Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá...
Álvaro Cunqueiro Si o vello Sinbad volvese ás illas

November 18, 2009

Abraços [Gostos] — São Tomé @ 1:51 pm

Sou amigo de abraços. Mais do que de beijos fugazes nas façulas ou de dar a mao.
Gosto dar o sentido dos meus braços nas costelas, abraguer a gente.
Fazer sentir algum jeito que poden lá contar com a minha força toda.

November 16, 2009

A roupa grande [Na ilha] — São Tomé @ 12:15 pm

Logo de perto de cinco anos sem os ver, os meus tios adquirírom um jeito como de títeres com cordar frouxas, vestidos com roupas grandes. Já nom é o ser eu inevitavelmente mais alto, o termos todos emagrecido. É a sensaçom de os ver mover-se como fora do contorno, faltos dum nervo que nunca lhes faltara e que ainda nom acho em falta nos meus próprios pais.
A espalda curva, a cabeça botada para adiante, os olhares algo mais perdidos, os sucos do tempo neles e entre eles e mais eu, e arredor a estranheça inevitável dum velório.

November 12, 2009

Copiloto [Gostos] — São Tomé @ 2:42 pm

Gosto de viaxar onda o condutor, a olhar a estrada, atender a rádio, planificar a rota, contemplar a chúvia bater no cristal, achegar comida ou bebida
e de quando em quando ficar calado e me abstrair.

( É bem certo que agora mesmo o gosto tem a ver com as viagens que fôrom contigo, mas já lá as vam
e deixa-as estar com as cousas boas que tivérom e que hei fazer por gardar)

November 11, 2009

Olhar [Gostos] — São Tomé @ 9:43 pm

Gosto de olhar pola janela o que vier
dos momentos mortos em que me decato da casa, dos parques, dos céus
dos anacos em que som apenas olho.

November 9, 2009

Tinta na água [Na ilha] — São Tomé @ 5:55 pm

Levo dentro os velenos
coma a tinta na água.

Adoitam ver-se-me nos olhos, sempre vermelhos,
(e às vezes tam cheios da vida e do mundo).
Tenhem vezes de subir até as bonecas, inchar-me as maos,
dar em doer e me insistir no pouco que se val
que ai está a enfermidade e o corpo e nom há volta.

Afinal, tenhem as suas próprias marés, ou serám as minhas
(ou as tuas que ainda ficas também
inoculada
e es quem de mover esse tinte
-sei lá se querendo, sei lá se som eu mesmo ao me virar na cama para tentar dumir-
e me lixar algumha ledízia)
e vam e venhem por dentro e no devalo arrastam-me a velhas furnas.

Estám lá contigo as inseguridades, a irracional tendência a pequenas destruições, as invejas, o querer ser eu o primeiro em rejurdir, o nom saber quanto e como se me quere desde longe, a tensom profunda entre passado e presente (lembrança e resto seco) que em ocasiões ameaça com me esgaçar por completo, o silêncio e tantos outros.

Mas no entanto, estám em mim
é com essas peçonhas com as que jogo também
a fazer figuras enquanto danço
ou choro
ou laio tóxico
e fico assim eu também
forma na água.

November 6, 2009

A chuva dentro [Acotações] — São Tomé @ 10:30 am

A chuva da rua está cá no interior, doe na mao, achega umha tritura velha e molhada.
Somos um agora em corpo e água.
Embora sempre agocho anacos de sol na ponta dos dedos, debaixo do cabelo, nas axilas ou nos recantos de detrás dos joenlhos, ando anuvado e nom os dou prendido ajeitadamente.
É assim que nesta altura, cheio o corpo de humidade, ando meio por fora
e nom podo evitar, como é habitual nestes casos, atopar nesse contorno estranho
lembranças fragmentárias, paisagens antigas
nos que nom faltas
nem estás de mais.

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