January 31, 2006
A remexer nos trebelhos velhos que se acumulam pola casa adiante, selecciono o que tirar, e boto fora cousas que sobreviviram anteriores operações de extermínio. Decato-me de que, efectivamente, tenho estado bem mais sensível aos objectos.
Passa o tempo e, segundo vivemos, cada objecto que nos acompanha perde o sentido único e importantíssimo que tina na infáncia. Ontem na cama pensava que ninguém há saber qual era o tacto exacto daquel cobertor azul co que me arroupava, nem o arrecendo suave a metal oxidado da minha cama desmontável.
Antes só havia quatro ou cinco cobertores, apenas umha única cama, um televisor, umha casa. Cada recanto, o tacto das paredes, as manchas de humidade, a luz exacta que entrava pola fiestra nas tardes do sábado ou a que se fitrava polo pátio e eu podia olhar sozinho e em silêncio adquiriam umha importáncia suprema.
Quanto poder lhe tenho tirado aos lugares e aos objectos desde entom. Em quê jeito lhe tenho trasladado a importáncia às pessoas.
Às vezes dá-me a impressom, no entanto, de que continuo a guardar, detrás dum frágil envoltório, a velha capacidade de me sentir tocado por todas essas mesmas cousas.
E temo em ocassões perder a película protectora num mal momento, e derrubar-me chorando no chao da casa cumha figura de baratilho rota na mao, apenas porque já nom vai estar nunca mais inteira, porque botou comigo tempos únicos (como som os tempos todos), porque alguém mais a sostivo em momentos mágicos que se me perdem na memória.
Fago-me concessões e guardo parvadas. Abro pouco as susoditas caixas. Tento manter esse equilíbrio concreto e umha ajeitada tensom superficial.
É nisso também que colabora o ter a quem apertar, os exercícios zen, as cervejas cos amigos e as cousas todas que, afinal, se mantenhem no tempo.
Mas nom vos assustar se um dia entoo elegia séria por umha postal perdida, um joguete abandonado, um lugar que muda.
Será por que ando cum ánimo muito caseiro, tolo por organizar essa ruína na que vivo. Mas devo reconhecer que, logo de todos estes anos de rede, descubro o mais útil que nunca vim por Internet. Ando já a fazer prácticas.
Se alguém encontra algo que simplifique desse jeito o manter a casa limpa, que avise, por favor.
January 27, 2006
Alguns discos ressistem-se-me. Nom querem ser gravados. Fico convencido de que há algum tipo de fado que os mantém afastados de mim.
Se mal nom lembro o primeiro foi Amélie. Juro que tenho quando menos 6 cópias diferentes tiradas de 4 discos (umha cópia francesa, um original -ediçom especial, recém mercado francês, um original ediçom espanhola, outro original ediçom francesa), feitas em diferentes gravadoras e computadores, com diferentes marcas de CDs, e unicamente o último conseguiu ficar sem erros… por um tempo.
Logo aconteceu-me com Tribalistas. Desta volta fórom 4 as tentativas desde outros tantos discos e gravadoras (baixado de Internet, original, original, cópia). Polo momento resiste a última, que ja preguei figessem sem pensar que era para mim, por ver se desse jeito funcionava.
O outro que vém de velho é Le Phare. Tenho já duas cópias imperfeitas em CD tiradas, desta volta, dumha cópia que soa estupendamente.
O outro dia tentei sortear a maldiçom vertendo o disco a Mp3 e gardando-o directamente no computador.
No primeiro intento semelhava ficar perfeito. Mas agora o cacharro começou a colgar-se quando tento escuitá-lo, e tivem que fazer 4 tentativas para o trasladar ao disco duro portátil ante os erros de leitura. De o meter no I-pod nem falo.
Pergunto-me qual será o problema exactamente, pergunto-me se deverei limpar os CDs virgens com fume de loureiro e água bieita ou ponher-me zen com toda a música e dissimular que gosto dela para ver se desse jeito evito incidentes…
January 25, 2006
Às vezes nom fica outra, e devemos construir tumbas pequenas. Fazer buracos na terra que abondem para conter os intres minúsculos, os objectos mínimos. É desse jeito que tenho a casa a se encher aos poucos de caixas velhas de sapatos.
Dentro ficam retais de tea que lhe sobram aos pantalões, botões caidos sempre pendentes de coser, a figura dum parrulo que já por terceira vez perdeu a cabeça e continua ainda a agardar o colado. Tenho lá também postais pequenas de tempos remotos (as cousas mais importantes ficam em caixas bem mais fortes), anacos de corda velha, umha bolsa de globos para umha festa que nunca foi.
