Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá...
Álvaro Cunqueiro Si o vello Sinbad volvese ás illas

October 29, 2009

Apenas as folhas [Na ilha] — São Tomé @ 7:06 pm

Ressistimos o outono. Ainda imos às terraças, deitamos nos parques, olhamos o sol a dessafiar o calendário e caminhamos de camissola polas ruas.
No entanto, vem cá a noite ceda a nos insistir: nom tem volta.
Embora pensemos nas flores temperás da cerdeira, nom é ainda momento para a primavera.
Olhamos as árbores, apenas as folhas dam razom do tempo que nos passa.
Lá nas polas ou deitadas primeiras na verma da estrada, targetas de visita.

October 20, 2009

Trapobana Oral [Na ilha] — São Tomé @ 11:16 pm

E quê bom e quanto estranho é falar Trapobana. E ainda bem que há gente e gente
com a que partilhar a perceiçom mesma da realidade.
A Propriedade dos Lugares
Os Gostos
A citas que ficam cá e ninguém lê.
Quanto há de bom nos momentos em que Trapobana se faz idioma
quanta magia fica dentro em a verbalizar, que dá para voltar a casa a cantar Nantes e quase a chorar, contente e com os ombros ainda encolheitos, a gardar algum abraço.
Obrigado.

October 16, 2009

A sombra do Outono [Na ilha, Acotações] — São Tomé @ 12:12 pm

Há que caminhar e pôr-se ao sol do outono.
É essa a maneira de lhe colhermos jeito a estas sombras alongadas, nas que ainda nom estamos cómodos. Cómpre fazer vida para as ir enchendo de novos nós (nova gente, novas ledízias, estranhos pensamentos, chúvias ou noites cedas).
Devemos repartir-nos por dentro delas e nos preparar de cara ao inverno, quando já nom nos cuestionem tanto desde o chao, quando já sejam mais difusas e o seu poder tenda mais a nos levar à saudade,
como pólas espidas que lembram folhas.

October 10, 2009

Donas do tempo perdido [Na ilha] — São Tomé @ 3:00 am

E agora precisava de ti, ou de ti, donas do meu tempo perdido. Onde andades, quê foi de vós, e como figestes que a vossa ausência ainda tem poder às vezes e marea e arrasta e verifica a saudade.
Onde ides e por quê nom aqui, meus bens
que gardo carinhos atrassados (poida que já ressesos)
nesta hora da noite final em quê pergunto
onde ficou o vosso amor
por quê virou silêncio
e mansedume.

Voltar à casa [Na ilha] — São Tomé @ 2:46 am

Velaqui outra saudade. Volto a esta casa (ainda nova, ainda nom de todo minha quanto também tua), meio bébado, e nom tenho que mirar por ti. Nom tenho que turrar por ti escaleiras arriba, e olha como se fai mais complicado ascender, como abaneo mais contra as portas.
Velaqui estoutra tua saudade: cuidar-te, deixar-me por ti, preocupar-se por alguém mais do que por durmir sozinho.
Nom vomitas na porta, nom tenho que sacar manhá cam nengum de passeio.
Só fica escuitar El Último de la Fila sozinho e ir para a cama
em sabendo que por vezes estou pior -alcol, sono, tempos, silêncios- do que, até certo ponto contigo.
Mas nom me arrepento.

October 7, 2009

A largura de setembro [Na ilha] — São Tomé @ 8:22 am

Às vezes, setembro fai-se enorme.
Abrangue com os seus dias incertos todo tipo de sensações
atopamos nos seráns demorados ecos da infáncia, prolongamos no verám, acubilhamo-nos nas primeiras folhas secas.
E custa dar-se conta lá no meio, enredados como estamos nos encontros e despedidas, nas incertezas e promessas que nos acompanham lá.

Há que agardar polas chuvas, polos momentos posteriores de saudade para assimilar e lembrar esses dias,
tomarmos-lhe a largura exacta do setembro que já foi.

September 28, 2009

Gosto e necessidade [Na ilha] — São Tomé @ 11:59 am

Embora nom seja em absoluto imprescindível
(nom estou a afogar, nom vou tam à deriva, nom levo lastre amarrado aos pés nem me vejo perdido)
amarro-me aos olhos teus como para me salvar
gardo-che o sorriso no pensamento coma um amuleto único para tornar os maus augúrios
ou será apenas
porque gosto
e ficam bem as nossas horas
a rolar pola lembrança
iluminando as cousas velhas
achegando ar.

September 22, 2009

Setembro [Na ilha] — São Tomé @ 3:49 pm

Cá estamos. No meio desta estaçom que nom existe, a agardar polo vento.
Tentamos os passos todos, dispomo-nos para a vida
e, no entanto,
quanto demora a cousa
como nom há lugar onde se deixar cair
em quê jeito se transformam os dias numha agarda
e medram os projectos pequenos.
Acô andamos
a conter a respiraçom, ver os amigos um por um e intercambiarmos azos
para o outono que vem
enquanto nom deixamos
de olhar as tardes, já menos longas
nem de cantar um bocado
breves cançons para nos animar.

September 17, 2009

Lembra-mo [Na ilha] — São Tomé @ 9:03 am

Has de vir e me lembrar como dançamos aquelas horas.
Era bom apareceres e renovarmos o passo, jogar mais um bocado às achegadas como se nom passassem os dias e os quilómetros, como se nom arrefriássemos inevitavelmente os corpos.
Será cousa das maniotas e da chuva, de tudo o que afinal havia no retorno, mas fico cá com vontade de menzinha de noite longa que você sabe dispensar.

Vem, eu vou pousar a mao no teu quadril…

August 2, 2009

Voltar à cidade velha [Na ilha] — São Tomé @ 1:17 pm

Retorno à cidade numha tarde anuvada. Dalgum jeito, sei que as ruas que atoparei som as que deixei há anos, e nom aquelas das que fugim há apenas dous dias.
Lá devo estar eu antes, e as noites longas com gente apenas conhezida.
Nom sei o que me agarda, mas algo há neste meu caminhar meio por baixo das pedras que é o mesmo daquela.
Exercerei a nostalgia de jeito activo entom, hei viver por umhas horas nessa caste de revisom.
Voltarei a locais esquezidos, caminharei com maus nos petos e as costas curvadas, olhando o chao. Tudo é actualizar a sintonia com essa parte de Compostela que ficava nalgures e que, quêm sabe por quê, retornou agora. E deixá-la de volta, um bocado mais limpa, mais em forma, para vindeiros reencontros, em sabendo já que sim som possíveis e fam parte da mesma vida que transcorre mas que nom sempre afasta.

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