Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá...
Álvaro Cunqueiro Si o vello Sinbad volvese ás illas

April 29, 2009

Dores de parto [Na ilha] — São Tomé @ 11:17 am

Contraturas, artrites, insónios estranhos, erros. Fago por os encarar coma se fossem dores do parto.
Atopo, no bordo dos olhos incongruências na paisagem. Piscam as luzes, esvaem-se os braços da lámpada se olho para o centro tempo abondo. Abanea algo no ar perto do chao do banho.
Albisco a possibilidade de que haja buracos na realidade, de que seja possível turrar por eles para derrubar o conjunto e achar, por fim a tramoia da vida. Outra cousa será sermos capazes de manexar os mil fios que agora olhamos coma casualidades.
Atopo ecos de mim mesmo em todas as paisagens e as canções, no jeito de estar, nos anos e nas ausências.

Há, como corresponde à época, cousas que querem sair, e dam em provocar moléstias. Mercar, mudar, arrincar, ler, demorar, olhar, ver mais gente, outra gente, refazer anacos de vida que nom tinham mal nengum ata o de agora.
Deixo-me levar.
Erro, racho, lixo e trabuco-me.
Actuo como jeito de único de me ir achegando ao que tenha que ser, com curiossidade por como me hei reconhecer logo de tudo.

April 27, 2009

Apreender a casa [Da propriedade dos lugares] — São Tomé @ 12:31 pm

Por vez primeira na nova casa, ajudado pola dor do pescoço, atopo-me deitado, coma quando neno, a olhar o patrom dos fios do cobertor, o jeito em que incide a luz da fim da tarde sobre os andeis cheios de livros. Aproveito o momento de imobilidade e fago por reter o friso de folhas que há no cabeceiro da cama, a cadeia da que pende a lámpada, a fendas na pintura do teito.
Lá estou por fim a me fazer dono da casa, a goçar-lhe a imobilidade da tarde de domingo. Tento esculcar até que altura chega o curuto da torres que podo olhar no espelho no armário, recortadas contra as nuvens. Verifico quantos aviões tenho afinal no quarto, busco-lhe cos pés os distintos finais à cama, angulo a visom para comprovar quê se vê na janela além de céu.
No processo de estar, descobro em certa altura a perfeiçom do intre, apreendo esse meu reino, quarto de luz queda e livros, e decato-me que nunca desejei cousa nengumha que nom esteja lá.

April 22, 2009

Proximidade da primavera nas Hortas [Da propriedade dos lugares] — São Tomé @ 9:20 am

Ao baixar pola minha velha rua olho os lixos, as plantas que medram ridículas entre os passeios e os muros da casas assolagados polo sol, coma tantas outras tarde. Mas há algo estranho nos estómago e na cabeça, umha certa dúvida de que sejam exactamente os mesmos, o medo a ter perdido no inconsciente momentos cruziais no agromar das sementes dos telhados, de nom ter visto, coma aquela manhá, o jardim de garrafas de mil cores onda o contentor.

Enfiando polas Hortas, atopo-me ao carom da primavera coma em sítio nengum da cidade, e penso até que ponto me afastei desses ritmos. Cá está a figueira, a cerdeira pequena, as estrugas e as ervas que medram sen controlo nengum entre corta e corta baixo o sol. E nom estivem nas mudanças.

A sensaçom é quase de vertigem, mas sei que ainda é cedo. Que um dia qualquer, em baixando as escaleiras desde o obradoiro, há vir a rua empurrada polo sol da tarde e me há dar nos focinhos com toda a força. E me há fazer chorar, ou deixará-me parado no meio e meio, atoutado pola açouta.

April 16, 2009

Um lugar ao sul do Barbança [Da propriedade dos lugares] — São Tomé @ 11:22 am

Na geografia dos meus sonhos, há umha vila marinheira pequena ao Sul do Barbança, encirrada entre montes. Para ir lá apanhámos umha autovia que estava sem rematar. Baixámos lá algumha vez, no casco histórico havia casas abandonadas e ruas com passos por cima. Há dois dias sonhei de novo com o lugar. Numha cala havia restos dum antigo templo: colunas baixo a água, a tumba dum herói com espada… Ao espertar, decatei-me da localizaçom real: Tenho que ir por Monte Louro.

