Caminhar pola cuberta dum barco abandonado e amarrado no porto.
Co seu cheiro a água pousada, coa ruína a se espalhar, com esse aquel de chao de mentira que sempre tenhem, sem possibilidade de que nada medre nas junturas. Fedelhar-lhe nos mandos oxidados, buscar-lhe fundo à capa de ferrugem, olhar o ceu e o casco e o mar e pensar algo ao respeito.
O tema é ler-lhe o livro de bitácora nas cordas enredadas, nas latas de aceite, nos restos das viagens. E pensar na volta ao mar, no rumo que lhe poderia ficar, na posta em marcha, nas surpresas da adega.
Coma o Calypso, coma o Hidria. Coma os avions que voltam ao céu.
Reencarnações mecánicas, está por ver até que ponto
nom podemos nós também renascer, e quantas vezes,
na mesma vida.
Nunca achei de menos o mar quando cheguei a Compostela. Nom figera parte da minha paisagem cotiá. E mais, eu sempre fum de rio.
No entanto, há pouco veu-me à cabeça, a ir no comboio, como teria sido medrar num lugar onde o mar nem se adivinhasse.
Decato-me que me figem com a referência do mar. Em boa medida, a minha cidade, a minha vida, eram singulares porque estavam no límite, onda o mar, coma um espelho ou parede fronte ao que fazer identidade.
Como se viver no estremo do mapa me outorgasse mais individualidade e me desse umha base para me orientar (O Norte deixa o mar à esquerda) além do puramente geográfico.
Custa-me, é certo, concibir como se pode medrar num lugar sem o mar perto. Numha vila rodeada doutras vilas e doutras vilas e doutras vilas. Como se a vida fosse construír-se lá mais espalhada, derramada entre montes e montes iguais, em terra indiferente.
Afinal é cousa de sair à rua e fazer ai umha cançom de passos entre a gente estranha as estudantes os velhos que caminham de vagar os cadelos que me olham ao reconhecerem o cheiro ainda de Fiona.
Afinal apenas a questom é essa para nos tomar o ritmo e acordar com os passeios o jeito exacto em que devem ir as pulsações e assim voltarmos às defesas em bom estado ao humor em bom estado ao sumidoiro que tira o moco da cabeça ao sonhar enquanto durmo.
Voltar à vida ao pó aos carros ao desconhecimento aos sons aos espaços alheios aos reencontros cos passados.
Pisar o mundo no caminho é também jeito de colhermos-lhe a medida
e nom ficarmos pequenos de mais.