da vindeira folha do calendário.

May 24, 2006

Artesa [Crónica da reforma] — São Tomé @ 9:11 am

Umha vizinha mercou umha artesa para decoraçom. O meu pai recriminou-lhe como pagava tanto por esse trebelho. Ela dixo-lhe que a ver de onde tirava um. El respondeu-lhe que era bem capaz de construi-lo. Ela nom o creu.
Entom o meu pai botou quinze dias dedicando o seu tempo livre (entre passeio, chapuças e chiquitos) a construir umha artesa. Madeira de pinheiro, tábuas grossas, com todas as suas peças, incluindo um pau para poder deixar a tapa aberta.
Isso sim, a um quinto do seu tamanho real.
O outro dia passei por casa e encontrei-na acima da neveira.
Abri-na para achar um inesperado tesouro. No seu interior deitavam-se, em perfeita ordem, três bolsas de olivas “La Española” a encher o espaço tudo.
Abrim o caixom e lá sorpreendu-me umha morea de sobre de açafram “Pote”.
Agora disque o meu pai está a fazer um hórreo pequeno, também de madeira, quêm sabe para agochar quê gram.

January 24, 2006

Primeiro super [Crónica da reforma] — São Tomé @ 5:30 pm

Aos 65 anos, logo de botar a vida detrás dum mostrador, entra no supermercado por vez primeira (pola minha culpa) e pergunta-lhe ao primeiro trabalhador que vê se tenhem salmom e onde está.
Conta-me a sua aventura quando chego a casa a fim de semana. “Olha tu, aos meus anos, esta semana fum a um supermercado por primeira vez na vida”. E explica-me o proceso, como para ver se fixo tudo bem ou se ainda lhe podo contar algum truco. “Saquei número, pedim, algo mais? nom, fum à caixa, paguei, marchei, tudo bem”.
Nessas voltas, sinto-me dessarmado ante essa sua certa indefensom ante parte do mundo mais cotiám. Precisamente toda essa parte que ela só olhava passar, até o de agora, por diante da porta da tenda.

September 21, 2005

Caminhar sozinha [Crónica da reforma] — São Tomé @ 9:54 am

Aos poucos, como era de prever, a mai vai-se desembaraçando dos fios que a atavam à sua rota e aos seus costumes. Agarrada ainda à casa e aos seus labores coma base de operações, vai medrando a área de domínio.
“Tenho gana de caminhar soa, sem ninguém, que nom me contem nada, caminhar para adiante e via, já escuitei gente abondo”.
E nom lhe falta razom. Ainda virám depois os outros passatempos para além dos passeios, e voltarám os livros e iram-se instalando as rotinas de ócio.
Polo de agora, gosto de pensá-la a caminhar com fúria entre os pradairos e o rio, a minha mesma velha rota.
Ainda é maravilha o tempo livre para ela, como nom.

September 9, 2005

Os primeiros dias [Crónica da reforma] — São Tomé @ 1:17 pm

Acaba a minha mai de se reformar . A história e longa e dá para muitos contos.
Para começar, ainda estou a assimilar aos poucos (e acho que nom me deixo) o conceito de ver fechada a tenda cos andeis baleiros. Encontrar os meus pais a se erguer mais tarde do que eu num dia da semana.

Polo momento vam poucos dias. Ela continua a fazer a mesma rota, da casa à tenda, da tenda à casa, com a excussa de ir lá umhas horas com Hermínia, ver a vizinhas, cobrar algumha conta, liquidar algumha cousa. Semelha no entanto que estivesse ainda a se afazer a ver as ruas ao tempo que percorre o invisível rail que guiou a sua vida nos últimos corenta anos.
Dá ainda a impresom de estar a se espreguizar dalgum jeito. Abrir as às. Olhar arredor, um bocado de medo por esse mundo que até o momento só chegava, dia a dia, através do balcom-frigorífico.
Suponho que a sensaçom é, amplificada, a mesma dum oficinista qualquer nas estraordinárias ocassões nas que se enfronta à manhá da cidade (o mundo da outra banda da fiestra). Pero desta vez, é para sempre.

Fico à espreita das suas mudanças, de como irám medrando os caminhos, de como tirará de enriba o po
e em que jeito vou olhar os ocos que ficam na paisagem da infáncia ainda preservada.

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