Vam ficando aos poucos pola casa. No fundo dos estantes, abaixo nos armários, testemunhas de cousas que ficárom já eternamente adiadas, mortas dalgum jeito, portadoras dumha tristura pequena que me dam quando as encontro de novo. Algumhas levam anos sem se abrir. A descompossiçom nom lhes alcança e fam-se assim testemunhas perennes da imperfecçom.
Afinal, nom tenhem mal nengum. O fodido som aquelas outras tumbas pequenas que devemos fazer em sabendo que nem hipótesses haverá de as abrir e olhar e tocar quando menos, essas cousas rotas que nos unem co nosso próprio passado.
Abraços aos afectados.
January 24, 2006
Aos 65 anos, logo de botar a vida detrás dum mostrador, entra no supermercado por vez primeira (pola minha culpa) e pergunta-lhe ao primeiro trabalhador que vê se tenhem salmom e onde está.
Conta-me a sua aventura quando chego a casa a fim de semana. “Olha tu, aos meus anos, esta semana fum a um supermercado por primeira vez na vida”. E explica-me o proceso, como para ver se fixo tudo bem ou se ainda lhe podo contar algum truco. “Saquei número, pedim, algo mais? nom, fum à caixa, paguei, marchei, tudo bem”.
Nessas voltas, sinto-me dessarmado ante essa sua certa indefensom ante parte do mundo mais cotiám. Precisamente toda essa parte que ela só olhava passar, até o de agora, por diante da porta da tenda.
January 23, 2006
Ela apanha umnha incrível afonia que fai que a su avoz soe no telefone exactamente igual que a de Epi.
Toma com humor a situaçom e di-me “Blas, acende a luz, nom podo durmir”. Ao começo ponho a voz de Blas para responder. Aos poucos, a conversa torna aos temas cotiáns, e começo a me sentir incómodo, volto à minha voz. E continuo sem me afazer. Prego-lhe finalmente que faga um esforço por mudar a voz, que nom, que nom me ajeito, que tenho a sensaçom de que falo cum Epi co que me deito de quando em vez e a minha mente acha o conceito contraditório de mais.
January 17, 2006
“Agora eu era o herói, e o meu cavalo só falava inglês…”
Caetano e Bethânia achegam-che à minha mente a cantar com esse passado com o que jogam os nenos e que já me há ficar vencelhado por sempre à tua memória, das vezes que me tes falado do tal tempo verbal que reservamos para a fantasia e que aginha esquecemos a golpe de anos e de realidades.
Nom é mau jogar ao jeito com você, nom gosta um de pensar que também há passar a hora desse tempo verbal.
January 16, 2006
Finalmente descobrim por quê lhe andava eu com temor à lua desta semana.
As salvas dérom perto. A tripulaçom ficou totalmente enchoupada, há algum dano leve, bem por cima da linha de flotaçom. Quiçais cumpram ajustes nos rumos vários.
Mas, afinal, seguimos a navegar, que é o que resulta, na verdade, preciso.
January 13, 2006
Umha vez digem-lhe a umha rapariga que a minha cançom favorita de La Fusa era Tarde em Itapuã.
Na seguinte vez que fum ve-la, ela colara na porta do seu quarto um cartaz no que repetia esse nome a cores. O feitiço funcionou e fiquei lá também colado (com olhar esquecido
no encontro de céu e mar). Foi bonito (embora enfermiço) mentres foi bonito. Logo acabei dedicando-lhe umha outra cançom. Mas tanto tem.
A questom é que para além dos dias aqueles, o conceito de Itapuã mantem-se autónomo coma um jeito de paradisso afastado, graças aos bons haveres do Vinícius e do Toquinho aos que sumei há pouco o certeiro retrato que daquel meu Itapuã interino lhe descobrim ao Caetano. (Itapuã/
tuas luas cheias, tuas casas feias).
É destino pendente. Essa praia onde chupar umha cachacita, sim, em shortes de banho. O lugar onde o Corto encontra um soldado do exército de Togo e onde fica a casa de Boca Dourada.
Ao tempo, é esta umha Trapobana que está aqui e acolá, ao tempo em Paraguay, em São Paulo, noRio Grande do Sul, em Bahía. Como nom pdoia ser doutro jeito, nom é sinjelo dar com o caminho.
Ainda o plano será ir de Itapuã em Itapuã, e ver de ir fazendo o caminho com o material dos dias.
January 11, 2006
Vém ainda o sabor do inverno no arrecendo das cousas que ardem de vagar (fogueiras ocultas de lenha de carvalho nas Hortas), nas maçás verdes que se comem com o nariz cheio, nesse jeito que apanha o céu de se pôr exactamente enriba das celhas e nom querer sair.
É como para ficar entre os muros dumha igreja abandonada e sem telhado, nas ruínas dum castelo, num peirao deserto, entre ferros oxidados.