Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá...
Álvaro Cunqueiro Si o vello Sinbad volvese ás illas

September 29, 2006

Máncias impossíveis [Na ilha] — São Tomé @ 10:45 am

Enquanto frego a louça e vejo os sedimentos do cola-cao no fundo da cunca, penso em se serám legíveis ao jeito dos pousos do cafê ou das folhas do chá.
E entom penso em se, do mesmo jeito, a mesma mao (que ainda será nossa) que desenha essas figuras mágicas
e ordeia as cartas do tarot
e vira no ar as moedas o I-Ching
e lhe pom os carreiros no ar às andorinhas
e organiza os intestinos dos animais
e os sonhos e as linhas da mao
nom porá também umha orde nas manchas de escuma do lavalouças,
nas pingas de água que ficam no lavabo
no pouso da coca-cola no fundo do copo
nas formas das polas das árvores
nos caminhos das aranhas e na forma das aranheiras.
Quais serám na realidades as adivinhações correctas?
Quantas histórias haverá ocultas nas formas que colhem as manchas da humidade na parede?
Quê grandes e miúdas verdades, discursos, destinos invisíveis deixamos de ler ao nosso arredor?

September 27, 2006

Chegada [Acotações] — São Tomé @ 12:01 pm

E chega o dia que trai o outono e é entom que sana a gente toda e se ponhem ledos os cadelos, e vai o frio da primeira hora da manhá na ducha e a névoa esvae o mundo arredor e como presta deitar-se no sofá manta mediante. Estamos aí.

September 25, 2006

Loitar as terras falsas [Na ilha] — São Tomé @ 11:34 am

Defendo Leningrado dessesperadamente. Mantenho as possições na banda do rio em Pdsok. Provo a cortar-lhe os subministros soviéticos a Stalingrado, em sessões de 45′. Deito nos bombardeios e assaltos um feixe de pequenas preocupações, de nervos ignotos. Se nom abonda, apanho a fregona e ponho-me com o chao da cozinha, que é também um mapa cheio de accidentes que conquitar aos poucos. Devano os sessos sobre como manter a cidade no meio dos inimigos, como organizar os subministros, o tempo, o tratamento de ressíduos, fazer umha estratégia ou duas coas que manter Leningrado, Pdsok, o fogar habitável, o cham limpo.
Terras falsas, territórios pequenos, luitas próprias e persoais que só a mim importam realmente e que agardo ir vencendo. As importantes estám noutros lugares.

September 19, 2006

No bordo do espelho [Acotações] — São Tomé @ 10:01 am

Mais umha tarde a mesma gente encontra-se no mesmo lugar.
Em silêncio repetimos os mesmos movimentos sem nada particular até que, rodeados de espelhos como estamos, nom fica claro se som eles a reflectir a sequência ou se somos nós na realidade (quê realidade?) o reflexo que está a seguir a sua guia.
Nada faz sentido entom, e enche a a sala o baleiro imenso que fica habitualmente guardado no mínimo limite de superfície que diferença o mundo espelho do que é realidade.

(É cousa de olhar de perto o espelho, por um lado, para o encontrar. Entornar os olhos, ver se somos quem de saber onde começa e remata cada um dos mundos. E ficar exactamente no meio, nem realidade nem reflexo).

September 15, 2006

Vida de fronteira [Na ilha, Acotações] — São Tomé @ 12:27 pm

As hortas som umha parêntese feita de casas no coraçom da cidade.
Apertam-se tanto os muros que afinal nos bordes abertos apenas cabem palavras, e fica tudo por definir, lá dentro.
O passadiço dá apenas para apertas furtivas, um passeio sozinho ou com o cam, um alívio rápido fisiológico, umha fugida discreta polo meio da rua.
Dentro da parêntese é tudo um bocado burla da cidade. Lá nom funcionam as mesmas regras.
É terreio para serem os gatos panteras, vivenda de paporrúbios, melros, pegas e pombas. Ratas e ratos, e volvoretas, com espaços de mato fechado que ninguém sabe.
Dentro vai mais frio do que no resto da urbe, numha reclamaçom quiçais da sua condiçom selvagem e rural.
Onda o botelhom e o arrecendo de hashish, um homem cultiva a sua horta com calma e fala com a gente que passa. A quatro metros, instalam umha estranha proposta artística. De quando em quando, uns operários do concelho reclamam propriedade e desbroçam tudo o que podem para deixar que tudo medre em quatro meses e sejamos todos os vizinhos conscientes do passo cíclico da vida, também a fazer eles umha caste de estaçom. Às vezes para a gente roubar figos.

