Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá...
Álvaro Cunqueiro Si o vello Sinbad volvese ás illas

November 29, 2007

Abraçar o frio [Acotações] — São Tomé @ 10:46 am

Ponhamos que na realidade estou a abraçar o frio.
Que é el esta cousa na gorja, o cansaço, os arrepios temporários.
Que o tenho gardado atrás da noz, envolto na carne e na mucosa
ao acubilhar
como se agardássemos o intre ajeitado
para o ceivar num berro e o botar no mundo
para que o encha de neve e silêncio.

November 16, 2007

Os portos que nom caminhei [Na ilha] — São Tomé @ 7:08 pm

Quiçais por última vez, cantamos blues, fazemos a nossa homenagem a Jethro Tull, soa-nos de volta Leonard Cohen… Polo meio mergulho-me nas letras, esculco e aprendo mais umha vez Wicked Game ou The Man Who Sold the World.

Mas é Down to the waterline a que me apanha e me mete a mao no peito.

Lá dentro faz um varrido de direita a esquerda e tira-me de dentro um anaco, quiçais do tamanho dumha caixa de cha (das metálicas, onde gardamos as fotos da família).
Decato-me de que o oco que resta é o que fum enchendo desde os doze anos. E que entra por el um ar que arrefria o coraçom.
Afinal, continuo lá sem esses tempos, reduzido e mais pequeno
a achar de menos experiências que nunca vim, os peiraos que nom caminhei, e aqueles bicos
no jeito puro e tam intenso que só daquela sabia.

Tal e como achava de menos os mundos todo impossíveis.

Meu companheiro pequeno. Ainda estou. Lá dentro. Nom deixámos de ser nós.

November 14, 2007

Detrás das barragens [Trapobanas] — São Tomé @ 12:16 pm

Estes dias, de jeito inevitável, aparecem na mente os encoros. Seica já até o camposanto de Portomarim está sobre as águas, e as pesqueiras a seco. E lembro daquela vissita que figémos à aldeia deserta.
Hoje, a maiores, comprovo como sim que era certa aquela ideia minha de que os encoros mergulham aldeias e criam lendas. Nisso é fértil o da Fervença. É lá também onde os vizinhos fam umha festa na ilha pequena que ficou.

Mundos mergulhados nos que contestamos a morte com festas e histórias.

November 12, 2007

Por se serve de consolo [Trapobanas] — São Tomé @ 6:23 pm

Era mesmo assim o recanto aquel -tu mesma o olhaches- com este mesmo silêncio
a luz, se cabe, ainda um bocado mais irreal.
E nós quadramos lá no meio, apenas no caminho cara a algures
quiçais para sabermos já por sempre
que fica o lago, a beira, as árbores, a cabanae termos claro
a combinaçom de comboios e autocarros necessária
por se acaso cumpre
ou serve de consolo.

Na ferrugem das cidades [Acotações] — São Tomé @ 1:53 pm

Agocha-se o outono na ferrugem da periferia das cidades grandes. Na flora de ocasom das vermas das autoestradas. Nos parques mal cuidados. Vém de a cavalo da luz solar tam inclinada e do respeito que lhe colhe o ar a certa horas da tarde.
Há um aquel de dessolaçom, de tempo quedo, de paréntesses no meio e meio da vida.
E cómpre entom empurrar para ir pola rua. Há que se bater com as raiolas, com o frio, com as castanhas e as primeiras folhas para fazer vida. Devemos eclodir também em Novembro.

November 7, 2007

A luz da tarde [Acotações] — São Tomé @ 8:50 pm

Mesmo aqui consegue chegar a luz da tarde

November 5, 2007

A andorinha [Acotações] — São Tomé @ 11:21 pm

“Que som tam fermoso! (…) O motor, um Rolls Royce de 12 cilindros está afinado numha nota muito alta. Produz um tom harmónico que che pom os cabelos de ponta. Um sente-se como se estivesse na missa. A primeira vez que um Spitfire nos sobrevoou sentimos a sua grande potência e entendemos por quê nom tinham medo nesses aviões. É um fermoso corcel que che tira de qualquer perigo.
É certo, um Messersmichtt semelha um tabeirom. Um Spitifire é mais coma umha potente andorinha”.

Jan Svěrák, director de Dark Blue World

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