Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá...
Álvaro Cunqueiro Si o vello Sinbad volvese ás illas

June 30, 2006

Resumo [Na ilha] — São Tomé @ 10:15 am

Maledicência, enfado próprio, irritabilidade alheia, reajustes a duo, ajustes de contas, indagações trascendentais, conversas sinjelas, juntanças de álto nível, trabalho também a se reajustar, tensões na militáncia, um bocado de dessilusom, o estatuto, viagens por china, ganas de fumar, mínima limpeza do fogar, tempo na casa, agardas, passeios moles, duas camissolas e um par de tenis, sono, espertar no meio da noite com fame ou com angúrias abstractas, discussões leve ao telefone, várias cervejas seguidas, projectos de tempo livre, agóbio com as férias, incerteza imediata sobre o futuro laboral, o tempo que melhora, ideia de saber de gente ao Norte, novas de última hora sobre umha agardada maternidade,
e quanta, quanta gana de durmir as suas dez horas.

June 27, 2006

Férias [Na ilha] — São Tomé @ 9:48 am

Descobro que tenho um sério problema com a planificaçom das férias. Acho que, sem ser consciente, concibo as férias como um espaço no que nom devia haver presas nem obrigas. Onde podo adiar o apanhar combóios, modificar destinos, optar por ver menos ou mais gente do mesmo jeito que podo nom o fazer. A sensaçom à que as assócio é a liberdade absoluta e a ausência de presas e de organizar o tempo.

Permite-me essa perspectiva a minha passividade e o facto de que tanto me tem vissitar ou nom vissitar cousas concretas, valoro as experiências em sim mesmas, som quem de botar 5 horas a ver um museo e deixar o jantar para a saida como podo olhar duas salas ou finalmente desbotar a entrada porque cómpre erguer-se antes.

Agradeço a experiência de agardar um aviom num aeroporto foráneo practicamente do mesmo jeito que viver o Englische Garten de Munich domingo de manhá. O conceito férias tem mais a ver com a possibilidade desse estado de ánimo que com o que faga nelas propriamente. Abonda com poder durmir abondo, ver alguns amigos, passear com algum lugar novo que permita abrir um bocado mais os olhos.

A conjunçom do medo a compartimentar o tempo apanhando bilhetes, reservas e compromissos com essa ideia de férias deixa-me a miudo nas maos da primeira proposta que se me fai, com tal de que elimine o ter que tomar algumha decissom.
Até o momento, o facto de ser as minhas viagens maioremente solitárias, nom provocava problemas. Agora decato-me do infernal que pode ser organizar-se comigo para eventos coma estes.

E também me decato de que há algum tempo que, quando me olho no espelho, nom vejo umha pessoa serea.

June 23, 2006

Tempos chineses [Na ilha] — São Tomé @ 10:10 am

Acabada a viagem de Vikram, arrinco coa do Theroux, com o seu aquel etnocéntrico e a maneira de se ir de guay que tem.
Umhas horas antes de me ponher com isso, olho o vídeo dumha chinesa a fazer a forma de 24. E na mesma tarde adquiro e leio Shenzhen. Engado ainda que tinha a ideia de incluir no lote de livros de viagens (Feira do Livro Antigo e de Ocasom) os Sete Anos no Tibet, e que tenho meio a ver “Balzac e a jovem costureira chinesa” por se existe dúvida de que tenho época nesse país.

Nem sei por quê, mas tenho boa gana de ler do país e zonas limítrofes. Acho que gosto dessa terrível mestura de indústria e costumes rurais, que me fascina a variedade e a brutalidade do cámbio social lá. E ao tempo tenho gana de ler livros de viagenes, experiências cotiás, carências de argumento.
E assim me vejo, com China nas maos, às voltas com o budismo, as artes marciais, a aplicaçom alienante do comunismo, a comida, o islam, a étnia han, a economia de mercado ao carom das comunas, a Revoluçom Cultural, a barragem das Tres Gorjas.
Sei que nalgumha outra ocasom tem-me coincidido assim umha série temática na vida. Sem causa aparente. Suponho que também passará. Que apanho China como um outro espaço imaginário de evasom.

