Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá...
Álvaro Cunqueiro Si o vello Sinbad volvese ás illas

February 27, 2006

Smara [Na ilha] — São Tomé @ 2:42 pm

Nos últimos tempos toca-me mais perto esta guerra.

Um amigo vai preparar lá o terreio para a campanha que vém.
Surgiu-me umha caste de afilhada nova que habita precisamente lá.
E cobra, com estes 25 cabodanos, macabro sentido o poema do Cunqueiro, quando di, a falar de Smara,

Os Al Ainim poñen o ouvido á auga que corre
e así aprenden a rezar.

Que nom tenham que reçar muito mais. Que venha um tempo de paz, que me fica essa guerra muito perto, e nom quero mais.
Cinge-me Smara os dous aniversários, mas é este o que autenticamente dói.

February 23, 2006

Mergulhar [Acotações] — São Tomé @ 12:20 pm

Tenho gana de mergulhar no inverno.
Ficar na cama quente, olhar a giada. Reencontrar os amigos de vissita e, com vagar, irmos todos jantar churrasco, beber-lhe uns vinhos e logo (também tu) buscar ruínas, encontrar espaços novos no frio e olhar paisagens retiradas. Ficar algo mais agochados, a cuberto, parar e tomar umha canha e umha tapa de orelha no caminho. Deixar que se faga de noite e sentir nos carreiros o mundo como fogar.

February 20, 2006

De menos [Mantras de teimosia] — São Tomé @ 6:02 pm

Aunque hoy ha llovido
hay camisas al sol.

E será por isso.
E será por essa parvada de versos que, em dias coma hoje, com o chao tam terrivelmente molhado, e o frio a bater, e o sol esplendorosso a reclamar o seu lugar por riba das poças
vem-me à cabeça esse De menos, e há que o cantar polo baixo, e lembrar de quem toque no momento, e aquecer um bocado o coraçom no frio da água clara no sol.
Será verdade afinal que

la lluvia es la trampa
la lluvia es el cebo.

Malandros [Na ilha] — São Tomé @ 2:29 pm

Colho quase ao chou “A morte de Artur” de Malory, que levava anos agochada no estante. De novo me enfronto com a minha peculiar confussom entre Malory e Chretien de Troyes, e prometo-me mais umha vez que nom me vai passar de novo.
Na introduçom descobro de esguelho que o autor, considerado cúmio das letras inglesas medievais, tivo umha agitada vida coma guerreiro, ladrom, asaltante e quêm sabe quantas cousas mais, que escreveu a sua obra desde a cadeia.
Lembro em primeiro lugar daqueloutro cumio medieval, o bom (e malfeitor) François Villon, condanado a morte, e que nos deixou o seu catálogo de donas, pai da saudade.
E em Li-Po, bébado e brincallom.
E ainda logo penso no Marco Polo a lhe dictar ao Rustichello de Pisa, o “Livro da Maravilhas”, que este já nom foi, quando menos oficialmente tam malandro.
De certo que ainda me resta um lote deles. Quanto lhe deve a literatura às prissões? Quantas páginas nascérom das vidas mais tumultuosas?
Ve-se que na Idade Media, quando menos, algumhas das melhores…

February 17, 2006

Pensamentos primeiros [Acotações] — São Tomé @ 10:20 am

De onde saiu esta quantidade de sonho que se me acumula nos olhos?
Quê conas estivem a sonhar?
Eu juraria que ontem puxera ao direito a camissola do pijama…

February 16, 2006

A Santiago ou a Londres [Acotações] — São Tomé @ 12:51 pm

Sonho que David, colega de adolescência, aparece logo de dez anos e anúncia a sua vindeira partida à emigraçom londinense. Juntamo-nos um lote de gente, ponhemo-nos ao dia, di que estivo num grupo de música em Ribadeo, chama à rádio e polo telefone começa a sonar “A Santiago voy” e menuda festa que montámos (cos de “Los Satélites” por ali a dançar) ao som dos Tamara e quanto nos emocionamos ao lembrar velhos tempos.
Nalgum momento, e sem perder a ledízia, contam-nos que umha mulher caeu ao pátio do castelo. Ao meu carom Mariano Rajoy asómasse à janela e confirma-lho a Fraga. E lá abaixo retíram umha padiola cum corpo num saco e um neno a chorar enriba.
Logo encontro-me eu mesmo a ver como organizar a minha viagem a Londres, e penso com ir primeiro a Porto, se passar com calma o dia lá e ver de novo Lello e Irmão e vissitar, por exemplo à Margarida. Entom aparece O’Connell, que baixou desde lá de vissita surpressa e conta-me que sim, que é o melhor que podo fazer, enquanto a minha mãe vai-se deitar que nom se encontra muito bem, eu penso se deveria marchar realmente e soa espertador.

February 15, 2006

Chover [Acotações] — São Tomé @ 12:41 pm

E deixa-te chover que estás mais linda
com a água a te esvarar
e é chuva o que nos une
a pele ao chao os cabelos
e deixa-te chover que já era tempo
de olhar-nos um bocado licuados
lubricados mergulhados -luas fora-
a cantar por onda as poças.

February 13, 2006

Recordatórios secretos [Acotações] — São Tomé @ 2:07 pm

E ergue-se um na segunda, e vai cheio de sono e canso, e caminha cara ao trabalho com toda umha semana por diante. E enquanto aguarda o ascensor, decata-se das dores. As nádegas, as pernas, os braços, o abdome, o pube portam esses lenes indicativos. Jorde a identificaçom e classificam-se como maniotas.
E antes mesmo de se fazer a pergunta de onde é que saírom, jorde o mínimo sorriso, contraem-se os músculos todos para as sentir de novo e a consciência. E lembra-se brevemente em quê cama, quê intres, quê posturas as gestárom. E por onde as há guardar ela.

February 9, 2006

Cultura inglesa [Na ilha] — São Tomé @ 11:25 am

“O dia do Derby, a regata Henley, Cowes, o 12 de agosto, umha final de copa, as carreiras de cans, as máquinas de petacas ou de flippers o jogo de dardos, o queixo de Wensleydale, a col fervida cortada em anacos, a remolacha em vinagre, as igrejas góticas decimonónicas e a música de Elgar”.

(Lista de riscos culturais ingleses elaborada por T.S. Eliot. 1948)

Ficou-lhe, quando menos, bem evocadora. Até da gana de ir viver lá, onde semelha que está isso tudo bem mais claro e sem risco de desaparecer ou de se deturpar constantemente. E isso que lhe falta a cerveja.
Algum valente se lançará a emendar-lhe a plana com a nossa própria? (Propostas: A estornela, os furanchos, os vertedoiros incontrolados, as vacas, o feismo, a monha do 25-J, os incêncios, Sam Joám, o idiolecto da UPG, o ratibrom…?)

De onde [Acotações] — São Tomé @ 9:19 am

Ás vezes, à falta de lua, nom tenho muito claro de onde me baixa a tristura.

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