Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá...
Álvaro Cunqueiro Si o vello Sinbad volvese ás illas

June 27, 2007

A Companha [Na ilha] — São Tomé @ 1:10 pm

Passam ao meu carom milheiros de almas que já som além. A sensaçom é de Parque Jurássico, de estar numha convençom de mundo perdido. Olha lá os seus olhos, cum aquel de tristura, o moreno das peles, os cabelos indefectivelmente canos, o uniforme de jersei de ponto com pescoço de pico, camisa clara, pantalom escuro. Olha-as a elas, grosas, com flores nas blusas, ou vestidas de preto e com pano ainda. Saem da igreja e passam por onda mim em fileira de três, coma se fossem já para o abismo e algo nas suas olhadas revelasse que o sabem.

O mesmo ainda podemos salvar a língua, os hórreos, um bocado de paisagem. Mas está perdida essa vida, o saber, a fraseologia, o jeito único de gesticular nas conversas de féria. Já vam eles todos além, e ninguém vem detrás. Ninguém para fazer o vinho, botar as patacas, sachar, saber atar os vímbios ou os melhores recantos para apanhar troitas ou atopar ninhos no monte.

Quem no caminho pode apanhar-lhes a cruz?

(Obrigadom ao Jandro pola foto)

June 22, 2007

Tempo de cantar [Na ilha] — São Tomé @ 9:33 am

Ao melhor, nom nos decátavamos e era este tempo de cantar, pola Algália, polo Perguntoiro abaixo, canções do Zeca a berros até a Alameda, com a chúvia a nos bater nos óculos.
Venhem na nossa ajudas amigos inesperados, e já
poida que fosse esse todo o mal: Adeus ó Serra da Lapa, Achega-te a mim Maruxa, Venham Mais Cinco. Coma abraços imensos que nos damos e enviamos ao mundo aos berros
coma um jeito de mudar o vento.

June 18, 2007

Contra o vento [Na ilha] — São Tomé @ 9:59 pm

Caminho -sem lenço sem documento-, jogo, concedo-lhe vantagem e deixo-me fazer no seu fluxo cansino que a todos nos tem virados,
e num momento que nom se decata dou-me a volta e fago umha jogada pequena (merco os lentes, boto risos num café, executo umha cerveja simulada)
e busco em fim saidas momentáneas que conservem a cabeça a flote nesse transcorrer
embora saiba que polo momento leva as de ganhar e que é el o dono de cada movimento, à contra ou a favor
condicionante perpétuo do sono, do ficar na casa, das saúdes e dos mal estares de toda a gente, afectados como andamos de areias interiores
pola parte do Sul.

Semana de chúvias [Acotações] — São Tomé @ 6:54 am

Como naquel romance que nunca comecei, a semana veu cheia de trebões até cansar, de chuvas que nos figérom andar às presas, ir com precauçom, mudar os planos, retirar-nos ao interior.
Viriam também nesses ventos do Oeste e do Sul selvagem as insónias, as migranhas, as rifas, as artrites e as dores todas que nos revoltárom um bocado e dérom em evidenciar todos os rangidos do corpo e da vida velha sem lubricar. Assim lhe andamos a nos sentir cansos. Assim lhe andamos a olhar por toda a banda a quem culpar dos nossos incomodos.
Eu fico co vento.

June 13, 2007

Domenico cum violocello [Acotações] — São Tomé @ 10:15 am

O Domenico é um homem grande ao que se lhe adivinha a tenrura tras a barba.
Mesmo assim, nom deixei de me sentir amplamanete enternecido ao olhá-lo em pê, recto e tímido, com a cabeça abaixada para tocar um violoncello que semelhava de jogete nas suas maos.
Umha cena para lembrar, mornura na vida.

June 6, 2007

Melhor do que o silêncio [Acotações] — São Tomé @ 6:16 pm

É de novo a sempre surpresa de colher e pôr um disco do João e ir caindo tema a tema na maravilha, e se decatar de que há surpresa sempre nas canções velhos, notas esquecidas, que nom se pode escolher, nom se pode ficar com um tema apenas (embora seja o Pra que discutir com Madame o que canto sem saber por quê, ao fregar na tua casa).

Ai o anda, com esse aspeito de oficinista antigo, quedo e aparentemente neutro, a lhe dar toques a um por espaços de dentro que, muito a miudo, ficam esquezidos. Recantos pequenos de outonos, pequenas conversas, beijos inócuos, cousas de infáncia.

Melhor do que o silêncio, é claro.

June 5, 2007

Olhar no futuro [Na ilha] — São Tomé @ 10:24 pm

Nesta altura, que andam os olhos vermelhos e secos, com tantas cousas já dezididas e clarificadas, com esta certa falta de determinadas frustrações e angúrias, sem desejos de ir além -nom, nom quero que me toque a lotaria, nom quero emagrecer, nem anceio umha nova casa, nem novos amigos, nem quero fugir (dias de lua fóra)-
às vezes a vertigem chega ao pensar
se realmente tenho valor abondo para apanhar o óculo
e olhar no futuro.
-incerto, mondo difícile-

Pola contra, o mais habitual é que o medo que me vença
seja o de saber se som quêm de olhar cara atrás,
polo burato que fai as cousas cada vez mais pequenas
e ameaça sempre com deixar que se perdam.

June 3, 2007

Vrão [Acotações] — São Tomé @ 4:29 pm

Perante o primeiro signo de verao (pola janela do carro, coa família, como há tanto tempo, já quase se fai doroso) refugio-me
(quêm sabe quais som os caminhos -ao Leste do Sol, ao Oeste da Lua-)
no Drão , na voz do Gilberto (mália ao Caetano, mália ao Djavan)
e abro a fiestra.
Já foi verao doutras voltas, já figemos o amor
também de janelas abertas.

June 1, 2007

Um dia barato [Acotações] — São Tomé @ 11:17 am

A cousa é um bocado de tarde longa, no momento do solpor, fumar-lhe um cigarro e sentir a certa calma de fina um dia que tivo a imensa importáncia
ser ser coma um outro qualquer.

(On Preston platform
do your soft shoe shuffle dance.
Brush away the cigarette ash that’s
falling down your pants…)

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