Na meditaçom, abaneo com insisténcia cara ao interior do quarto. Empurro com o ombreiro e levo onda ele a mao como para ajudar.
Dalgum jeito estou a puxar com a luz que entra pola janela, fago força para lhe conseguir um espaço
como se a penumbra fosse um muro
que nom queremos.
July 21, 2009
Empurrar a luz
July 17, 2009
Sinestesias
Enquanto janto, fico a olhar o enlousado com pintas pretas, os talhos do restaurante. As patas de madeira no soalho contenhem dalgum jeito os veraos da minha infáncia (o mesmo lugar ao que transito no arrecendo dos portais fregados), as tardes longas, a Mirinda, as viagens que semelhavam eternas até a proia. Será o debuxo das lousas tam semelhante ao da tenda dos pais, a luz indirecta que chega desde a porta, algumha combinaçom com o sabor da crema de cenoura.
De jeito semelhante, atopo sensações de empatia e emociono-me em determinados movimentos de taichi (o grou branco estende as asas, maos coma nuvens), tam queridas. Retenho manhás de sábado em jeitos concretos em que me espreguiço na cama até sentir a pituitária a se estarricar.
Simpatizo com as pedras do começo da costa da Acibacharia, lá onde se deixa a sombra do paço arcebispal. Há um anaco de sol de primavera prendido desde há anos num lateral do Pazo de Fondevila.
Tenho tempos, lugares, livros e canções amarrados por toda a parte, favoritos de navigaçom sinestésicos e descontrolados que se disparam sozinhos quando calhar.
E às vezes som de mais, algumhas manhás está o mundo cheio de madalenas e cria-se entom umha estranha tristura que algo tem a ver com estar cá e agora e nom em toda a parte que se perdeu.
July 16, 2009
O intre do silêncio
Contestar o telefone. No ponto exacto em que se descolga e ainda nom se falou, e nom se sabe o número e ficou o fio do pensamento esnaquizado polo timbre, e nom se ouviu voz nengumha e quêm sabe o quê nos pode jurdir do auricular.
Todas as possibilidades contida nesse segundos, nom se pode pensar mais que em quêm está a chamar. A atençom fixada num baleiro no que confluem as opções.
É inevitável o certo enfado que se sente ao descobrar da outra banda um teleoperador que, além do Oceano, prega pola nossa atençom e racha a magia ao proclamar solene a ultima oferta em telefonia.
July 8, 2009
Gasolineiras pantasma
Cada vez gosto mais de gasolineiras. Há ser por carecerem, a priori, de sentido próprio. Tudo lá está interferido polo alheio.
Desenho estándar, marcas de fóra, produtos idénticos. Nom-lugares penetrados pola globalizaçom, feitos apenas para passar deixando a menor pegada num.
Para além, há sempre um anaco de céu. Umha esplanada. Um cruze de caminhos sem cruzeiro nengum. O calor do telhado e dos alimentos, das revistas, dos joguetes e da supervivência e a comodidade rápida garantida nos seus andeis.
E gosto desse baleiro zen e acolhedor.
Mas quiçais, quando passeio por lá, do que mais gosto som das excrecências humanas que as inçam e as colonizam. Coma o briom e os liques nos muros, as personalizações, a entropia que jorde e as fai achegadas, únicas, particulares.
Cartazes com ementas cheias de gralhas ortográficas. Adornos. Lixo que revela histórias (conversas telefónicas cheias de ansiedade em pias de cigarros, viagens de estrada em litronas, namoros furtivos nos banhos na forma de envoltórios de condões, pelexas de camioneiros, perdas de documentaçom à hora de pagar). E também o deterioramento das instalações, a erva a medrar em qualquer recanto, a maquinária a se oxidar que dam nestas paragens consciência especial da futura ruína, e fam ainda mais cruzadas as sensações.
July 3, 2009
A tarde demorada
É nestes dias que a tarde demora até o ponto que o dia semelha nom rematar, de tam largos os céus.
Apresenta-se a noite entom penetrada de sol até no escuro, indissolúvel da vida.
Nom val repregar-se, fugir, fechar os olhos, fazer-se durmidos.
Há que ir, baixar as costas, olhar a gente por toda a parte, caminhar umha capa por baixo do quotidiano, inseridos mais fundo na cidade
e no bater do seu ritmo ir dançando noite através, a ser o que nos reclama, partes inexcusáveis de verao, actores do sol nas horas escuras
em desespero, jogo e leda saudade.


