Foi a saudade e a culpa primeira. Herdara dos meus irmaos as peças do Exin Castillos, algum ainda jogava com elas. Em certa altura (5, 6 anos?), lembro olhar com desejo e admiraçom os estupendos foxos de plástico, com as suas cores e pedras em relevo, feitos anacos. E anhorar com dor o te-los inteira aquela maravilha, paradisso de plástico e cores.
E depois me decatar que fora eu mesmo o que os rachara tempo atrás, quando também atacava os livros, os joguetes todos, os objectos todos para ver de quê estava feita a vida.
Essa é a peça exacta da que ainda fica o anaco nalgumha parte da casa.
Um fragmento doroso de culpa e saudade que me feriu no seu dia e quiçais me marcasse fundo essas canles nos pregues cerebrais.
Boto a noite numha verbena. Um grupo fundamentalistas penetrara na aldeia e agora o Natal exigia loito. Umha mae berrava co filho na igreja dizendo-lhe que tinha que estar contente e nom triste pola celebraçom. As velhas da aldeia transigiam e entravam com mantilhas-burka à misa só para poder olhar a gente e ter de quê falar. Havia alguns foguetes, muita gente, na tenda dos meus pais vendiamos bebidas e alguns petiscos ao caer a noite.
Ao espertar, acompanha-me desde o sonho O paraugas do Jose que devia estar cantando nalgures a charanga.
No meio do especial que fago (por fim) sobre Ronseltz enquanto durmo, descobro que algum deles fixo no seu momento umha surrealista aventura de Tintin. Tintin e o raio azul é um álbum que rezuma surrealismo. Os Dupont (Hernadezpoulos e Fernandepoulos) botam do barco uns delinquentes, depois outra parelha e afinal som eles mesmos expulsados por umha outra cópia de si mesmo. Paços orientais, delírios metalingüísticos e umha retranca própria do grupo manifestam-se nesta obra que só eu puidem ler em sonhos.
Sairia publicado canda ao Unicornio (que na realidade titulava-se Senhor que passeava sábados coma um unicórnio de cenouras, vaia descubertas tira um dos sonhos, canções de Miki Nervio e mais algumha outra cousa que já nom lembro.
Trabalhar enquanto durmo deixa-me canso e dificulta mais umha vez rachar a barreira com a realidade.
Desta volta nom perdo o combóio. Ao contrário, fago viagem dentro e é no momento em que se divide que fico no que nom é. Atopo-me assim abandonado em Ribadávia, com total tranquilidade, canda ao Sérgio, Kiko, o Roças e alguns mais que vam aparecendo. Há que agardar 24h, mas nom tem mal: alguém já arranjou umha festa com gente da BD, e ao carom da estaçom lembro unhas ruínas de paço grande que já tenho visitado. Esta Ribadávia nom tem nada a ver com a real. É umha cidade coma o ensanche em Ponte Vedra, ao carom do hospital. Tomamos a agarda com calma.
Ao espertar, apanho o Passageiro na Galiza de Cunqueiro. Nom vaia ser que a atope ai.
Obrigado polas flores, sempre surpreendentes, e polas folhas que tanto durárom.
(No momento mesmo em que deito a bolsa, cruza-me e sauda o vizinho irlandês da Hortas, quiçais a máxima representaçom que o mundo me puido achegar desde as Ilhas Británicas para o enterro).
No meio dos sonhos da noite sonho-lhe umha continuaçom ao anaco de Grabiela no que comecei a noite:
Ela foi embora. Ilhéus inteiro debate possíveis causas. Disque entráram uns malandros e a levaram com eles. Mas nom quadrava nesta ideia que ficara tudo sem revolver. Diziam também que até lhe deram um certificado sobre a importáncia da sua voz e do seu sorriso para levar a Suécia ao comité da UNESCO.
Contavam se marchara sozinha de volta ao sertão canda ao negro Fagundes. O seu Nacib ficara tudo triste.
Havia ainda algumhas ideias mais. Páginas breves, na tinta esluida da ediçom brasileira que me emprestou Kim.