September 29, 2006
Enquanto frego a louça e vejo os sedimentos do cola-cao no fundo da cunca, penso em se serám legíveis ao jeito dos pousos do cafê ou das folhas do chá.
E entom penso em se, do mesmo jeito, a mesma mao (que ainda será nossa) que desenha essas figuras mágicas
e ordeia as cartas do tarot
e vira no ar as moedas o I-Ching
e lhe pom os carreiros no ar às andorinhas
e organiza os intestinos dos animais
e os sonhos e as linhas da mao
nom porá também umha orde nas manchas de escuma do lavalouças,
nas pingas de água que ficam no lavabo
no pouso da coca-cola no fundo do copo
nas formas das polas das árvores
nos caminhos das aranhas e na forma das aranheiras.
Quais serám na realidades as adivinhações correctas?
Quantas histórias haverá ocultas nas formas que colhem as manchas da humidade na parede?
Quê grandes e miúdas verdades, discursos, destinos invisíveis deixamos de ler ao nosso arredor?
September 27, 2006
E chega o dia que trai o outono e é entom que sana a gente toda e se ponhem ledos os cadelos, e vai o frio da primeira hora da manhá na ducha e a névoa esvae o mundo arredor e como presta deitar-se no sofá manta mediante. Estamos aí.
September 25, 2006

Defendo Leningrado dessesperadamente. Mantenho as possições na banda do rio em Pdsok. Provo a cortar-lhe os subministros soviéticos a Stalingrado, em sessões de 45′. Deito nos bombardeios e assaltos um feixe de pequenas preocupações, de nervos ignotos. Se nom abonda, apanho a fregona e ponho-me com o chao da cozinha, que é também um mapa cheio de accidentes que conquitar aos poucos. Devano os sessos sobre como manter a cidade no meio dos inimigos, como organizar os subministros, o tempo, o tratamento de ressíduos, fazer umha estratégia ou duas coas que manter Leningrado, Pdsok, o fogar habitável, o cham limpo.
Terras falsas, territórios pequenos, luitas próprias e persoais que só a mim importam realmente e que agardo ir vencendo. As importantes estám noutros lugares.
September 19, 2006
Mais umha tarde a mesma gente encontra-se no mesmo lugar.
Em silêncio repetimos os mesmos movimentos sem nada particular até que, rodeados de espelhos como estamos, nom fica claro se som eles a reflectir a sequência ou se somos nós na realidade (quê realidade?) o reflexo que está a seguir a sua guia.
Nada faz sentido entom, e enche a a sala o baleiro imenso que fica habitualmente guardado no mínimo limite de superfície que diferença o mundo espelho do que é realidade.
(É cousa de olhar de perto o espelho, por um lado, para o encontrar. Entornar os olhos, ver se somos quem de saber onde começa e remata cada um dos mundos. E ficar exactamente no meio, nem realidade nem reflexo).
September 15, 2006
As hortas som umha parêntese feita de casas no coraçom da cidade.
Apertam-se tanto os muros que afinal nos bordes abertos apenas cabem palavras, e fica tudo por definir, lá dentro.
O passadiço dá apenas para apertas furtivas, um passeio sozinho ou com o cam, um alívio rápido fisiológico, umha fugida discreta polo meio da rua.
Dentro da parêntese é tudo um bocado burla da cidade. Lá nom funcionam as mesmas regras.
É terreio para serem os gatos panteras, vivenda de paporrúbios, melros, pegas e pombas. Ratas e ratos, e volvoretas, com espaços de mato fechado que ninguém sabe.
Dentro vai mais frio do que no resto da urbe, numha reclamaçom quiçais da sua condiçom selvagem e rural.
Onda o botelhom e o arrecendo de hashish, um homem cultiva a sua horta com calma e fala com a gente que passa. A quatro metros, instalam umha estranha proposta artística. De quando em quando, uns operários do concelho reclamam propriedade e desbroçam tudo o que podem para deixar que tudo medre em quatro meses e sejamos todos os vizinhos conscientes do passo cíclico da vida, também a fazer eles umha caste de estaçom. Às vezes para a gente roubar figos.
