Por diante da minha janela, os gatos avançam rua arriva estes dias, telhados adiante rumo leste.
No entanto, alguns semelha estamos condanados a manter-nos num permanente e querido rumo Sul.
September 26, 2007
O rumo dos gatos
September 25, 2007
A vida em peúgos
A sofrer, como tanta gente, essa síndroma dos peúgos que desaparecem, boto a vida a revisar os caixões e os recunchos, na busca das parelhas disparelhas desses solitários. Tenho um bom catálogo deles. Como na agência matrimonial, ficam juntos os solteiros em escaparate sobre umha mesinha, a aguardar que algum lavado achegue de casualidade umha parelha esquiva, que volta logo de quem sabe quê aventuras polo mundo.
É entom umha pequena festa de peúgos reencontrados. Embrulho-os e deixo-os na escuridade do caixom para que celebrem a bem vinda (ou discutam pola ausência, quê saberei eu).
A questom é que som tam constantes as desavenças, ausências, perdas temporárias ou definitivas, que afinal acavo pendente sempre da questom, e cada semana marcan-me os dias os peúgos que conseguim reunir. Abondarám para os dias todos? De onde saiu este? Onde ficava a parelha?
Afinal nom som pior sinal do tempo do que os calendários ou os números do relógio. Quando menos fam o favor de abrigar os pés.
September 20, 2007
Exiliados nas Hortas
No sonho, baixava cara a casa e acompanhava-me o Kiko, que lhe colhia de caminho. Logo de comprovar que nom ia perder o trem ao carom do obradoiro (eterna obsessom onírica os meus comboios), baixámos e decatava-me de que havia um buraco de obras diante da minha porta.
Ou quase.
Ao me achegar comprovava que a minha porta nom era minha. Que as casas nom eram as que lembrava. Iamos a umha das três ruas paralelas ás Hortas por se nos trabucáramos. E tampouco estava lá a minha casa. É claro, cinco dias sem passar por ela, e já se perdera.
Voltámos. No lugar da Esmorga havia um bar grande chamado A Juntança. E umha tasca recóndita noutro anaco. Havia casas que parecia reconhecer, mas mudadas de sítio, e outras que nunca vira.
Eu esculcava naqueles telhados desconhecidos o perfil das janelas do meu salom. Tentava atopar referências que confirmassem que ainda estava por alô agochada.
Ao cair a noite, descobriam-me que eramos muitos os que andávamos perdidos sem casa. A vagar entre as três ruas, perguntando e petando nas portas. A certa altura, havia umha assembleia numha cozinha, onde se acordava reclamar-lhe ao Concelho compensaçons pola dessapariçom dos nossos livros, os cartazes e as postais que atessourávamos. Pola ausência do quiosque da Senhora Carmem e a subseguinte falta de gominolas na vizinhança.
Estávamos exiliados nas mesmas ruas. Compartindo umha certa inquedança e umha incerta resignaçom. Num c0ntorno familiar e traiçoeiro a um tempo. Sentindo-nos perdidos e acompanhados.
Finalmente apanhava um quarto naquela mesma casa, com a vaga intençom de descobrir como fora essa mudança, e convencido de que havia atopar a minha casa nalgum recanto das ruas.
Polo meio da noite, descobriamos umha indefinida traiçom da vogal da assembleia. A outra companheira do prédio chorava abraçada a mim e tentávamos dissimular, por ver onde ia dar aquilo tudo.
No final, sentados no passeio sobre caixas de cerveja, a minha avoa abroncava ao meu pai com a sua única retranca e ensanhamento. As cousas que contava dele o falecido taberneiro do vinho tinto, sobre as dévedas imensas e as parvadas que fazia ao beber de mais.
Dalgum jeito, iamo-nos assentando naquela mudança inexplicável.
Havia o ruje-ruje de que alguns atoparam os seus fogares detrás de portas novas.
September 17, 2007
Outros heroismos
É claro que ha heroísmos bem mais difíceis de explicar aos nenos do que as aventuras de Robin Hood, Lawrence de Arabia, Miguel Strogoff. Nom é tam singelo contar-lhes umha aventura de anos no que som a resistência e a capazidade de sobreviver o grande mérito. Sem monstros. Sem inimigos malvados. Apenas a distáncia imensa e o frio.
É de ver que há aventuras que estarrecem mais quando um apanha anos, e vem-lhe um aquel de ver como afinal tenhem mérito, e muito, as carreiras de fundo. Como é questom de tirar para adiante aos poucos, nom se render, manter o ánimo, o verdadeiramente difícil e o truco único para nom claudicar na aventura da vida, e chegar com sorte a algumha ilha desde a que tentar ajudar a tripulaçom toda.
(E mais, como serám manhá os nenos que admiram a Shackletom?
September 10, 2007
A chegada do barco
A história do país inteiro que aguarda a chegada do barco, enorme, no que boa parte dos seus homens marcharam pescar, comerciar e explorar. Nave única da flota, imensa, botava fora meio ano e voltava carregada de peixes, de mercadorias, de raparigos que se figeram homens e de perdas inevitáveis vencelhadas à aventura.
Também vinham lá cousas que haviam marcar os futuros de todo o país.
As novas amizades increvantáveis, os concertos matrimoniais, os enfados entre famílias polos conflitos de a bordo, as novas fortunas e as ruínas recentes. As maldições dos objectos novos. Os remorsos dos roubos e as violações de honrados homens de negócios. As pantasmas dos assassinados.
Rematavam naquel tempo as aguardas, as solteirias parciais, as inquedanças, e começavam ao tempo as festas e os prantos.
Afinal, todo aquel país pequeno, rotava arredor desse barco, e cada inverno somavam-se histórias novas aos velhos mitos da navegações, enquanto, religiosamente, se cuidava o barco para a seguinte partida.
September 3, 2007
O ferreiro
“Para este povo, os ferreiros formam um grupo à parte e convém regular estritamente os contactos com eles. Nom podem casar com outros dowayos nem comer com eles, sacar água junta a eles nem entrar nas suas
casas. Resultam perturbadores polo seu cheiro e polo seu estranho jeito de falar.”
Quanto gardamos de ferreiros? Quais som os secretos conhecimentos que nos fam singulares?
Qual é o pago?
Há anacos de mim que gostam do cheiro do metal quente.