April 13, 2009

Amar as vilas [Da propriedade dos lugares] — São Tomé @ 4:51 pm

Há que amar Mondonhedo, Celanova, Monforte, Ribadavia, Ortigueira, Betanços, Caldas.
Há que ir e olhar e sentir as ruas pequenas, as glórias passadas, as vidas concentradas no espaço e a sempre saudade que acompanha as velhas vilas galegas.
Há que caminhar até o rio de vagar e olhar-lhe as trasseiras às casas, os comércios parados nos anos, as janelas de guilhotina, os lugares abandonados.
E lá querer ficar, por compartir o devalar miudo, a erosom existencial que lhes provocam as corrente, como se nalgum momento tivessem saido do próprio curso e decidissem ficar à margem, onde ainda ressistem.
E como se fosse lá possível ainda se salvar um bocadinho, ralentizar o ritmo, manter os anos amalhoados e i-los ceivando mais aos poucos
embora fosse com o temor da enchente inevitável.

April 7, 2009

Sentir o chao mol [Da propriedade dos lugares] — São Tomé @ 9:41 am

Volto à casa a atravessar o casco histórico. Em cada passo, procuro detectar onde é que afundo mais o pé.
O Franco, Praterias, a Quintana, Cervantes, Casas Reais… Há lugares nos que erguer a planta do chao é um bocadinho, apenas nada, mais difícil.
Ainda nom enraizei totalmente cá, mas já se deixa sentir umha certa resistência em pontos concretos, paisagens apropriadas, chaos nos que o pé bate com a própria pegada doutros momentos
e vai desgastansdo a pedra à minha própria medida.

April 6, 2009

A dedicaçom Zen de ser pequeno [Na ilha] — São Tomé @ 12:15 pm

Daquela botávamos horas a fazer desenhos nímios com toda a seriedade. Dedicávamos tardes a escrever histórias pequenas que lhes amosávamos aos amigos, a inventar contos para jogar numha partida, levar diários, montar argumentos para as aventuras dos clicks.
Puido ser, sei lá, até os quinze, os dezasseis, aquel botar o tempo metidos no quarto a experimentar com as sensações, a tentar nos afazer a tudo o que podem espertar a música e as letras. Ler e ouvir de vagar, e depois ficar calados a lhe dar voltas, a sentir como apousentava e nos davam forma.
Era a dedicaçom exclussiva daquela a sentir, a olhar pola fiestra, a definir sentimentos e imaginar conversas nunca ditas. Marés que iam e vinham dos pés à cabeça, com bem mais vida dentro do que fóra.

Perdemos dalgum jeito aquela capazidade de concentraçom. Fazer e estar no momento, dando-lhe toda a importáncia do mundo aos riscos que nom havia ler ninguém.
Eramos zen de pequenos nisso. Jogar com bonecos e que tudo corresse como tinha que correr.
E tampouco a isso sabemos voltar?

(Atopo na imensa Fun Home um ponto de partida para este retorno que nom conhecia).

April 2, 2009

A pequena distáncia da manhá [Na ilha] — São Tomé @ 10:38 am

É de manhá. Estranhamente caminho por ruas que nom som as que levam ao trabalho. Há um aquel de liberdade, embora só sejam uns momentos antes de retornar à própria vida.
Coma nestes casos, alheio do meu contexto, observo o mundo cumha certa distáncia. Há gente por toda a parte com os seus próprios transcorreres, passam carros (e, nestas horas especialmente, carrinhas), há casas baixo umha luz que nom tem nada além de nom ser a habitual para mim.

Nem sei por quê, mas estou a cantar A pillow of winds, e logo ainda assuvio.

Get free blog up and running in minutes with Blogsome | Theme designs available here