June 21, 2006

Enterramento para durmir [Na ilha] — São Tomé @ 11:51 am

Afinal acabo o inquedo dia bem tarde encetando sem gana um outro capítulo da viagem de Vikram. Fico completamente estarrecido pola narraçom que fai dum enterro aéreo no Tíbet. Sinto os ossos do cránio quando esplica com esmagam as cabeças dos mortos envoltas em teas cumha pedra. A sensaçom de pavor, a ideia fabulosa da águias a agardar pousada pola sua raçom de comida humana, a ferocidade dos encarregados dos ritos à hora de espantar intrusos ameaçando-os cumha perna seccionada na mao.
Tardei um par de páginas em descobrer que nom estava a narrar um sonho e que a cena era verídica. O bom de Vikram nom oferece pista nengumha para que os ignorantes occidentais poidamos pensar o quê vai ver.
Umha sensaçom de chumbo e aceiro contra o osso, de alumínio na língua, de momentos antes do trevom que, quiçais, dalgumha maneira, expresse o sentir geral dos últimos dias.
(Lembro, evidentemente, o meu primeiro encontro com este rito, através de Sandman)

June 20, 2006

Que ajude a chuva [Mantras de teimosia] — São Tomé @ 9:04 am

Tenho o génio virado. Embora arredor andam a se me acumular as mostras de incompetência variada, embora fico no meio de irresponsabilidades e compromissos adquiridos, é bem possível que nom se me justifique apenas com isso o humor.
Poida que, dalgum jeito, o buraco negro que será a lua em Sam Joám me ande a turrar da cabeça. E só penso em que é a possibilidade da chuva como calmante,
acho que a chuva ajuda a gente se ver
( venha
veja
deixa
beija
seja
o que Deus quiser)

June 19, 2006

Sacrifícios propiciatórios [Acotações] — São Tomé @ 9:58 am

E, por acaso, os electrodomésticos, ás portas, a vilha da água
funcionam somente graças aos mínimos sacrifícios propiciatórios que lhe fazemos dia a dia ao próprio fogar
ao derramarmos no lume o leite, coas pingas de água que baptizam a mesa, com os graos de arroz que se derramam ao abrir o paquete, o café moído que lixa o chao, o pirijel que se apega às baldosas ou os anacos de pele de cebola que percorrem o corredor apegados na sola das pantufas.
Som dalgum jeito esses accidentes lubricantes para a vida? É por isso que estám desenhados os pacotes de arroz (e os de detergente) para favorecer essas pequenas dádivas?

June 16, 2006

…que vem o dia [Na ilha] — São Tomé @ 11:16 am

Vê Belém que vem o dia
e também lá me has guardar memória do jeito,
terás-me ainda tomada a medida.
Tomaremos-lhe o café no Delícias
veremo-nos na distáncia, com regime de visitas,
e lá manterás a confiança
que che permite
qualquer tarde
apanhar-me polos ombros e me pôr no meu lugar
com toda a naturalidade e sem tragédias.

No entanto, farei por agarimar a cidade,
bicar-lhe a pedra, acarinhar-lhe o cabelo
por ver se apanha dalgum jeito essa mornura,
a familiaridade que perde
agora que fica orfa de ti
e sei que nom darei feito.

June 15, 2006

Comida requentada [Na ilha] — São Tomé @ 9:54 am

Do mesmo jeito que o sábado nom podia acabar o dia sem comer orelha, ou en ocassões o corpo me pide meia lata de albóndegas , há dous dias afastei do andel o topo que apanha do quadro, o quadro em sim mesmo, e recuperei de detrás um desses livros que som o equivalente à comida graxa para a mente.
Lim quase a metade em três dias, voltando para adiante e para atrás, recuperando anacos da história, saltando partes e sempre sabendo o que passava a seguir. Ontem acabei com el e voltei às minhas viagens chinesas, como voltar ao jantar normal que tanto gosta um logo dumha enchenta. Cumpriu dalgum jeito a sua funçom de encher algum oco primário, que ignoro exactamente qual seria. Amosar um mundo bipolar e claro, incidir na possibilidade da mágia, dar-lhe um bocado de coerência ao universo, achegar algum jeito de cerveja mental… Sei lá.

June 14, 2006

Outra vida [Na ilha] — São Tomé @ 11:18 am

A jeito dum processo de sucubizaçom, semelha que nos útimos tempos vai-se-me a vida nos sonhos da noite.
Nom faltam noite tras noite aventuras, vissitas, encontros. O sono é profundo mas provoca-me um esgotamento que me deixa a vida cum aquel também de esonhaçom. Deixo fluir a vida, pendente de ver se nalgum momento se me revela a inquedança que fica detrás ou se os ecos da realidade tomam forma reconhecível para me deixar ver o quê se move dentro e cara a onde.

June 12, 2006

Além do Ártico [Trapobanas] — São Tomé @ 12:17 pm

Mantedo-me na temporada de sonhos vívidos, descobro mentres durmo a existência dumhas ilhas além de Groenlándia, virando para a esquerda ao passar Thule, para acima de Canadá, que (ao jeito dumhas Orkney, Feroe ou Shetland) forom colónia inglesa desde o século XII.
Surpreendo-me ao pensar na vida daqueles curiosos colonos, na vizinhança dos Inuits desde há tantos séculos, e também da navigabilidade do Passo do Noroeste. E digo que tenho que comprovar que tal cousas existe.
Polo momento nom me deu Google resposta algumha.
Continuo a buscar também por elas.

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