Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá...
Álvaro Cunqueiro Si o vello Sinbad volvese ás illas

March 30, 2006

Escuitar a chuva [Acotações] — São Tomé @ 10:21 am

Decato-me ao subir as escaleiras da casa co abrigo molhado de que deve ser a terceira vez no dia que repito a tal escena. Ando a correr de arriba para abaixo, saio à chuva sem paráguas, tomo cafés, reúno-me, nom deixo de pensar em mil projectos e ideias que, coma a chuva, nom deixam de cair enriba minha (e eu sem paráguas).

Esperto finalmente no meio da noite co zunido do aquecimento que sempre me esperta algo antes que o relógio e me pom alerta. Fico em vea, pensando que aginha há tocar o acordador, remoendo todas as cousas que há que fazer ainda, repassando os pequenos enfados da semana.
E entom decato-me de que o som vém na realidade da chuva. E, em prestando atençom, dou distinguido o choque contra o cham, as folhas, os telhados, a erva, dalgumhas gotas, e penso por primeira vez na vida como é que a chuva fai esse som, cómo é o proceso polo que se acumula esse ritmo de pingas até dar no murmúrio lene que refresca coma a água.

É tarde de mais. Já vai lá o sonho, já começa, agora sim, o zunido do aquecimento para me pôr alerta de novo. Já nom hei dormir mais esta noite.
E fica aprendida a lecçom estúpida de que há que aprender a escuitar a chuva para se limpar o cérebro e fugir nas noites.

March 29, 2006

Flashback, flashback [Na ilha] — São Tomé @ 9:22 am


Desde que vim Rio Bravo, tenho associado o conceito flashback ao gesto de carregar um winchester que fai Miguel de Lira mentres pronúncia a palavra e lhe dá entrada a umha reconstruçom do pasado na obra.
E nestes dias estou a me enfrontar a vários desses, carrego o winchester repetidamente nas histórias do Tio Patinhas que me fam reviver antigos contos. Logo enfronto-me de volta a Cicely (série completa em DVD) e às noites passadas a olhar a televisom sozinho no verám. E ainda ontem, vira umha esquina na rua Dani e amosa-me que, ainda que mais velhos, continua na mesma tirando mais um fanzine e mantendo mais um grupo musical.
Ontem acabei também tomando umhas canhas multitudinárias como havia tempo e rindo em jeito velho, com gente que se vê pouco. Bala a bala, o passado vai dando pequenos toques, a ritmo de chuva. (flashback flashback).

March 27, 2006

Um ninho de ideias [Na ilha] — São Tomé @ 12:07 pm

De casualidade, vou encontrar em Compostela e mais de dous depois, um livro que encarreguei várias vezes me buscassem polo Reino Unido.
Conheci há uns anos a existencia de The Life and Times of Scrooge McDuck , a completa biografia que Don Rosa fixo sobre o Tio Patinhas a partir das míticas histórias nas que Carl Barks criou e modelou o personagem e mais o mundo dos parrulos.
E devorei-no. Respondeu às minhas expectativas, e permitiu-me comprovar que, por açares do destino, tivem acesso à practica totalidade das histórias de Barks que se citam, o qual nom é singelo se temos em conta que algumhas devem levar 40 anos sem se reeditar…

Em indo no comboio, dá-me para pensar até que ponto nom me terám influído aquelas histórias que devorei em Dumbos, Películas Walt Disney, Yo, Pato Donald e, sobretudo, os meus 286 Don Mikis (sem contar os que me emprestárom). Quanto sairia de ai dessa minha tendência nom parar quedo e ter constantemente na cabeça novos projectos que, se nom me vam tirar de povre, quando menos aspiram a ter êxito, seja para bem meu ou dos demais. Em quê sentido nom me ficaria apegada a impressom de que as boas ideias podem funcionar. Se nom seria ali onde sentim por primeira vez a excitaçom de ter entre maos um projecto que promete ser o máximo e vai dar todos os cartos do mundo…

March 22, 2006

Carinho de Montealto [Da propriedade dos lugares] — São Tomé @ 12:02 pm


Acabei-lhe colhendo carinho ao bairro feio. Fica apegado à sensaçom de se perder polas suas ruas em penumbra, a dar-lhe voltas ao labirinto até ficar fora do mundo tudo procurando oco para aparcar.
Ao final fechar-se na tua casa pequena coa sua grande cama, com a estranha certeza de estar fora de tudo, cos pés a enraizar no tempo coa cozinha de ferro, os enchufes antigos, a casa velha e a chuva que sempre semelha agora que nos acompanhou.

