December 28, 2006
Do mesmo jeito em que ultimamente sinto umha tristura imediata ao entrar na casa para ver a família, cae-me estes dias o ánimo ao pés sem motivo. E será do tempo, a noite longa e o frio que som os que originalmente nos justárom arredor das mesas. Sendo sérios, devemos reconhecer que nesta época a festa é defensiva, nom de celebraçom. Ainda levamos isso dentro.
E será acaso que a Terra nos chucha a força polos pés, um bocado a cada um, do mesmo jeito que fai coas árvores e coa temperatura do ar. Retira-se calada, um bocado coma nós quando nos toca. E embora nom o pida, é cousa de lhe mandar carinho.
December 27, 2006
Dia livre. Aterro em Compostela de manhá num comboio, como a chegar dumha outra vida possível. Começo a beber às doce da manhá, arrodeado do frio e da presa da gente no ambiente do Natal. A presença do Mansamino achega os inevitáveis repassos à vida e tons saudosos de cada ano. Executamos o exercício de liberdade de ir de bar em bar, de caneca em caneca, a beber o que nos peta em cada momento. Jantamos onde nos praz, fazemos-lhes bromas aos camareiros, deixamo-nos ir nas horas, de conversa em conversa, e levo eu a consciência de que estám a se me gravar a lume na memória, que é estranho este momento.
Às cinco da tarde estamos já na fase em que prima o silêncio e a modorra, e optamos por nos deitar um anaco, para logo seguir se acasso (mais um acto de liberdade).
Entom fico deitado e coberto na cama, com alguns arrepios e o estômago estranho, enquanto fica a persiana subida e se vai fazendo de noite no quarto. Ainda me dá o tempo para ler algumha BD que me deixa a abanear, e consolida-se dalgum jeito a sensaçom de estar no meio dalgo, umha realidade que está mudar, um caminho que estou nessas horas atravessando e que me vai deixar noutra banda.
Ainda tomamos algumha mais. Ainda sinto como vam ficando as horas nos pregues do cérebro. Ainda lhe damos voltas às cousas.
E penso que afinal será este dia unicamente umha cristalizaçom dos tempos complexos nos que estamos. E penso que ainda agardam mais umhas jornadas de atravessar atrancos e reviravoltas, e mesmo coa gana que tenho de acabar, nom deixo de pensar em como reaccionarei ao atopar logo os atrancos, parvoíces, pequenas injustiças que nom ham faltar da banda de alô da vida.
Dou-lhe transcedência em fim a um grupo de horas, animado polo alcol e a conversa e as leituras.
Fico entom agradecido quando ao falarmos pola noite, falas-me dumha quotidianeidade complexa mas conhecida e, com ela, de cousas cumha importáncia pequena, e volto sentir com a tua voz um bocado do escorregante fluir do tempo sem mais. Tenho hoje que fazer grandes esforços por me deixar levar nel.
December 19, 2006
É claro. Sempre deveu ser por estas épocas que chegavam à casa um bom número dos álbuns dos Beatles. Nom tenho a dúvida com o Branco, que caiu umha Noiteboa (quiçais a primeira que foi a família inteira ao Simago) como antecipo e necessidade da cadeia que foi em Reis. Nom duvido tampouco do Revólver, o Let it Be mesmo lho merquei eu ao meu irmao, e acho que penso que um Rubber Soul ou um Sgt Pepper’s também caírom desta. E também foi Natal quando vimos Yellow Submarine e as demais. E ainda também Cyrano de Bergerac, Bailando com Lobos, O marido da perruqueira e sei eu lá naquel estranho Canal+ de balde que tivemos um tempo.
Por lógica também forom destas algumhas outras: Acho que o Contos Inconclussos, que cadraram co Rubber Soul (sempre) e mais com o Revólver. O Silmarillion. Algumha relectura do Senhor dos Aneis. Algo de Dragonlance. Sem dúvida nengumha o Livro dos Contos Perdidos. E o Tapiz de Fionavar de Guy Key.
Entom, dou-me conta que nom é tam estranho, nesta altura, estar com tanta gana de apanhar um livro imenso, ou três, e mergulhar-me tarde a tarde deitado na cama a escuitar música do jeito. Entendo entom por quê nom resistim a encarregar Jonathan Strange e o Senhor Norrell, vencido polas tentaçom das 800 páginas. Polas que sinto como me fam as beiras de novo os Beatles, polo que nom podo evitar perguntar-lhe ao camareiro do Grifon, quê era aquela música.
É este tempo de cançons suaves e fondas e de mundos alternativos. E este ano nota-se especialmente no frio essa curiosa pegada.
December 18, 2006
No sonho, tomo um café com a minha avoa numha terraça no meio da ponte do Burgo (semelhante a algumha de Dublim). Lá falamos de teatro e, e ao mencionar ela a palavra catarse decato-me de que é umha Hermínia inédita, que quiçais tenha cá sangue dessoutros antergos oníricos que devemos compartir. Ainda debatemos sobre livros, vai um sol de manhá e fala-me do estúpido que é nom aproveitar as oportunidades para o sexo, que com este adiantos de anticonceiçom e prevençom nom há excusa nengumha.
Logo continuo o passeio com alguém que me interroga sobre os contidos das últimas edições de revistas pornográficas, e laio-me de que venhem cumhas densíssimas reportagens sobre a memória histórica que provocam que ache um de menos contidos de maior actualidade.
A manhá continua a se espalhar por cima do Lérez.
