Gosto de reformas interiores, especialmente em velhos edifícios. Adoro essas casas já rematada por fora, a gardar dentro o espaço caótico, mau iluminado, cheio de trabalhadores e móbeis sem arrumar.
Gosto do arrecendo de madeira cortada, das colas, da silicona, da pintura, do suor e da cerveja que fica nas latas. O som das serras, os traslados de vultos e o frescor incrível que habita estes espaços, os estranhos móveis e aparelhos que se atopam lá.
Será cousa de ter estado em tantos destes lugares com o pai, de rapaz, e atopar lá um bocado do seu carinho.
October 30, 2009
Obras interiores
October 29, 2009
Apenas as folhas
Ressistimos o outono. Ainda imos às terraças, deitamos nos parques, olhamos o sol a dessafiar o calendário e caminhamos de camissola polas ruas.
No entanto, vem cá a noite ceda a nos insistir: nom tem volta.
Embora pensemos nas flores temperás da cerdeira, nom é ainda momento para a primavera.
Olhamos as árbores, apenas as folhas dam razom do tempo que nos passa.
Lá nas polas ou deitadas primeiras na verma da estrada, targetas de visita.
October 27, 2009
Meditaçom
Gosto da sensaçom de deixar fluír os pensamentos.
Sentado no chao, a olhar a paisagem correr detrás dumha janela ou de pé e com movimentos espontáneos do corpo a acompanahar esse movimento. Sentir como eslue o sentido e fica apenas o passar duns para outros, sem sequer ficar no estranho das conexões.
E contemplar como vam apagando, aos poucos, em luz sem cor nengum.
October 23, 2009
Outras saudades tuas
Nesta altura da chúvia, acho de menos as viagens no carro, a escuitar repetidamente as mesmas canções na rádio, fim de semana trás fim de semana. Também os passeios outonizos no parque do Viaduto, com Fiona e Fuco a correr.
Lembro a tua capazidade para me fazer rir, muito de quando em quando, como pouca gente sabe.
Mas nom tem mal. É bom fazer reconto de boas cousas
limpar com a chúvia as lembranças
que som o que fica,
e nom preciso mais.
October 20, 2009
Trapobana Oral
E quê bom e quanto estranho é falar Trapobana. E ainda bem que há gente e gente
com a que partilhar a perceiçom mesma da realidade.
A Propriedade dos Lugares
Os Gostos
A citas que ficam cá e ninguém lê.
Quanto há de bom nos momentos em que Trapobana se faz idioma
quanta magia fica dentro em a verbalizar, que dá para voltar a casa a cantar Nantes e quase a chorar, contente e com os ombros ainda encolheitos, a gardar algum abraço.
Obrigado.
Cantar
Gosto de cantar. Sentir a vibraçom ao longo do corpo todo.
No cérebro a repetiçom das sinapses que achegam os momentos todos nos que se cantou o mesmo.
Feito um mesmo em muitas épocas, a viver simultaneamente nos dous estremos da pauta vibratória das cordas vogais
feito puro proceso sem intençom.
October 19, 2009
Linhas de fuga
Gosto das linhas de fuga imensas que fam as vias nas estações de combóios descobertas.
Gosto desses céus amplos sobre umha terra secundária, abandonada, cheia de ferrugem, dos arrabaldos ferroviários.
Recolher a saia
Gosto do gesto mínimo de mulher
a recolher com a mao um bocado a saia longa
para baixar escaleiras.
October 16, 2009
A sombra do Outono
Há que caminhar e pôr-se ao sol do outono.
É essa a maneira de lhe colhermos jeito a estas sombras alongadas, nas que ainda nom estamos cómodos. Cómpre fazer vida para as ir enchendo de novos nós (nova gente, novas ledízias, estranhos pensamentos, chúvias ou noites cedas).
Devemos repartir-nos por dentro delas e nos preparar de cara ao inverno, quando já nom nos cuestionem tanto desde o chao, quando já sejam mais difusas e o seu poder tenda mais a nos levar à saudade,
como pólas espidas que lembram folhas.
October 10, 2009
Donas do tempo perdido
E agora precisava de ti, ou de ti, donas do meu tempo perdido. Onde andades, quê foi de vós, e como figestes que a vossa ausência ainda tem poder às vezes e marea e arrasta e verifica a saudade.
Onde ides e por quê nom aqui, meus bens
que gardo carinhos atrassados (poida que já ressesos)
nesta hora da noite final em quê pergunto
onde ficou o vosso amor
por quê virou silêncio
e mansedume.

