Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá...
Álvaro Cunqueiro Si o vello Sinbad volvese ás illas

November 6, 2009

A chuva dentro [Acotações] — São Tomé @ 10:30 am

A chuva da rua está cá no interior, doe na mao, achega umha tritura velha e molhada.
Somos um agora em corpo e água.
Embora sempre agocho anacos de sol na ponta dos dedos, debaixo do cabelo, nas axilas ou nos recantos de detrás dos joenlhos, ando anuvado e nom os dou prendido ajeitadamente.
É assim que nesta altura, cheio o corpo de humidade, ando meio por fora
e nom podo evitar, como é habitual nestes casos, atopar nesse contorno estranho
lembranças fragmentárias, paisagens antigas
nos que nom faltas
nem estás de mais.

October 23, 2009

Outras saudades tuas [Acotações] — São Tomé @ 11:54 am

Nesta altura da chúvia, acho de menos as viagens no carro, a escuitar repetidamente as mesmas canções na rádio, fim de semana trás fim de semana. Também os passeios outonizos no parque do Viaduto, com Fiona e Fuco a correr.
Lembro a tua capazidade para me fazer rir, muito de quando em quando, como pouca gente sabe.
Mas nom tem mal. É bom fazer reconto de boas cousas
limpar com a chúvia as lembranças
que som o que fica,
e nom preciso mais.

October 16, 2009

A sombra do Outono [Na ilha, Acotações] — São Tomé @ 12:12 pm

Há que caminhar e pôr-se ao sol do outono.
É essa a maneira de lhe colhermos jeito a estas sombras alongadas, nas que ainda nom estamos cómodos. Cómpre fazer vida para as ir enchendo de novos nós (nova gente, novas ledízias, estranhos pensamentos, chúvias ou noites cedas).
Devemos repartir-nos por dentro delas e nos preparar de cara ao inverno, quando já nom nos cuestionem tanto desde o chao, quando já sejam mais difusas e o seu poder tenda mais a nos levar à saudade,
como pólas espidas que lembram folhas.

October 1, 2009

A linha do baixo [Acotações] — São Tomé @ 8:54 am

Era um som xurdo, que a miúdo troava de mais na cabeça ou remexia o estómago com vibrações de baixa frecuência.
Deu bem para cansar.
Mas agora, sem essa linha do baixo,
embora nom tenho limite para as minhas improvisações,
é também certo que custa manter o ritmo
e lá vou e venho, a tocar contra o vento.

September 29, 2009

Primeiro pranto [Acotações] — São Tomé @ 7:38 pm

Por vez primeira, vem da banda dela a tristura essa das cousas que passárom.
Como nom podia ser doutro jeito, é um sabor de cousa pequena:
Ir buscarmos, domingo à noite, um kebab, e um dos dous agardar fóra com os cadelos,
e atopar depois essa ledízia pura deles ao sair.
Lá fica isso, e nom é por nós a mágoa.
É o sentir das cousas que forom, coma as da infáncia, coma os espaços pequenos que ficárom agochados e jordem e estoupam em silêncio dentro
e vam formado, coma corais, esta ilha.

July 21, 2009

Empurrar a luz [Acotações] — São Tomé @ 11:21 am

Na meditaçom, abaneo com insisténcia cara ao interior do quarto. Empurro com o ombreiro e levo onda ele a mao como para ajudar.
Dalgum jeito estou a puxar com a luz que entra pola janela, fago força para lhe conseguir um espaço
como se a penumbra fosse um muro
que nom queremos.

July 16, 2009

O intre do silêncio [Acotações] — São Tomé @ 11:26 am

Contestar o telefone. No ponto exacto em que se descolga e ainda nom se falou, e nom se sabe o número e ficou o fio do pensamento esnaquizado polo timbre, e nom se ouviu voz nengumha e quêm sabe o quê nos pode jurdir do auricular.
Todas as possibilidades contida nesse segundos, nom se pode pensar mais que em quêm está a chamar. A atençom fixada num baleiro no que confluem as opções.
É inevitável o certo enfado que se sente ao descobrar da outra banda um teleoperador que, além do Oceano, prega pola nossa atençom e racha a magia ao proclamar solene a ultima oferta em telefonia.

March 10, 2009

Interpretaçom de sonhos em sonhos [Acotações] — São Tomé @ 1:50 pm

No sonho Tino interpretava um meu sonho que tivera quando durmia mentres sonhava

March 4, 2009

O sorriso medieval [Na ilha, Acotações] — São Tomé @ 12:42 pm

“On the withered face of the old man Marne there was a faint renewal of that laughter that has slept since the Middle Ages”
(The Flying Inn, G.K. Chesterton).

Há que apanhar o velho sorriso e afia-lo contra as pedras,
arma arrebolazida para as Idades Escuras que nos caem.

February 26, 2009

Comboio e Jorge Amado [Acotações] — São Tomé @ 1:20 pm

Apanhar o comboio coma quem dá num livro do Jorge Amado.
Olhar para o mundo um bocado afastados (nunca é possível fugir por completo da cena).
Fazer jantares conhecidos em bares ignotos.
Afinal a questom é atopar outros céus.
E apenas é cousa de abrir as janelas.

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