Umha certa tristura me acompanha ao espertar e decatar-me que nesta volta do sono Hermínia fica na cama, e que nunca deu o tempo nem a cabeça para termos conversas desse jeito.
Ainda boas as que tivemos, e a herdança que vai um levando dela.
December 15, 2006
“I felt the taste of mortality in my mouth, and at that moment I understood that I was not going to live forever. It takes a long time to learn that, but when you finally do, everything changes inside you, you can never be the same again. I was seventeen years old then, and all of a sudden, without the slightest flicker of a doubt, I understood that my life was my own, that it belonged to me and no one else. I’m talking about freedom, Fogg. A sense of despair that becomes so great, so crushing, so catastrophic, that you have no choice but to liberate by it. That’s the only choice, or else you crawl into a corner and die”.
Thomas Effing em O palácio da lua.
Na verdade, eu roldava os treze quando me aconteceu a tal revelaçom. Passo por passo. Com o tempo, como nom, a sensaçom integrou-se nos alicerces da pessoa (mais fonda e mais forte do que os Beatles Sílvio Tolkien Neruda Benedetti…). A ideia tornava e torna nos momentos mais complexos, deu em se matizar quiçais. Mas fica em mim, possivelmente mais do que cousa nengumha da que seja consciente, e até aqui me tem levado polo momento.
Chama-se Frederick. Pesou 3,3kg. Nasceu a segunda passada em Bonn. E, nom o sabe, mas incorporou-se a umha estranha estensa família por parte de mae que chega mesmo até a Trapobana, passando por Compostela, é claro.
December 13, 2006
Traspassam em Sam Pedro umha ferreteria. Olho o anúncio quase à meia noite, a descer a rua. Afectado polo vinho e o licor, penso num momento nessa vida. Botar o dia num comércio tranquilo, no que nem sequer há cousa de interesse para roubar. Aprender aos poucos os calibres e os jeitos, botar o tempo a provar em quê mil jeitos se podem combinar parafusos e porcas. Olhar a luz da rua que entra polo escaparate tamiçada polos tendais pregáveis, as ferramentas colgadas, os pequenos electrodomésticos.
Atessourar na trastenda velhos inventos que prometéram no seu dia mudar o mundo. Aparelhos para colgar trapos. Sistemas inéditos de colgado de roupa. Ferros de passar pregáveis. Soportes para televisores. Cousas que se colam em superfícies nunca pensadas e que nos permitem aproveitar ao máximo o espaço, ou aqueloutras que nos permitem frigir sem salpicaduras, colher as prateleiras do forno sem nos queimar ou aquecer latas directamente no lume. (more…)
December 7, 2006
Andamos no frio a fazer remuinhos debaixo das mantas, a nos aferrar aos espaços que caldeia a estufa, a buscarmos excusas para ficar ao teu carom bem apertados que fora é a chuva o que bate na fiestra, e campam as baixas temperaturas e priorizamos entom as propostas deportivas de interior. Jordem entom partidas, jornadas de estudo, longas sestas coas mínimas incursões possíveis ao inóspito mundo exterior, que semelha quer ficar um bocado mais sozinho, e manter-nos na casa, como se tivesse um aquel de gana de reflexionar ou ficar consigo mesmo. E, polo momento, seguimos-lhe o capricho, e cá estamos, a olha-lo desde a fiestra.
December 5, 2006
Em sonhos, herdo umha ruína e encontro umha velha que me decifra a meias a fórmula misteriosa do fabulosso fertilizante (levava tomate) dum meu antergo. Falamos polo miúdo, e fai-me complexos esquemas enquanto tu agardas fora com o carro. Bem sabemos que há um mistério a maiores, que nom tudo acaba no fertilizante e que tem de ser que os restos dessa casa, tam semelhantes a aquela abadia baleira que se via desde a de Isa tenham ainda mais para contar entre as suas trabes roidas e caídas, sem dúvida nengumha situadas bem perto daquela aldeia que tem nome real mas feitura de mentira e que conserva umha casa onírica na que também vivérom uns meus antergos do mundo dos sonhos.
E ainda será que temos lá umha outra família nocturna que nos condiciona com as suas herdanças, e quem sabe se também com leas de marcos e de leiras.
December 4, 2006
Fago por olhar o pequeno. Chega o frio, e dói por vezes um bocado a cabeça. E rompem-lhe a um por vezes a cabeça. E nom dá um posto a lente precisa para que entrem polo olho unicamente os detalhes baleiros que se engolem com facilidade e afundem-se aos poucos no corpo, co peso lene da sua importáncia, até se assentar nalgum manto do húmus da alma.
De quando em quando fam por aparecer e lembrar a sua existência. A fazer o arroz ou a limpar o chao, no intre em que se sente um arrepio que nos lembra a altura do ano, na faisca em que se decata um da casualidade de estar membros de três gerações da família dentro do mesmo centro hospitalário a um tempo, cada um polo seu.
Afinal, é no estranho momento em que vou sentado na parte de diante do carro, numha estrada cheia de folhas, com Hermínia doente atrás, que fico nada e entra tudo: o frio, o outono, a tristura própria do mundo é o que som eu mesmo por uns instantes, feito de cousas pequenas que assentam e se apoiam mutuamente
e nom deixam eu nos ocos.
Mas aginha volta o tempo de se ocupar das questões maiores. Que nom falte tempo nem vagar para voltar a esse espaço, que nem sempre é singelo.