Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá...
Álvaro Cunqueiro Si o vello Sinbad volvese ás illas

February 27, 2007

O conjuro [Acotações] — São Tomé @ 11:49 am

A remexer pola mesa na busca dalgum CD ou aparelho, atopo agochado entre os altofalantes, um lápis velho. E volto ler na sua superfície as palavras mágicas de tantos dias da infáncia:

Made in Germany. Staedtler Noris HB 2

Bom, para sermos realistas daquela era West Germany. Mas afinal tanto tinha, que non entendiamos rem e as palavras nom deixavam de ser um jogo, um mistério que em cada jornada nos cabia na mao. E de quando em quando liamo-las e pensávamos um bocado em quê arcanos significados teriam. E continuavamos a escrever ou a desenhar, com essa incógnita a lhe dar peso à madeira, a lhe engadir espaços de emoçom à vida.

February 26, 2007

Desinflar as bonecas [Na ilha] — São Tomé @ 1:38 pm

A certa culminaçom da sexta dá num esgotamento geralizado e afinal nesse velho se inflamar as bonecas que me consome.
Ainda dura o tema sábado tudo, e opto por nom lhe fazer caso e ir celebrar um certo aniversário que já ia tocando. E lá comprovo como mermam estas cousas a ressistência, e em chegando à casa golso até a última papa, coma se o corpo buscasse um exorcismo disso tudo e quigesse botar fóra o mal que o comia.

É assim que desincham as bonecas en domingo. Mantenho-me às voltas da descompressom, amarro forte as rédeas, que a vida vai em ondas e toca um jeito de descenso.

February 23, 2007

Histórias perdidas [Trapobanas] — São Tomé @ 11:43 am

Às voltas polos recovecos da vida, acabo a ler umha história verdadeiramente periférica. A luita dum mestiço francófono polos direitos do seu povo no Canadá em formaçom do século XIX. Mais umha batalha esquecida que hoje nom val para nada conhecer. O jeito de parvadas que um gosta. Como havia ser essoutro Canadá de terem ganhado os que nom podiam.

February 22, 2007

Pressões [Na ilha] — São Tomé @ 12:46 pm

Às vezes descobro-me a assuviar pola rua ou a cantar de novo o Zeca enquanto frego os pratos. Ou atopo umha ledízia de há tempo a me dar voltas mentres leio com vagar. Escuito de novo a Marisa e vejo que continua tudo aí um bocado. Mas polo resto, ando meio desligado, com sono e cum cansaçom essencial e nom me encontro no justo meio. Cámbios de pressom por várias bandas fam que nom seja singelo manter a altura.

February 13, 2007

… pode passar [Acotações] — São Tomé @ 4:50 pm

Falam os semáforos no meio do vento e da chuva destes dias, mas ninguém passa. Desta volta ainda eramos uns poucos os que abaneávamos no trevom, mas de certo há de haver intres, fora de jornada laboral, na madrugada ou no espaço ermo que é a noitinha de domingo, onde ham ficar sozinhos semáforo e rua.
Quê dirá entom o aparelho? Laiará-se de estar atrapado nessaa relaçom? Declarará-lhe o seu amor a esse espaço ao que lhe repite o nome um milheiro de vezes no dia?
Afinal a questom é nom ouvir, é nesse silêncio ignorante que se faz tudo possível.

February 9, 2007

Nom os abandones [Na ilha] — São Tomé @ 2:22 pm

Vém da mam de Mica este curioso serviço que achegam no Concelho de Paredes de Coura. Nom há dúvida que lá tenhem o equivalente a um canil para estes elementos.

