Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá...
Álvaro Cunqueiro Si o vello Sinbad volvese ás illas

April 28, 2006

Mugidos de pena [Na ilha] — São Tomé @ 10:21 am

A consternaçom mantem-se. Lá foi a VA-CA. E em falando a sério, nom deixo de pensar o extraordinário alcance do trabalho que desenvolveu este inquedo comando de vaqueiros.
Herdeiros de Ronseltz, do Reixa mais iconoclasta, do Castelao mais retranqueiro, estes poucos subcomediantes forom quem de lhe dar um novo ar (um cheirinho a primavera) aos movimentos sociais galegos de começos deste século XXI. Num panorama abafado de siglas, de confrontamentos, dum mau leite que acabava por provocar cólicos, convenceu a muitos esta aposta. Festas, manifestações, mensagens esmorgueiro subversivos. Horas de cantos de danças de adoraçom nocturna. Novos enfoques e novos jeitos de actuar. As Guerrilla Girls, as campanhas de tortaços a famosos, um certo dadaísmo e, por suposto, a inspiraçom directa da Lliga Anticolonial.
E directamente de ali chegou a FREAC, as propostas dos Aduaneiros, o fabuloso Ludoreintegracionismo, a CA-CA ou, como nom, nas últimas campanhas da Mesa.
E nom é que fosse responsabilidade directa sua, mas sim se vê um bocado do alento da VA-CA nas mobilizações da Burla Negra, na acçom de determinados locais sociais, no tom que foi adquirindo o blogmilho e, dalgum jeito, no tom de certos meios e mesmo em campanhas eleitorais
Fossem inspiradores ou unicamente a mostra mais acabada dum ambiente retranqueiro que flotava já no ar, o caso é que a VA-CA amosou ser a milhor à hora de reconstruír mitos e lhe dar novo ar aos discursos e aos jeitos de actuaçom.
A semente prendeu bem, semelha. O discurso amosou ser do mais efectivo à hora de mobilizar e de conseguir apoios.
Mas, agora, o leite continua e cómpre crear umha, duas, mil VA-CAs mais que nos alimentem co seu fecundo leite. Cómpre meter umha VA-CA em cada organizaçom, coleitivo, projecto.
Que nom nos falte esse mugido que tam necessário é ainda.

Como dizia o Neruda:
Vide ver o leite polas ruas,
vide ver
o leite polas ruas,
vide ver o leite
polas ruas!

Saudos vaqueiros.

April 27, 2006

A fim dumha eira [Na ilha] — São Tomé @ 10:06 am

A fim dumha eira. Lá vai a VA-CA.
Com quem conas vou manifestar-me agora o 25-J? Para um referente ideológico que ficava… Quanta falha lhe faziam ainda estes ao país.
Fico seriamente apenado.
Freaking for Galiza! O leite continua.

SNIFE! :’(

April 26, 2006

Um paralelo ao Norte [Na ilha] — São Tomé @ 8:10 am

Foi ontem finalmente quando se decidírom as andorinhas e cruzárom essa linha estranha que as retinha ao Sul e no interior.
Vim na tarde as primeiras a explorar, lá altas no céu que se ajusta ao percorrido da minha rua.
A verdade, nom tardárom muito em se apropriar do espaço baleiro sobre os telhados, e já andavam, ainda poucas, a fazer as suas acrobácias a baixa altura.
Ao tempo, foi ontem o primeiro cafê com gelo. O tirar do canastro os tenis. Recuperar pantalões de verám de há anos.
Nom tem retorno, já. Verificamos o avance, démos o contrasinal, estamos já dentro. E elas ficam por riba.

April 24, 2006

Informe de andorinhas [Acotações] — São Tomé @ 11:25 am

Embora nom as dou visto nos céus de Compostela, nem nos da Corunha nem nos de Ponte Vedra, sinala-me algumha informante que tem localizadas concentrações inéditas pola zona rural do Deça. Disque estám já pola primeira ninhada.
Quiçais estejam a colher forças e preparem o iminente assalto às cidades, a loitar contra este tempo de céus baleiros que há já tanto nos deixárom os estorninhos.

April 20, 2006

Facendo ninho [Na ilha] — São Tomé @ 9:54 am

Onda a fiestra, tenho na casa um novo aviom de folha de lata. O motor em estrela da maqueta revela-o coma um Fokker D-V pintado de vermelho. Chegou desde um mercadinho de antigüidades de Londres, e tem nas rodas ainda restos de pintura também vermelha, restos das batalhas que deveu ver o aparelho lá polo Reino Unido nas maos dalgum menino que também comeria bombons Cadbury´s e marmelada de morango co chá.

