Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá...
Álvaro Cunqueiro Si o vello Sinbad volvese ás illas

January 29, 2008

A vida dos rios [Da propriedade dos lugares] — São Tomé @ 6:36 pm

É na noite que os rios reclamam o seu espaço primigénio. Lá na escuridade manifestam o seu poder e dim-nos dalgum jeito que nom é cousa de nos achegar. Que som espaços fondos e desconhecidos, nom aptos para vidas coma as nossas. Mesmo os mais amansados, nos parques das cidades fam da sua superfície um espelho preto e proclamam o seu senhorio no correspondente silêncio do contorno. Nom há ninguém. Podemos caer, podemos molhar-nos, podemos ficar fora do mundo. Eles saberám arrebatar-nos, eles tenhem o poder de levar as cousas todas correntes abaixo, de deixar-nos sem identidade.

É nessas horas de lua que apodrece a madeira das pontes, que a água conta as histórias das ribeiras do nascimento (o cadáver nas silveiras, os peixes novos, um carro do super ficou no fundo lá atrás, hoje um pescador atreveu-se a entrar antes do sol, umha mulher trabalhou no lavadeiro, e lá o certifica a escuma).

Do mesmo jeito que as tormentas e os temporais, algo mantenhem os rios que nos lembram que nom é o mundo todo nosso, algumha promesa nos marmúrian no inconsciente que nos arrepia sem sabermos por quê, e nos deixam a distáncia:
Cuidado, há um rio. É de noite.

January 16, 2008

As cores primárias [Acotações] — São Tomé @ 12:38 pm

Durmo melhor quando levo nas pálpebras as cores dos mapas antigos. Flue a mente por esses rios com cursos falsos, polas montanhas fora do sítio, polos nomes (Nova Caledónia, Trapobana, Sacro Impérito, Besarabia, Épiro, Nova Galiza, Rum, Mercia) que já ninguém emprega.
Dalgum jeito ficám-me dentro e arrolam um ar calmo, quiçais o de saber que já foi, que ficou um resto, que tudo afinal passa e permite-nos depois sonhar com a lembrança da lembrança dumha lenda.

January 9, 2008

A publicidade das tendas pequenas [Da propriedade dos lugares] — São Tomé @ 2:53 pm

É domingo de manhá.
A agardar na pastelaria para mercar croissants fico olhando umha publicidade de gelados.
Desta volta será a combinaçom de cores azul, letras vermelhas, branco, amarelo, os tons enfim em que se desenvolveu boa parte da infáncia. Ou será a sua mestura com a luz grisalha e clara da manhá dum feriado de inverno, a mesma aquela que batia no interior da tenda dos velhos (nunca mais aquele arrecendo de sombra e pedra e madeira), a mesma que batia também na visita ao comércio dos tios.

De socato é entom umha calma intensa a olhar essa publicidade. Umha certeça irredutível de que nom morreu tudo e que fica prendido em determinadas luzes, dentro de determinadas tendas, no jeito burdo da publicidade das gulosinas e dos gelados.

É apenas ao sair da tenda, e que che descrevo a pequena revelaçom, que ti me dis que nesse mesmo intre, olhavas desde fora o escaparate e que, sem o saberes, sentias o mesmo, e que nom foras quem de lhe apor palavras.

E velai está, por exemplo, esse olhar que che digo que compartimos, desta volta desde a duas bandas do escaparate.

January 8, 2008

Os instantes virgens [Da propriedade dos lugares] — São Tomé @ 5:12 pm

É mesmo estranho. De quando em quando, sem causa aparente, um intre concreto, tanto tem que seja a caminhar pola rua, fazer a compra, tomando um café com alguém ou num momento cruzial da existência, ecoa de socato com tempos passados da vida. E nom se podem explicar muitas dessas conexões.
Quiçais seja a luz fria do supermercado a que me leva às lousas fregradas com lixívia da casa da minha tia. Ou o arrecendo da terra molhada exactamente o mesmo que havia no bosque onda aquel dólmen. E quiçais só o fagam esta vez. Quem sabe.

Ainda mais estranho é (mas a mim tem-me passado) que cousa se prolongue e já afinal botemos tempo (dias, semanas) a viver dalgum jeito num ecoar permanente doutra época. Sei, por exemplo, que quando escuitava Ordinary World na rádio (e outras) estava numha temporada em tudo semelhava ser já parte dum passado invernal e abrigado.

Mas, afinal, a questom quiçais nom seja tanto essa, se nom pensar em como somos quem
de viver essoutros intres virgens, os que nom tenhem nada associado. os que conlevam o aquel de se abeirar ao valeiro sem saber
que é a final a esência da vida.

January 2, 2008

A turma da levidade [Na ilha] — São Tomé @ 12:23 pm

E resulta que nom eram casos estranhos.

Que, como explica bem o Javier Marías, existem mais pessoas polo mundo que compartem características com Consuelo, com Heidi, com Clara, coa Noémi daqueles dias. Pessoas que som quem de achegar a levidade ao seu contorno.

E que bem sentam de quando em quando.

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