Por vez primeira, vem da banda dela a tristura essa das cousas que passárom.
Como nom podia ser doutro jeito, é um sabor de cousa pequena:
Ir buscarmos, domingo à noite, um kebab, e um dos dous agardar fóra com os cadelos,
e atopar depois essa ledízia pura deles ao sair.
Lá fica isso, e nom é por nós a mágoa.
É o sentir das cousas que forom, coma as da infáncia, coma os espaços pequenos que ficárom agochados e jordem e estoupam em silêncio dentro
e vam formado, coma corais, esta ilha.
September 29, 2009
Primeiro pranto
September 28, 2009
Gosto e necessidade
Embora nom seja em absoluto imprescindível
(nom estou a afogar, nom vou tam à deriva, nom levo lastre amarrado aos pés nem me vejo perdido)
amarro-me aos olhos teus como para me salvar
gardo-che o sorriso no pensamento coma um amuleto único para tornar os maus augúrios
ou será apenas
porque gosto
e ficam bem as nossas horas
a rolar pola lembrança
iluminando as cousas velhas
achegando ar.
September 22, 2009
Setembro
Cá estamos. No meio desta estaçom que nom existe, a agardar polo vento.
Tentamos os passos todos, dispomo-nos para a vida
e, no entanto,
quanto demora a cousa
como nom há lugar onde se deixar cair
em quê jeito se transformam os dias numha agarda
e medram os projectos pequenos.
Acô andamos
a conter a respiraçom, ver os amigos um por um e intercambiarmos azos
para o outono que vem
enquanto nom deixamos
de olhar as tardes, já menos longas
nem de cantar um bocado
breves cançons para nos animar.
September 17, 2009
Lembra-mo
Has de vir e me lembrar como dançamos aquelas horas.
Era bom apareceres e renovarmos o passo, jogar mais um bocado às achegadas como se nom passassem os dias e os quilómetros, como se nom arrefriássemos inevitavelmente os corpos.
Será cousa das maniotas e da chuva, de tudo o que afinal havia no retorno, mas fico cá com vontade de menzinha de noite longa que você sabe dispensar.
September 1, 2009
Com a cidade polos joenlhos
Enquanto se move tudo um bocado, e ninguém semelha estar a salvo, caminho afundido na cidade.
Dam-me os lastros da rua pola altura dos joenlhos. Estou dentro como se tivesse cá nacido e fossem as ruas as da minha infáncia.
Caminho como a sintonizar a rádio, de sensaçom em sensaçom, como a passar os dedos por engurras conhecidas, como a ler vários livros sabidos a um tempo.
E em certos recantos, dá-me gana de me deitar no chao para abraçar um mínimo esta Compostela e lhe dizer que tenho gana de nom precisar nada mais, que gostava de ficar dentro como estou.
Mas afinal fico a pé e finco o talom na pertença a este lugar, a me amarrar para o que venha, a sentir lá no fundo do pé o bater diário da sua vida.

