Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá...
Álvaro Cunqueiro Si o vello Sinbad volvese ás illas

November 16, 2009

A roupa grande [Na ilha] — São Tomé @ 12:15 pm

Logo de perto de cinco anos sem os ver, os meus tios adquirírom um jeito como de títeres com cordar frouxas, vestidos com roupas grandes. Já nom é o ser eu inevitavelmente mais alto, o termos todos emagrecido. É a sensaçom de os ver mover-se como fora do contorno, faltos dum nervo que nunca lhes faltara e que ainda nom acho em falta nos meus próprios pais.
A espalda curva, a cabeça botada para adiante, os olhares algo mais perdidos, os sucos do tempo neles e entre eles e mais eu, e arredor a estranheça inevitável dum velório.

November 9, 2009

Tinta na água [Na ilha] — São Tomé @ 5:55 pm

Levo dentro os velenos
coma a tinta na água.

Adoitam ver-se-me nos olhos, sempre vermelhos,
(e às vezes tam cheios da vida e do mundo).
Tenhem vezes de subir até as bonecas, inchar-me as maos,
dar em doer e me insistir no pouco que se val
que ai está a enfermidade e o corpo e nom há volta.

Afinal, tenhem as suas próprias marés, ou serám as minhas
(ou as tuas que ainda ficas também
inoculada
e es quem de mover esse tinte
-sei lá se querendo, sei lá se som eu mesmo ao me virar na cama para tentar dumir-
e me lixar algumha ledízia)
e vam e venhem por dentro e no devalo arrastam-me a velhas furnas.

Estám lá contigo as inseguridades, a irracional tendência a pequenas destruições, as invejas, o querer ser eu o primeiro em rejurdir, o nom saber quanto e como se me quere desde longe, a tensom profunda entre passado e presente (lembrança e resto seco) que em ocasiões ameaça com me esgaçar por completo, o silêncio e tantos outros.

Mas no entanto, estám em mim
é com essas peçonhas com as que jogo também
a fazer figuras enquanto danço
ou choro
ou laio tóxico
e fico assim eu também
forma na água.

October 29, 2009

Apenas as folhas [Na ilha] — São Tomé @ 7:06 pm

Ressistimos o outono. Ainda imos às terraças, deitamos nos parques, olhamos o sol a dessafiar o calendário e caminhamos de camissola polas ruas.
No entanto, vem cá a noite ceda a nos insistir: nom tem volta.
Embora pensemos nas flores temperás da cerdeira, nom é ainda momento para a primavera.
Olhamos as árbores, apenas as folhas dam razom do tempo que nos passa.
Lá nas polas ou deitadas primeiras na verma da estrada, targetas de visita.

October 20, 2009

Trapobana Oral [Na ilha] — São Tomé @ 11:16 pm

E quê bom e quanto estranho é falar Trapobana. E ainda bem que há gente e gente
com a que partilhar a perceiçom mesma da realidade.
A Propriedade dos Lugares
Os Gostos
A citas que ficam cá e ninguém lê.
Quanto há de bom nos momentos em que Trapobana se faz idioma
quanta magia fica dentro em a verbalizar, que dá para voltar a casa a cantar Nantes e quase a chorar, contente e com os ombros ainda encolheitos, a gardar algum abraço.
Obrigado.

October 16, 2009

A sombra do Outono [Na ilha, Acotações] — São Tomé @ 12:12 pm

Há que caminhar e pôr-se ao sol do outono.
É essa a maneira de lhe colhermos jeito a estas sombras alongadas, nas que ainda nom estamos cómodos. Cómpre fazer vida para as ir enchendo de novos nós (nova gente, novas ledízias, estranhos pensamentos, chúvias ou noites cedas).
Devemos repartir-nos por dentro delas e nos preparar de cara ao inverno, quando já nom nos cuestionem tanto desde o chao, quando já sejam mais difusas e o seu poder tenda mais a nos levar à saudade,
como pólas espidas que lembram folhas.

October 10, 2009

Donas do tempo perdido [Na ilha] — São Tomé @ 3:00 am

E agora precisava de ti, ou de ti, donas do meu tempo perdido. Onde andades, quê foi de vós, e como figestes que a vossa ausência ainda tem poder às vezes e marea e arrasta e verifica a saudade.
Onde ides e por quê nom aqui, meus bens
que gardo carinhos atrassados (poida que já ressesos)
nesta hora da noite final em quê pergunto
onde ficou o vosso amor
por quê virou silêncio
e mansedume.

Voltar à casa [Na ilha] — São Tomé @ 2:46 am

Velaqui outra saudade. Volto a esta casa (ainda nova, ainda nom de todo minha quanto também tua), meio bébado, e nom tenho que mirar por ti. Nom tenho que turrar por ti escaleiras arriba, e olha como se fai mais complicado ascender, como abaneo mais contra as portas.
Velaqui estoutra tua saudade: cuidar-te, deixar-me por ti, preocupar-se por alguém mais do que por durmir sozinho.
Nom vomitas na porta, nom tenho que sacar manhá cam nengum de passeio.
Só fica escuitar El Último de la Fila sozinho e ir para a cama
em sabendo que por vezes estou pior -alcol, sono, tempos, silêncios- do que, até certo ponto contigo.
Mas nom me arrepento.

October 7, 2009

A largura de setembro [Na ilha] — São Tomé @ 8:22 am

Às vezes, setembro fai-se enorme.
Abrangue com os seus dias incertos todo tipo de sensações
atopamos nos seráns demorados ecos da infáncia, prolongamos no verám, acubilhamo-nos nas primeiras folhas secas.
E custa dar-se conta lá no meio, enredados como estamos nos encontros e despedidas, nas incertezas e promessas que nos acompanham lá.

Há que agardar polas chuvas, polos momentos posteriores de saudade para assimilar e lembrar esses dias,
tomarmos-lhe a largura exacta do setembro que já foi.

September 28, 2009

Gosto e necessidade [Na ilha] — São Tomé @ 11:59 am

Embora nom seja em absoluto imprescindível
(nom estou a afogar, nom vou tam à deriva, nom levo lastre amarrado aos pés nem me vejo perdido)
amarro-me aos olhos teus como para me salvar
gardo-che o sorriso no pensamento coma um amuleto único para tornar os maus augúrios
ou será apenas
porque gosto
e ficam bem as nossas horas
a rolar pola lembrança
iluminando as cousas velhas
achegando ar.

September 22, 2009

Setembro [Na ilha] — São Tomé @ 3:49 pm

Cá estamos. No meio desta estaçom que nom existe, a agardar polo vento.
Tentamos os passos todos, dispomo-nos para a vida
e, no entanto,
quanto demora a cousa
como nom há lugar onde se deixar cair
em quê jeito se transformam os dias numha agarda
e medram os projectos pequenos.
Acô andamos
a conter a respiraçom, ver os amigos um por um e intercambiarmos azos
para o outono que vem
enquanto nom deixamos
de olhar as tardes, já menos longas
nem de cantar um bocado
breves cançons para nos animar.

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