Disque fica lá a catedral detrás a 150 metros. Os turistas olham com assombro. Em Raxoi tomam-se decissões sobre o pais e a cidade. Polas ruas de arredor trabalha-se, vive-se, reparte-se o butano. Dentro é tempo para olhar nuvens.

Eu vivo lá na fronteira entre as Hortas e o mundo.

September 14, 2006

Buda das aranhas [Acotações] — São Tomé @ 10:05 am

Há umha aranheira fina e tupida na minha cozinha.
Vai desde o contador do gas até o colgante do buda que tenho na janela para que lhe abaneem as campaás com o vento.
Ve-se que nom lhe sopra muito ultimamente, embora as fiestras fiquem permanentemente aberta. Ou bem que as minhas aranhas trabalham muito apressa.
Nom tiro a aranheira. Deixo ficar esse curioso retrato de quietude.
Fica o buda imóvel na sua meditaçom ou acaso caiu num imobilismo excessivo? Ira-se-lhe acumulando a terra nas dobreçes do corpo, acumulará aginha ervas no colo?
Podem-se durmir as pernas, deformar-nos o jeito, mas é a quietude também geradora de vida, apoio para aranhas boas que gostam de olhar pola fiestra, criadeiro de mundos pequenos.

September 13, 2006

Parabéns [Acotações] — São Tomé @ 11:07 am

Enquanto me ponho ao dia dos modelos de bombardeiro da RAF ao começo da guerra, continuo a ver se aclaro as diferências e evoluçom do Hawker Typhoon ao Tempest e mais ao Fury, e penso que nom importava achegar-me a celebrar
este aniversário.
Voltam alguns frikismos a roldar-me pola casa.

September 12, 2006

Casa [Na ilha] — São Tomé @ 9:35 am

Practicamos o zen pequeno de nos sentir algo velhos e algo alheios a contemplar ao longo da tarde parrulos e adolescentes em cadanseu hábitat.
Os parrulos pousam nos paus e fluem a modo na água calma.
Os adolescentes nom param quedos e repetem sem o saber ritos e jeitos de se relacionar no rebúmbio (ao nosso carom umhas raparigas discutem sobre os beijos com língua e sem ela, e quais se devem dar primeiro).

Logo fago o zen do bus e fico a olhar passar a paisagem de autoestrada, e quando caminho cara à casa, um arrecendo no meio da rua transpom-me a um espaço acolhedor e amplamente luminoso, a sensaçom de domingo e irmos a algures e passar o tempo a olhar o mundo sem lhe dar muitas voltas, que nom lhe cómpre tampouco.

September 8, 2006

No banco e anuvado [Na ilha] — São Tomé @ 12:43 pm

Há umha caste de sensaçom que se repete de jeito periódico e dam em coincidir mais ou menos com estes tempos, o facto de estar num banco ou na oficina de correiors, acalorado, agardando pola nossa quenda para fazer o ingreso a pensar quantos mais papeis restam por entregar e umha certa ilusom polo que arrincamos com o pago esse. Fora, invariavelmente, o céu anubado achega-nos um outono que se presinte carregado de novas, de gente, de cafés calidos nas noites cedas, promesas que venhem com a chuvia e que afinal só de quando em quando dam tudo de sim.
Polo de agora, a gana de rematar dumha vez.

September 5, 2006

Ninho [Na ilha] — São Tomé @ 9:02 am

Coso o almadroque que reventara e ponho cada dia o meu novo mandil para fazer a comida e fregar a louça. Fago lavadora trás lavadora. Rego as plantas. Recolho os restos da maré das viagens. Merco umha manta para as tardes de inverno que agardo botar deitado no sofá. Dobro a roupa. Encontro-lhe um oco a Enciclopédia Ilustrada da Aviaçom e ponho-a perto do chao, para que o seu peso contribua a manter-nos firmes na casa.
Fago ninho, estendo o meu controlo por todos os recantos, como se quigesse que o mundo se decatasse de que é este finalmente o meu lugar e que deve confabular-se para me manter nel.
Rituais de assentamento no retorno, conjuros para afincar-se na terra (que é este o seu tempo) e que se decate o vento que nom deve levá-lo tudo a voar, que me fago cargo dessa minha corporeidade estendida, que amo a casa e o jeito de vida que levamos e que é cousa de seguirmos, que ainda é tempo e é cousa de paz.

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