É de imaginar que lá, quando um supera, graças à psicoterapia, o ioga, o amor ou os psicofármacos, os seus terrores ancestrais, e já nom lhe atopa acomodo ao monstro correspondente, deita-o na rua ao anoitecer, e lá passa aginha o serviço de recolhida e leva-o para as instalações acondicionadas, onde agardam pacientemente e bem cuidados alguém que os queira levar.
Também vam lá os monstros que deixam os nenos quando morrem, ao jeito de joguetes velhos. Estes som em geral mais tristes, nenos também eles afeitos ao medo simples e grandes. (more…)

Ondas aéreas [Acotações] — São Tomé @ 2:11 pm

Desta volta as ondas do meu sonho venhem rio arriba. Um rio a piques de desbordar onde o mar penetra com força. Nós imos num carro e olhamos a estranha transformaçom da cidade, imersa num jeito de temporal.
Ao longe aparece a inevitável onde enorme, pero antes de nos alcançar bate contra algum objecto indefinido, racha pola base e transforma-se numha estrana película de água que voa por cima das nossas cabeças e dá contra o rio.
Sucedem-na outras no mesmo jeito. Cum certo medo ao começo, mas já a olhar a cousa como normal depois de três ou quatro, vemos como as ondas completam polo ar o seu pecorrido.
A certa altura, batem com algo e racham-nos enriba, cai entom umha chuva intensa e nós achegamo-nos às paredes e às colunas para molhar-nos o menos possível, e por se acaso cai algo mais do que chuva, excitados polo jeito fabuolosso em que voam as ondas.

February 8, 2007

Dejá Vu [Acotações] — São Tomé @ 10:22 am

Recebo visitas na casa. Havia já bem tempo que nom me preocupava por ter cervejas frescas, algo para acompanhar. Tou destreinado.
Entre outros efeitos das ausências, a gente decata-se de que há que pintar a parede. Passou-lhe também o tempo por cima, ou será acaso a falta do calor da conversa o que lhe afectou.
Prendemos lumes pequenos, aos poucos, por ver como é voltar a umha vida no presente, e comprovar se blanqueiam essas luzes as paredes.

February 5, 2007

Carreiras livres [Na ilha] — São Tomé @ 12:19 pm

Ando a correr. Comboio, cansaço, esgotamento, parom. Autocarro, vissitas, sono. Pequenos recados, relax, erguer-se às seis e comboio, trabalho, cita, marchar a correr comboio apresentaçom, algumha canha, comboio, retorno.
Devia estar a descansar. Nom gosto das presas inconscientes que me cria apanhar comboios, nom gosto de me erguer cedo, nom gosto de andar a subir e a baixar.

Mas, ao tempo, sinto um estranho dessafio neste rachar a implícita obriga de ficar atado a Compostela entre semana. Nom há que estudar. Podo apanhar comboios, e ler neles livros inteiros e dar-lhe canha a outros, com gula que também cá passamos a nossa fame.

February 2, 2007

1984 [Acotações] — São Tomé @ 10:38 am

Rabunham-me o fígado já as primeiras páginas do “Fala, memoria” de Nabokov. A sensaçom é ter um dedo a presionar o tal órgao, e isso fai que se contraia o diafragma e que nom se poda respirar do mesmo jeito enquanto se lê.
Comprovo com arrepios como se pode debulhar a memória, como vai percorrendo algumhas dessas questões antigas que fago por nom tocar para nom me fazer dano. Lá está a perda irremediável do passado, as sensações íntimas e inexplicáveis que nos acompanham desde o começo.
Conta o Nabokov como foi a sua primeira consciência do passo do tempo, e trae-me à cabeça a minha própria.

Foi exactamente às 00:00 do 1 de janeiro de 1984. Ao acavarem as badaladas na televisom a minha mae, sem muito convencimento, berrou um “Viva, já estamos em 1984″.
Cumha certa dor no peito, como de medo, tomei consciência e perguntei: “Entom nom imos estar nunca mais em 1983?”
Até entom eu sabia que estávamos em 1983, mas nom tinha muita constáncia dos anos anteriores. Sem lhe dar voltas, o meu irmao maior sempre tivera 17 anos e nom existia (nem o concibo ainda) com menos.
Na TV punham, en presente indefinido, “Galáctica” ou “Dr Snuggles“, que começaram nalgum indeterminado momento.
Adiante abria-se o baleiro. Ainda hoje fica 1983, sem saber bem por quê, coma um ano favorito, e mantenho-lhe também certa tírria ao que seguiu.

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