As maos feridas [Acotações] — São Tomé @ 10:29 am

Há dous dias dim-me de conta de novo. Há já muitos meses que me decato, nos arredores da lua, de que tenho o dorso mas maus cheios de rabunhaduras, algumha queimadura pequena, cortes accidentais.
Nom sei bem de onde saem. Sei nos momentos concretos em que as fago ao cortar cebola, ao apanhar mal um fólio, ao dar contra o canto dumha das portas da cozinha.
Logo esqueço-o até que um dia olho para elas e decato-me de que se me acumulárom quatro ou cinco, repartidas pola mau. Também mo lembram o vinagre, o zume de limom, o xabrom.
Depois vam passando aos poucos, e quando já estám quase cicatriçados (como agora mesmo) tomam um pequeno descanso e voltam bater contra as cousas.
Será um substituto inconsciente das minhas enfermidades preguiceiras. Um sacrifício mínimo de sangue mensal. Mais um jeito somático de me castigar sem sabê-lo por sabe Deus quê pecados, quê malestares que nom conheço.

March 17, 2006

Apresentaçom literária [Na ilha] — São Tomé @ 10:29 am

Haveria que institucionalizar que estes actos som para os amigos. Está bem que se anúnciem, sempre há gente que nom ves desde há tempo, ou mesmo que nom lembrarias avissar, e é assim que se dam conta.
Aceitemos entom que, num sentido amplo som actos para os amigos. Somos nós o grosso do público.
Nom imos aí para escuitar o que dim de ti os anfitrions, bem sabemos todo o que vales, nom vam ser quem de nos dizer nada novo.
Nom imos para che conhecer a obra. Somos esses afortunados que já che limos, que sabemos como se foi gestando, que falamos já dela contigo.
Nom imos por compromisso, nom é cousa de encher a sala.
Nom imos por te ver, ainda é sorte temos umha data de oportunidades de estarmos contigo.
Estamos ai unicamente porque nos orgulhamos de ver-te dessa banda da mesa. Porque gostamos que, dalgum jeito, essa gente que nom che conhece como o podemos fazer nós também se tenha decatado um bocado de quanto vales, e tenha apostado por ti.
Estamos na realidade a te dar umha grande aperta colectiva. A nos ver uns aos outros sabendo que te temos como nexo. A escuitar-che explicando-lhe à gente como forom alguns momentos que compartimos. A dizer que te queremos, em fim.

March 16, 2006

Aqui, ao vivo [Acotações] — São Tomé @ 11:45 am

Esta é a ocasom para ver e ouvir ao vivo a versom impresa de Aqui.
E à sua guapa autora, é claro.

A cidade das entranas [Da propriedade dos lugares] — São Tomé @ 10:31 am

É justo onte.
Ao passar mais umha vez pola Alameda, olho esse rebúmbio da gente a cruzar na Porta da Estrela, nesse jeito de presa e a certa calma que dá o retirar-se para a casa. E ao fondo a lua entre as árbores e a ras de telha, e é ai que sinto um estranho estremecimento no estómago ou, mais bem, um bocado mais abaixo, intestino ou tan-tien, semelhante a esse que se tem antes dum beijo primeiro
e decato-me de que acabo de apreixar a cidade, que já é minha Compostela também nesse nível, que ainda tardou, que é minha a gente que passa, os que correm polo parque cada noite, os comércios que ainda permanecem abertos nessa hora, as casas baleiras e mais as luzes das janelas.

(E é claro que logo lembro ao baixar a costa cara à casa, aquel recanto onde estivem de conversa com certa rapariga até às 8 a.m. antes de entrar a trabalhar, e sinto mais o pouso do bar este onde caem ainda as canhas semana a semana, e confirmo a propriedade sobre também sobre as Hortas, e a rua, a vista desde a janela).

Pola volta do sol [Na ilha] — São Tomé @ 10:05 am

É hoje que o vejo. Já se completou a volta, já o sol girou abondo para dar no meu salom ao se pôr. Cléo prepara a sua segunda floraçom, um gato passa polo telhado de diante e ao remexer nos CDs é Sodade, imprescindível para as tardes demoradas da primavera, o que me vém à mao. E canto inconsciente, anhorando sentir ao meu carom as vozes do Sérgio e do Rapo a completarmos o ritmo: Eu não sei que faz o sol, que não dá na minha rua…
Mas agora volta dar, é tempo de abrir as fiestras, ler deitado no sofá a sentir o arrecendo que chega de fóra, fazer um bocado como se nom vinhesse aí abril, os seus praços, as suas esperanças, e sentir como essas vezes em que se tem sentido a casa, os telhados, o alento, cheio de flores.

March 15, 2006

Cultura americana [Na ilha] — São Tomé @ 11:21 am

“Os filmes, thés dansants, as mascaradas do Dia de Acçom de Graças, as salas do bares, as Ziegfeld Midnight Follies, as escolas nocturnas, os diários de Hearst, os clubes de mulheres sufragistas, o movimento por um imposto único, as droguerias de Riker, conducir sedáns e Tammany Hall”

(Robert Lowie, Culture and Ethnology, 1917)

(Embora a lista fosse anterior á de Eliot, acho que nom há nem ponto de comparaçom).

Get free blog up and running in minutes with Blogsome | Theme designs available here