Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá...
Álvaro Cunqueiro Si o vello Sinbad volvese ás illas

July 27, 2006

Verão na cidade [Acotações] — São Tomé @ 9:55 am

De socato vai-se embora toda a gente, e encontro-me a percorrer sozinho e em silêncio as ruas da cidade, a ficar na casa calado e sem ninguém.
Sei que nom há durar, mas ainda se agradece neste rebúmbio encontrar-me com a calma do verao na anoitecida, fiestra aberta e a cortar o salmom para a salada. E logo ainda meio deitado a olhar algum filme, tam conscientemente sozinho, com a garrafa de água na mao, a meio reler algumha cousa até que se fai tarde de mais.
Sei que agina ham chegar amigos. Sei que há com quem ir tomar-lhe umha.
Mas apuro dalgum jeito estes poucos dias, a sentir a liberdade de movimentos nas ruas e no tempo coma a nadar na auga.
Logo virám os momentos de apanhar monhas parvas polo meio da semana, de ceias sem planificar, já terei tempo de me cansar dessa liberdade, já haverá improvisações e hei encontrar ainda essoutra sensaçom imensa dum mes total de liberdade, mágoa o que haverá que estudar :-(

July 20, 2006

Trebom [Acotações] — São Tomé @ 12:01 pm

Pilhou-me na rua. Saia de comprar umha garrafa de coca cola e mais outra de Nestea, e a dependenta agasalhara-me cum balom de praia e mais cum rasca-rasca que ainda nom sei para quê serve.
Virei a esquina escuitei os primeiros sons contra o chao, e vim como se acelerava a gente. E entom começárom a cair aquelas imensas pingas, e lá se sentia onde petavam coma se dessem contra metal quente. O ar era um espaço inconexo entre correntes requecidas da rocha, do asfalto, da terra, da pele, e mais o anúncio ainda incrível do trebom.
A gente corria e eu deixei-me molhar a fundo. Na Alameda soava Aquarela do Brasil, e sentia cada golpe da água coma um bico frio anceiado desde tempo atrás. Amagou com parar, e foi em chegando às hortas, que semelhavam verdescer, que voltou bater com força a chúvia, e que me deixei de novo asolagar até que, justo em chegando à casa, sentim as primeiras trabadelas do frio que já ia tempo que nom.
Depois ainda voltou à chuva e saim à janela e deixei de novo que se enchessem de pingas os óculos, e escuitei na noite o ruído.
Sei que essa noite sonhei com gente, parelhas que se apoiavam, que havia cooperaçom.

July 12, 2006

Novos ataques [Acotações] — São Tomé @ 9:29 am

Decato-me de que vai para dous meses que nom fago novos cortes nas maos. No entanto, nas últimas semanas levo a impresom de que estou a mudar esses estranhos ataques por umha tendência excessiva a lixar os pantalões enquando como.
O caso é se agredir por algo, diria-se.

Limpar a cabeça [Acotações] — São Tomé @ 9:27 am

Sonho que me barbeio (de novo). Tiro a cabeça do pescoço, e a alternar o cepilho dental com a coitela, rasuro-me e limpo-a cuidadossamente. Colho-me a cabeça do cavelo e deixo-a colgar para lhe limpar os dentes. Ao começo é estranho. Estar com a cabeça dum mesmo na mao. Aproveito para me olhar de vagar. Ai estantio, cos olhos fechados.
A certa altura pergunto-me como é possível olhar se os meus olhos estám na mema testa que sostenho coa mao. Cuspo e decato-me de que, embora sinto a boca, nom deveria haver mais que um oco no pescoço. a minha boca está também na cabeça.
Evito olhar a parte inferior do pescoço: as tráqueas, veias, coluna cortadas que deveria haver lá.
Afinal, o único instante de terror é o olhar de passada no espelho o oco no devia estar a cabeça. Apenas olho umha mata de cabelo a ocupar esse espaço e uns óculos suspendidos do baleiro.

July 7, 2006

Alternativas chinesas [Trapobanas] — São Tomé @ 9:20 am

Um bocado para o oeste dos nestorianos ainda, existiu, en Tsingtao a única colonia alemá en China. Uns vinte anos de ocupaçom que deu ainda para que se continue a fabricar lá cerveja e para que ficasse a pegada arquitectónica occidental.
Algo mais para o norte, na ponta doutra península, Rusia tinha instalado o celebérrimo Port Arthur, porta de entrada de todas as modas occidentais em oriente. Nove dias de distáncia de Paris polo Transiberiano.
Coristas, marinheiros, festas, modas, tendências artísticas, igrejas, vilas burguesas no extremíssimo oriente, último refúgio dos nostálgicos do império.

Enquanto Hong Kong e Cantom ficárom, e sabemos em que dérom, fica um com a dúvida de como haviam ser estes recantos da fim de China, como havia ser ir beber weissbier à beira do Mar Amarelo, a escola impressionista de Port Arthur, a classe colonial fossilizada, as variantes idiomáticas, as histórias estranhas que sairiam dessas bólas de cristal com miniaturas dentro no percorrido da história.

July 5, 2006

Num comboio pequeno [Acotações] — São Tomé @ 11:48 am

No sonho último vou na bicicleta caminho a um monte para descansar. Afinal opto por alonga a viagem, apanhar o caminho que baixa cara ao rio, embora seja mais tempo, e assistir a essa gravaçom em directo da Gramola desde um muínho. Em baixando, cruzo duas vias de comboio diferentes e a bicicleta é já umha minima carruagem de passageiros, do tamanho dum carrinho, e eu vou montado no teito e freio cos pés a velocidade do descenso.
Lá embaixo encontro a festa, olho as construcções restauradas e falo um anaco com Dagha a quem vejo cum moço novo que nom, que é o mesmo mas já destingiu o cavelo.
Nem sei por quê esperto disso com tanto sono.

Xi’an a Nestoriana [Na ilha] — São Tomé @ 9:51 am

Lá, no meio e meio de China. Bem longe, no mesmo sítio onde aparecérom mais tarde os guerreiros de terracote. No século VII, no meio das tebras medievais da Europa, um lote de cristiáns nestorianos, perseguidos pola sua heresia, fundam umha igreja e conseguem um certo êxito na sua predicaçom. Ainda chegam até Mongólia e Coreia, e vam convertendo algumha gente até que a chegada do budismo e as diferentes invassões que acavam com eles.
Para além da simpatia natural que sinto cara aos países que nom puidérom ser, e da graça que me fam as heresias antigas, nom tenhem estes nestorianos nada para me cair bem. Mas penso como haviam de ser aquelas jornadas, as viagen naquela terra estranha, a comunidade que fugia e buscava expandir a sua fê.

E penso como poderia ser aquele reino cristiano no meio da China, em quê daria a sua arquitectura, a sua língua que havia mesturar chinés e arameo, a roupa, a poesia, os pensamentos que nos podia deitar tam estrana juntança…

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