Ponhamos que na realidade estou a abraçar o frio.
Que é el esta cousa na gorja, o cansaço, os arrepios temporários.
Que o tenho gardado atrás da noz, envolto na carne e na mucosa
ao acubilhar
como se agardássemos o intre ajeitado
para o ceivar num berro e o botar no mundo
para que o encha de neve e silêncio.
November 29, 2007
Abraçar o frio
November 16, 2007
Os portos que nom caminhei
Quiçais por última vez, cantamos blues, fazemos a nossa homenagem a Jethro Tull, soa-nos de volta Leonard Cohen… Polo meio mergulho-me nas letras, esculco e aprendo mais umha vez Wicked Game ou The Man Who Sold the World.
Mas é Down to the waterline a que me apanha e me mete a mao no peito.
Lá dentro faz um varrido de direita a esquerda e tira-me de dentro um anaco, quiçais do tamanho dumha caixa de cha (das metálicas, onde gardamos as fotos da família).
Decato-me de que o oco que resta é o que fum enchendo desde os doze anos. E que entra por el um ar que arrefria o coraçom.
Afinal, continuo lá sem esses tempos, reduzido e mais pequeno
a achar de menos experiências que nunca vim, os peiraos que nom caminhei, e aqueles bicos
no jeito puro e tam intenso que só daquela sabia.
Tal e como achava de menos os mundos todo impossíveis.
Meu companheiro pequeno. Ainda estou. Lá dentro. Nom deixámos de ser nós.
November 14, 2007
Detrás das barragens
Estes dias, de jeito inevitável, aparecem na mente os encoros. Seica já até o camposanto de Portomarim está sobre as águas, e as pesqueiras a seco. E lembro daquela vissita que figémos à aldeia deserta.
Hoje, a maiores, comprovo como sim que era certa aquela ideia minha de que os encoros mergulham aldeias e criam lendas. Nisso é fértil o da Fervença. É lá também onde os vizinhos fam umha festa na ilha pequena que ficou.
Mundos mergulhados nos que contestamos a morte com festas e histórias.
November 12, 2007
Por se serve de consolo
Era mesmo assim o recanto aquel -tu mesma o olhaches- com este mesmo silêncio
a luz, se cabe, ainda um bocado mais irreal.
E nós quadramos lá no meio, apenas no caminho cara a algures
quiçais para sabermos já por sempre
que fica o lago, a beira, as árbores, a cabana lá e termos claro
a combinaçom de comboios e autocarros necessária
por se acaso cumpre
ou serve de consolo.
Na ferrugem das cidades
Agocha-se o outono na ferrugem da periferia das cidades grandes. Na flora de ocasom das vermas das autoestradas. Nos parques mal cuidados. Vém de a cavalo da luz solar tam inclinada e do respeito que lhe colhe o ar a certa horas da tarde.
Há um aquel de dessolaçom, de tempo quedo, de paréntesses no meio e meio da vida.
E cómpre entom empurrar para ir pola rua. Há que se bater com as raiolas, com o frio, com as castanhas e as primeiras folhas para fazer vida. Devemos eclodir também em Novembro.
November 7, 2007
A luz da tarde
Mesmo aqui consegue chegar a luz da tarde
November 5, 2007
A andorinha
“Que som tam fermoso! (…) O motor, um Rolls Royce de 12 cilindros está afinado numha nota muito alta. Produz um tom harmónico que che pom os cabelos de ponta. Um sente-se como se estivesse na missa. A primeira vez que um Spitfire nos sobrevoou sentimos a sua grande potência e entendemos por quê nom tinham medo nesses aviões. É um fermoso corcel que che tira de qualquer perigo.
É certo, um Messersmichtt semelha um tabeirom. Um Spitifire é mais coma umha potente andorinha”.
Jan Svěrák, director de Dark Blue World

