February 27, 2006
Nos últimos tempos toca-me mais perto esta guerra.
Um amigo vai preparar lá o terreio para a campanha que vém.
Surgiu-me umha caste de afilhada nova que habita precisamente lá.
E cobra, com estes 25 cabodanos, macabro sentido o poema do Cunqueiro, quando di, a falar de Smara,
Os Al Ainim poñen o ouvido á auga que corre
e así aprenden a rezar.
Que nom tenham que reçar muito mais. Que venha um tempo de paz, que me fica essa guerra muito perto, e nom quero mais.
Cinge-me Smara os dous aniversários, mas é este o que autenticamente dói.
February 23, 2006
Tenho gana de mergulhar no inverno.
Ficar na cama quente, olhar a giada. Reencontrar os amigos de vissita e, com vagar, irmos todos jantar churrasco, beber-lhe uns vinhos e logo (também tu) buscar ruínas, encontrar espaços novos no frio e olhar paisagens retiradas. Ficar algo mais agochados, a cuberto, parar e tomar umha canha e umha tapa de orelha no caminho. Deixar que se faga de noite e sentir nos carreiros o mundo como fogar.
February 20, 2006
Aunque hoy ha llovido
hay camisas al sol.
E será por isso.
E será por essa parvada de versos que, em dias coma hoje, com o chao tam terrivelmente molhado, e o frio a bater, e o sol esplendorosso a reclamar o seu lugar por riba das poças
vem-me à cabeça esse De menos, e há que o cantar polo baixo, e lembrar de quem toque no momento, e aquecer um bocado o coraçom no frio da água clara no sol.
Será verdade afinal que
la lluvia es la trampa
la lluvia es el cebo.
Colho quase ao chou “A morte de Artur” de Malory, que levava anos agochada no estante. De novo me enfronto com a minha peculiar confussom entre Malory e Chretien de Troyes, e prometo-me mais umha vez que nom me vai passar de novo.
Na introduçom descobro de esguelho que o autor, considerado cúmio das letras inglesas medievais, tivo umha agitada vida coma guerreiro, ladrom, asaltante e quêm sabe quantas cousas mais, que escreveu a sua obra desde a cadeia.
Lembro em primeiro lugar daqueloutro cumio medieval, o bom (e malfeitor) François Villon, condanado a morte, e que nos deixou o seu catálogo de donas, pai da saudade.
E em Li-Po, bébado e brincallom.
E ainda logo penso no Marco Polo a lhe dictar ao Rustichello de Pisa, o “Livro da Maravilhas”, que este já nom foi, quando menos oficialmente tam malandro.
De certo que ainda me resta um lote deles. Quanto lhe deve a literatura às prissões? Quantas páginas nascérom das vidas mais tumultuosas?
Ve-se que na Idade Media, quando menos, algumhas das melhores…
February 17, 2006
De onde saiu esta quantidade de sonho que se me acumula nos olhos?
Quê conas estivem a sonhar?
Eu juraria que ontem puxera ao direito a camissola do pijama…
February 16, 2006
Sonho que David, colega de adolescência, aparece logo de dez anos e anúncia a sua vindeira partida à emigraçom londinense. Juntamo-nos um lote de gente, ponhemo-nos ao dia, di que estivo num grupo de música em Ribadeo, chama à rádio e polo telefone começa a sonar “A Santiago voy” e menuda festa que montámos (cos de “Los Satélites” por ali a dançar) ao som dos Tamara e quanto nos emocionamos ao lembrar velhos tempos.
Nalgum momento, e sem perder a ledízia, contam-nos que umha mulher caeu ao pátio do castelo. Ao meu carom Mariano Rajoy asómasse à janela e confirma-lho a Fraga. E lá abaixo retíram umha padiola cum corpo num saco e um neno a chorar enriba.
Logo encontro-me eu mesmo a ver como organizar a minha viagem a Londres, e penso com ir primeiro a Porto, se passar com calma o dia lá e ver de novo Lello e Irmão e vissitar, por exemplo à Margarida. Entom aparece O’Connell, que baixou desde lá de vissita surpressa e conta-me que sim, que é o melhor que podo fazer, enquanto a minha mãe vai-se deitar que nom se encontra muito bem, eu penso se deveria marchar realmente e soa espertador.
February 15, 2006
E deixa-te chover que estás mais linda
com a água a te esvarar
e é chuva o que nos une
a pele ao chao os cabelos
e deixa-te chover que já era tempo
de olhar-nos um bocado licuados
lubricados mergulhados -luas fora-
a cantar por onda as poças.
February 13, 2006
E ergue-se um na segunda, e vai cheio de sono e canso, e caminha cara ao trabalho com toda umha semana por diante. E enquanto aguarda o ascensor, decata-se das dores. As nádegas, as pernas, os braços, o abdome, o pube portam esses lenes indicativos. Jorde a identificaçom e classificam-se como maniotas.
E antes mesmo de se fazer a pergunta de onde é que saírom, jorde o mínimo sorriso, contraem-se os músculos todos para as sentir de novo e a consciência. E lembra-se brevemente em quê cama, quê intres, quê posturas as gestárom. E por onde as há guardar ela.
February 9, 2006
“O dia do Derby, a regata Henley, Cowes, o 12 de agosto, umha final de copa, as carreiras de cans, as máquinas de petacas ou de flippers o jogo de dardos, o queixo de Wensleydale, a col fervida cortada em anacos, a remolacha em vinagre, as igrejas góticas decimonónicas e a música de Elgar”.
(Lista de riscos culturais ingleses elaborada por T.S. Eliot. 1948)
Ficou-lhe, quando menos, bem evocadora. Até da gana de ir viver lá, onde semelha que está isso tudo bem mais claro e sem risco de desaparecer ou de se deturpar constantemente. E isso que lhe falta a cerveja.
Algum valente se lançará a emendar-lhe a plana com a nossa própria? (Propostas: A estornela, os furanchos, os vertedoiros incontrolados, as vacas, o feismo, a monha do 25-J, os incêncios, Sam Joám, o idiolecto da UPG, o ratibrom…?)
Ás vezes, à falta de lua, nom tenho muito claro de onde me baixa a tristura.