Coma no carro num dia anuviado, nem sei por quê lembro agora da gasolineira que há à entrada de Viveiro, vindo do leste, enfronte dos assadores, por onde devim passar duas vezes na vida e sei que apenas parei umha.
Tenho ideia de pensar ou falar lá sobre a questom de ter que apagar os telemóveis ao respostar, de me ter decatado do silêncio dumha rádio.
Quem sabe de quê mais. Co Sérgio ou a Ester, foi, a pensar em cada caso nas praias do Norte e nesses veraos que nom conheço, nos espaços anodinos que, precisamente por estar feitos para nom nos dizer rem, acadam às vezes deixar as pegadas imensas
das páginas em branco.
August 30, 2007
A gasolineira
August 29, 2007
Apanhar a saia
Volto à casa.
Ao subir as escaleiras da alameda ergo o paquete para que nom me pete nos chanços.
Vem-me à cabeça o mágico gesto que adoro nas minhas donas todas, de amarrar as saias longas cumha mao á hora de subir ou de baixar para que nom arrastre, amosando acaso sandálias que evocam irremediavelmente verao
que já foi
que já nom foi.
August 18, 2007
Estrasburgo
Escrever a história da Estrasburgo evacuada. Nesses meses da falsa guerra de 1940 em que se fixo marchar a gente toda e só ficárom os gendarmes. Mas, é claro, falariamos de quem ficou.
A rapariga nova que guardava a casa. O pintor velho e meio tolo da sífile na bufarda. Os três ou quatro rapazes entre orfos e maltratados que decidírom que venceriam sozinhos aos inimigos. Um grupo de ladrões que visitava fogares que tenhem ainda roupa nas camas. As pombas e os milheiros de gatos que se faziam donos das ruas. Alguns cans à resistência. Um obreiro. Um fugitivo. Umha quinta-colunista. A ama de casa que ficou atrás e aproveitou para deixar o homem. Dous amantes clandestinos que deixárom escapar as respeitivas famílias. Um matrimónio anciám que nada tem a perder. Três ou quatro velhos mais que fôrom abandonados.
O grupo de gendarmes que olhavam assombrados as cousas que acontecem numha cidade que fica sozinha e que ninguém reclama.
Por cima de toso, esse espertar das casas e das ruas, os movimentos estranhos das cousas inertes a pressagiar as vindeiras ruínas, da cidade a se sentir sozinha e se espreguizar com ritmos que nom conhecemos.
August 17, 2007
Alongamento de noite
Sonho com bombardeios incruentos. Esperto com meio frio. Dou a volta. E de novo. Afinal a noite fai-se-me longa, entre durmir e espertar e durmir de novo, e tenho a impresom de que nom tocou o acordador e vou ir tarde ao trabalho.
Mas fica ao espertar a sensaçom imensa de que nom deu nada, que era melhor seguir na noite e ficar coberto e sonhar de novo.
August 10, 2007
A noite longa
Esperto, durmo, esperto meio durmo. Prendo a luz, apago-a, bebo, ergues-te, durmo. Afinal ainda som 4 a.m. e a noite já se está a fazer longuíssima. Sonho para mais cum estranho museo onde ensinam arqueologia das ametralhadoras dos velhos avions. Cargadores Lewis fossilizados, sistemas de contrapesos enormes de madeira para instalar em bombardeiros de teia.
Polo meio, a minha mae olha comigo esses elementos, enquanto um documental ou um livro vam contando as estranhas peripécias dum esquadrom 112 da RAF que lhe aponho a Roald Dahl.
Depois a mae abre a porta dumha casa de aldeia que nunca tivemos, afasta o cam, e entramos na cozinha imensa para que a minha avoa, com a comida feita, se laie, como deve ser, de que nom vai chegar o pam.
Esperto como logo de dous dias na cama. Há sono abondo, pero realmente cómpre sair desse pantano de sabas, suor e meias consciencias, nom vaia ser que nos atrape.
August 6, 2007
Erguer-se na cidade
A cidade velha receve-me, como cada manhá laborável dos últimos doze anos, com o som das obras na rua. Esperta-me a berros, a golpes, a maquinária sem piedade nengumha. Como se levasse todo este tempo a me querer lembrar que está em constante mudança, que nom é voltar cada visita porque já nom é o mesmo lugar.
Quiçais é umha ajuda também o recebimento para me pôr à defensiva. Para nom me deixar cair na nostálgia. Para saber que nom é já zona segura da infáncia e que é mútuo o irreconhecimento que nos temos.
August 5, 2007
Acurrucar-se na rua
Acho que é sobretudo ao voltar sozinho de noite, em passando sempre o arco do Obradoiro e ao olhar as primeiras pegadas da minha rua que penso cousas como: Se fosse de fora e visse isto, também quereria ficar a viver cá.
Depois, segundo vou baixando, e deixo mais atrás o Tarasca, ou onde fosse que bebim de mais, decato-me de como vam ecoando em cada passo todos os daquelas noites que também baixei sozinho -e ainda especialmente os de aqueles nos que ia com companhas às vezes do mais estravagante, para lhe tomar a última no salom- e ainda os das noites que devem ficar.
Irá para dez anos que quigem vir viver cá. Foi difícil. Atopar umha casa. Mudar para melhor. Encher a rua de amigos. Olhar como a deixavam, voltavam, rachavam as amizades. Encher a casa de visitas. Ser eu quem vai sempre ver os outros. Durmir cá sozinho. Durmir cá acompanhado.
Agora sinto que nom a quero deixar. Que entre as inseguridades todas da vida, sim acertei com esta baixada na que às vezes, dando tombos, sinto como me arroupam as casas de sempre
enquanto acurruco a alma no meio da rua.
(a foto, velha já, é de Frauke)
August 3, 2007
Pam de Bonn
De socato, é querer provar o pam requecido de cereais de Frauke gardava no congelador, ulir a madeira daquela casa que já nom é e olhar também por aquelas fiestras imensas de Bonn os castinheiros de índias sempre enfermos e outonizos, os ciprestes, as selvas imensas dos pátios que se agocham detrás das casas. Silêncios pequenos e andar de bicicleta, e polo meio, os lóstregos verdes das bandas de loros fugidas e aclimatadas a esse Norte calmo no que um também se olha com facilidade.

