Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá...
Álvaro Cunqueiro Si o vello Sinbad volvese ás illas

May 30, 2006

Changes [Na ilha] — São Tomé @ 10:06 am

Penso em casas novas. Baralho por primeira vez na vida a possibilidade de mercar óculos quadrados. Mais pantalões curtos. Penso em tirar de acima ainda os quilos que me restam. Fazer viagens. Acabar várias cousas.
Nem sei por quê. Na realidade bem sei que som outras as cousas que me estám a fartar.
Mas som essas as minhas respostas estranhas às perguntas de Delírio, canda aos sonhos nos que continuo a combater e me defender (da última volta na guerrilha antifranquista).

May 24, 2006

Artesa [Crónica da reforma] — São Tomé @ 9:11 am

Umha vizinha mercou umha artesa para decoraçom. O meu pai recriminou-lhe como pagava tanto por esse trebelho. Ela dixo-lhe que a ver de onde tirava um. El respondeu-lhe que era bem capaz de construi-lo. Ela nom o creu.
Entom o meu pai botou quinze dias dedicando o seu tempo livre (entre passeio, chapuças e chiquitos) a construir umha artesa. Madeira de pinheiro, tábuas grossas, com todas as suas peças, incluindo um pau para poder deixar a tapa aberta.
Isso sim, a um quinto do seu tamanho real.
O outro dia passei por casa e encontrei-na acima da neveira.
Abri-na para achar um inesperado tesouro. No seu interior deitavam-se, em perfeita ordem, três bolsas de olivas “La Española” a encher o espaço tudo.
Abrim o caixom e lá sorpreendu-me umha morea de sobre de açafram “Pote”.
Agora disque o meu pai está a fazer um hórreo pequeno, também de madeira, quêm sabe para agochar quê gram.

May 19, 2006

Começar a escrita [Na ilha] — São Tomé @ 9:43 am

Vém me tirar um bocado da situaçom lamacenta dos últimos dias um sopro de ar fresco que achega Belém. Lembra-me a ilusom das folhas em branco, de começar as cousas pequenas e mais importantes, a luz da manhá.
Agromam na primavera as viagens em barco, enchem-se as ruas das caixas de cartom das mudanças, compramos roupa e abrimos paquetes porque há que buscar jeito de fazer a vida nova. E lá imos, e voltamos às praças cos vasos na mao, e há que estrear música, e reencontrar gente, e ver nas casualidades ritmos novos e saber que nos quere um bocado a gente toda,
porque venhem fortes as marés, e temos que mirar ainda de novos apoios pequenos para os dedos dos pés, algumha areia que nos amarre um anaco a pele e nos lembre que podemos ficar, rabunhados, mas sem que as ondas nos levem.

May 10, 2006

Tetris [Na ilha] — São Tomé @ 11:38 am

Ontem veu um momento onde tudo encaixava. Acho que foi afinal cousa do vento que me soprava dalgum jeito areias da superfície da vida e me deixava ver umha série de peças de cores a encaixar como se estivessem apenas a agardar umha boa peça das longas para fazer pleno. Ia sol, é certo, abondavam as mostras de carinho. Cantava o Kiko Veneno e havia projectos a esvarar pola cabeça. Tudo estava bem. A cousa boa é nom terem mudando muito as cousas desde aquela, e decatar-se que de quando em quando apenas compre tirar-lhe o po à vida.

May 8, 2006

Sonhos perigosos [Na ilha] — São Tomé @ 11:29 am

Canda à chuva pantasma essa que me acompanha, as minhas noites andam marcadas ultimamente por uns sonhos do mais estranho.
Embora agora mesmo só lembro três que me impresionárom especialmente, sei que é diário o espertar alerta, saido de situações de perigo ou de emoçom.

Há uns dias, por exemplo, botei boa parte da noite no Congo, a assistir a umha surrealista sucessom de líderes da guerrilha rebelde logo da marcha de Mobutu (que se encarregava cumha carta-bomba de liquidar o seu suposto golfinho). Sei que botava a noite a andar polo meio dos chamiços onde se vendia de tudo, a comprovar que levava umha pipa no peto e outra na mao e pendente de como evoluiam as cousas (já apiolaram 3 líderes no tempo do sonho) completamente consciente de que nom tenho puta ideia de quais som os códigos de convivência nesses sítios.

Tampouco estava muito cómodo na noite do sábado, quando naquela bibliteca senhorial Dumbledore e o professor de Artes Escuras de Hogwarts se enfrontavam a bola de lume limpa no seu combate final. E eu escapava polas esquinas a pensar quê culpa teria eu para estar ali metido.

Acho que onde me encontrei mais cómodo nestes últimos sonhos foi na última noite, a baleirar o predio no que instaláramos a base da nossa organizaçom terrorista. Desta volta bem sabia onde estava e quê me levara ali. A verdade, muito mal deviam estar as cousas para acabar eu cum subfusil na mao. O caralho é que a operaçom frustrou-se quando, todo pronto para prender-lhe lume ao lugar e destruír as provas, entrou a minha avoa e começou fazer uns ovor frigidos.
Com todas estas aventuras, afinal esperto cada manhá completamente alerta e com a sensaçom, de qualquer jeito, de ter durmido a fundo.
E pergunto-me o quê será que me turra polo sonho para essa latitudes tam estranhas…

May 5, 2006

Dar-lhe sentido ao caminho [Da propriedade dos lugares] — São Tomé @ 8:59 am

Meio de sono, nom deixo de olhar a rua enquanto tomamos de terraça em terraça os cafês que me haviam tirar o sono na noite.
Nalgum momento de silêncio decato-me como, a viver como vivo a meias num futuro imperfeito, que habito a cidade com levidade. Que vivo por ela, transito, mas nom a sinto fora dos momentos pontuais em que é quem de me assombrar ao deitar o sol por entre as ruas que dam ao Oeste.
A levidade da cidade. Começo entom a olhar as ruas co ponto de vista fixado na perspectiva. Olho os soportais, as quenlhas, como caminhos cara ao fundo, decato-me especialmente das linhas de fuga e encontro-lhes nos recantos significados ignotos que só a caminhar com certo sentido se podem descifrar, esse jeito de passeio que damos polos lugares novos, os passos íntimos que fazemos por caminhos mágicos e gastos, com o peso decisivo nos pés de quando emprendemos, verdadeiramente, um vieiro.

May 4, 2006

Chuva pantasma [Na ilha] — São Tomé @ 12:22 pm

Há como umha semana, acordo por vezes no meio da noite a ouvir umha chuva que nom existe.
Pola manhá vai bom tempo e está tudo seco. Já podo estar sozinho ou acompanhado que as Hortas soam a chuva de noite. É um caer maino e persistente, com ritmo próprio coma o das agulhas de relógio o que nom cessa durante o tempo que fico esperto entre sonhos estranhos.
Pola manhá, é claro, está tudo completamente seco e mesmo loce de jeito habitual o sol.
Quiçais venha o som de chuvas desde mundos foráneos, desde outras latitudes por onde esteja a cair essa água mansa numha estranha carambola de tempo e som.
Ontem sim que, por fim, escuitei nídios na tarde os berros das andorinhas.

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