Disque fica lá a catedral detrás a 150 metros. Os turistas olham com assombro. Em Raxoi tomam-se decissões sobre o pais e a cidade. Polas ruas de arredor trabalha-se, vive-se, reparte-se o butano. Dentro é tempo para olhar nuvens.
Eu vivo lá na fronteira entre as Hortas e o mundo.
September 14, 2006
Há umha aranheira fina e tupida na minha cozinha.
Vai desde o contador do gas até o colgante do buda que tenho na janela para que lhe abaneem as campaás com o vento.
Ve-se que nom lhe sopra muito ultimamente, embora as fiestras fiquem permanentemente aberta. Ou bem que as minhas aranhas trabalham muito apressa.
Nom tiro a aranheira. Deixo ficar esse curioso retrato de quietude.
Fica o buda imóvel na sua meditaçom ou acaso caiu num imobilismo excessivo? Ira-se-lhe acumulando a terra nas dobreçes do corpo, acumulará aginha ervas no colo?
Podem-se durmir as pernas, deformar-nos o jeito, mas é a quietude também geradora de vida, apoio para aranhas boas que gostam de olhar pola fiestra, criadeiro de mundos pequenos.
September 13, 2006
Enquanto me ponho ao dia dos modelos de bombardeiro da RAF ao começo da guerra, continuo a ver se aclaro as diferências e evoluçom do Hawker Typhoon ao Tempest e mais ao Fury, e penso que nom importava achegar-me a celebrar
este aniversário.
Voltam alguns frikismos a roldar-me pola casa.
September 12, 2006
Casa
[Na ilha] — São Tomé @ 9:35 am
Practicamos o zen pequeno de nos sentir algo velhos e algo alheios a contemplar ao longo da tarde parrulos e adolescentes em cadanseu hábitat.
Os parrulos pousam nos paus e fluem a modo na água calma.
Os adolescentes nom param quedos e repetem sem o saber ritos e jeitos de se relacionar no rebúmbio (ao nosso carom umhas raparigas discutem sobre os beijos com língua e sem ela, e quais se devem dar primeiro).
Logo fago o zen do bus e fico a olhar passar a paisagem de autoestrada, e quando caminho cara à casa, um arrecendo no meio da rua transpom-me a um espaço acolhedor e amplamente luminoso, a sensaçom de domingo e irmos a algures e passar o tempo a olhar o mundo sem lhe dar muitas voltas, que nom lhe cómpre tampouco.
September 8, 2006
Há umha caste de sensaçom que se repete de jeito periódico e dam em coincidir mais ou menos com estes tempos, o facto de estar num banco ou na oficina de correiors, acalorado, agardando pola nossa quenda para fazer o ingreso a pensar quantos mais papeis restam por entregar e umha certa ilusom polo que arrincamos com o pago esse. Fora, invariavelmente, o céu anubado achega-nos um outono que se presinte carregado de novas, de gente, de cafés calidos nas noites cedas, promesas que venhem com a chuvia e que afinal só de quando em quando dam tudo de sim.
Polo de agora, a gana de rematar dumha vez.
September 5, 2006
Coso o almadroque que reventara e ponho cada dia o meu novo mandil para fazer a comida e fregar a louça. Fago lavadora trás lavadora. Rego as plantas. Recolho os restos da maré das viagens. Merco umha manta para as tardes de inverno que agardo botar deitado no sofá. Dobro a roupa. Encontro-lhe um oco a Enciclopédia Ilustrada da Aviaçom e ponho-a perto do chao, para que o seu peso contribua a manter-nos firmes na casa.
Fago ninho, estendo o meu controlo por todos os recantos, como se quigesse que o mundo se decatasse de que é este finalmente o meu lugar e que deve confabular-se para me manter nel.
Rituais de assentamento no retorno, conjuros para afincar-se na terra (que é este o seu tempo) e que se decate o vento que nom deve levá-lo tudo a voar, que me fago cargo dessa minha corporeidade estendida, que amo a casa e o jeito de vida que levamos e que é cousa de seguirmos, que ainda é tempo e é cousa de paz.