Ao o olhar contra o vidro, sinto dentro um oco onde vas (aos poucos e em silêncios) fazendo um ninho de cousas pequenas e momentos moles
coma o sol do inverno.

April 19, 2006

Pausa [Acotações] — São Tomé @ 1:24 pm

Encontro um oco entre momentos. Sentado onda a fiestra nesse vale do tempo boto-lhe o olho a um desses andeis que menos movimento registam na casa. Lá fica boa parte de certos tesouros. Os poemas de Benedetti. A biografia do Neruda. O Baricco e o Unai. Alguns pequenos livros que se gardam para momentos coma estes. Navego aos poucos entre eles. Leio páginas e poemas ao acaso. Afinal, apanho essa grande caixa de luz que som os poemas e as canções do Zeca. E tenho que ponher a música e abrir a fiestra, porque há versos que tudo o resumem.

é já primavera
amar não é pecado

April 17, 2006

Secar a cuberta [Na ilha] — São Tomé @ 1:51 pm

Afinal, e era visto, houvo temporais desta volta. Por fortuna, ainda a dorna é marinheira e diria-se que lhe imos pilhando minimamente o jeito a como enfrontar as ondas.
Cantámos entre as tormentas, encontrámos agocho nas vozes amigas, compartimos chuvas.

Agora baldeio a cuberta. Olho os restos que deixou o mar e fico ainda reflectido na água salgada sobre a madeira. Descobro nos reflexos do temporal diferentes jeito de me ver. Dou-lhe uma volta ao caleidoscópio enquanto enjoito a fregoa, a ver em quê possiçom ficam as cousas e como vou i-las olhando até a vindeira onda.

April 11, 2006

Umha concessom [Acotações] — São Tomé @ 4:08 pm

Está visto que os chineses há séculos já sabiam de tudo, e é assim que me lembra o mestre em tai chi que diziam já que o vento da primavera altera muito o equilíbrio energético do corpo, que é melhor se proteger, e é claro que isso nom o explica tudo, mas para quê dizer que nom, com este vento do leste tam pouco freqüente que nos cai e como anda a gente, que quem nom é umha perna é umha víscera ou a outra e a lua que já nos vém enriba.
Mas, de qualquer jeito, desta volta, e por conta de Kiko Veneno, vou-lhe conceder ao satélite
umha certa inocência.
( qué culpan tiene
tiene la luna ninguna
si esta noche te como a besos).

April 10, 2006

Pousar no tacto pequeno [Acotações] — São Tomé @ 11:42 am

Estou cheio de sono e deitado a olhar a tele na tarde de domingo. A camisola deixa-me um anaco do bandulho ao ar. Deixo ir a mao direita e introduzo-a a meias no oco que fica entre o pantalom e a cadeira (algumha vez me digera umha rapariga que foi esse oco o primeiro que a turbara de mim). Deixo os dedos quedos, a sentir como a pele já começa a semelhar fresca nesta altura, segundo vai passando o inverno e medra fora a mornura. Fico com o polegar na fivela do cinto. Na ponta do índice sinto os últimos pelos rizados do pube. No canto da mao, o maininho aperta-se contra o calçom desde dentro, encarama-se ao osso da cadeira que permite a existência desse refúgio. Gosto do lugar. A pele é aí especialmente suave, e é para mim umha certa novidade sentir os espaços neste corpo anovado que ainda me surpreende de quando em quando ao se dobrar, ou ao revelar alguns anacos.
A sentir o pulso nesse osso, ou na palma da mao, sinto a gana de deixar ao sol esse bocado de mim, de libertá-lo no ar. Penso em como apetecem de socato prendas de cintura baixa, jogar a descer o pantalom de meio lado, carícias de primavera nesse mesmo anaco de pel. À contra, também apetece te trabar no teu osso, arrodear-che as cadeiras cos braços, deixar que seja o naris quem fique contra os caracóis do teu pube.

April 6, 2006

Bom ano para a erva [Acotações] — São Tomé @ 10:27 am


Este ano semelha que se lhe dá bem a erva ao telhado de enfronte, nunca o vira tam vizosso. Dá a ideia de que nel devem de se dar bem as vacas pequenas da Caladinha. Também no meu vam aninhando os couselos e algum fento.
Pergunto-me por quê será que levavam um par de anos mais espidos. Pergunto-me se isto implicará dalgum jeito tempos de fartura, de medrar, de forças dessatadas.
E quais serám na realidade esses ciclos que trascendem as próprias estações e levam o tempo do círculo à espiral.

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