Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá...
Álvaro Cunqueiro Si o vello Sinbad volvese ás illas

December 29, 2005

Batáns [Acotações] — São Tomé @ 12:51 pm

Desta volta, e há ser cousa tua o andar eu nestes sonhos, leio um livro de Lovecraft enquanto durmo. E, ainda mais, entro no relato e encontro a histórica de como os rapazes da aldeia faziam as rodas das carrilanas com as pedras gastas do batám. E lá, com nom sei quêm, encontramos nas ruínas dumha igreja o último destes batáns, umha construcçom imensa e revirada coma os desenhos do Da Vinci ou o teatros de monicreques do XVIII.
E lá o fam funcionar para nós, e eu olho-o com sensaçom de maravilha (poleias, rodas dentadas, cordas e maços a se mover), a maquinária imensa contra o antigo muro da igreja, o campanário no fundo, a luz única dum final de tarde de verao a marcar a cena na minha memória até o acordar.

December 28, 2005

Expressos à meia noite [Na ilha] — São Tomé @ 10:47 am

Há já uns meses em que se me vam repetendo os sonhos de comboios. Os destinos estám maiormente no eixo Corunha-Vigo (cenário maioritário das minhas experiências ferroviárias).
Durante a sesta de ontem, por exemplo, agardava num centro comercial da Corunha para apanhar o trem numha estaçom baixo a terra. Tenho ideia de ter botado noites numha estaçom a meio caminho entre Vila Garcia e Ponte Vedra. E acho que já voltei várias vezes a umhas mesmas instalações. Dumha volta lembro mesmo ter perdido o comboio para Londres.
De tanto sonhar com comboios, acho que mesmo lhes tenho colhido o horário. Á base de apanhar comboios errados, de ter que baixar noutro lugar e apanhar um de volta, de perdê-los no último momento por virem para umha plataforma diferente, vou-me ensarilhando nesse mundo de contrarrelójios e agardas.
Ainda bom que a freqüência é normalmente abonda e que, no caso de ter que botar horas em agarda, estas passam como em elipse. Por vezes, a jeito de video-jogo, acho que fago um reset entre perder um combóio e tentar apanhar o seguinte, repetendo a situaçom.
Penso que naquela mesma estaçom a meio caminho, já mesmo tenho chegado a conhecer o quiosqueiro.
O caso é que, evidentemente, isto tudo deve ter muito a E acho que já voltei várias vezes a umhas mesmas instalações. Dumha volta lembro mesmo ter perdido o comboio para Londres.
É claro que isto tudo deve ter muito a ver com as minhas qüestões laborais. E nom é tam terrível botar as noites em paragens de combóios, quando menos se estám no meio do campo. Mas nom era mau nalgum momento, apanhar definitivamente um destes combóios.

December 27, 2005

Direito aos horizontes [Acotações] — São Tomé @ 10:07 am

Ao final, na noite sonho um livro inexistente de Lupe Gómez. Lá fala dumha estranha raça de capitães, com dous últimos representantes, que fórom destinados a mandar senlhos faros em Compostela e em Roma, cidades que perderam já o direito aos horizontes (ergo ao mar).
No almorço descubro que é no influxo do aquecimento que Cléo e mais Titi desabrocham no meio do inverno. E, decato-me, pode-se pensar que vivem enganadas
mas, afinal, certas
som as flores.

December 26, 2005

Voltas [Na ilha] — São Tomé @ 1:40 pm

Este ano as festas suponhem umha quantidade de retornos nunca vistos. Às já agardadas O’Connell e Bloomfield, suma-se-lhes por surpresa o Mansamino, dá sinais a Heidi, agardo saber algo do David Motxo e, é claro, de Consuelo, os meus dous encontros anuais de BCN, agora mesmo cá. De jeito extraordinário imos ter de visita a Julianne e mais a André, que já iam sendo anos, e um par de irmaos que aparecem de socato e de certo deixo fóra alguém que agora mesmo nom me vém à mente. E fai-se estranho e ao tempo bom, mas por quê nom se haviam repartir um bocado e termos assim os composteláns um maior reparto dessas ledízias, desses repassos de vida, desses forçados tempos de ócio comum? Bem vindos todos, imos ser umha bora grea.
E idas por voltas, noutra jeira hei ser eu o que volte a algures por estas datas.

Oranda [Trapobanas] — São Tomé @ 11:24 am

Coma outras Trapobanas que encontro de quando em quando, tem Oranda um lindo nome e a brétema precisa para se incluir na categoria.
“Em Oranda estivérom um anaco sentados num banco, nom longe da igreja, silandeiros e a olhar o mar aos seus pés”. E logo sempre quigérom voltar.
O caso e que a Oranca, como a todas as Trapobanas, um lugar ao que é complexo o retorno, ao que sempre lhe podemos olhar às luzes mais que é bem difícil atingir na navigaçom.
Reencontrei-na o outro dia mentres agardava polo médico. Reconheci-na aginha.
Fica ai, nalgures por Crimeia. Fago o esluído propósito de a visitar um dia. Para ver se tem igreja, ou névoa, ou luzes, ou mesmo dona algumha com canzinho a olhar o mar.

December 22, 2005

Lis [Na ilha] — São Tomé @ 9:49 am

E nem sempre acontece (e mesmo entom é bom o te ver)
-No meu coraçao da mata gritou Pelé Pelé-
mas em ocassões, nom sei se sabes,
outorgas-me uns agarimos que nom som deste mundo
(com certeça já te após umha outra dimensom)
e demoro entom em apanhar o comboio, em ir embora de volta
e fico logo de ti como lavado e confesso
cheio de certezas inestáveis, que nunca frágeis.
-O certo é ser gente linda e cantar, cantar, cantar-
(Fala tupi, fala iorubá).

December 21, 2005

Pernas novas [Na ilha, Acotações] — São Tomé @ 11:33 am

O frio fai-me correr polo parque de noite, fazendo caminhos que há anos eram diários
e é baixo essa luz de farolas que me decato de que tenho pernas novas ou que foi meu corpo que mudou
e forço mais velocidade primeiro e mais depois e piso com força sem que me doam os pes e sem suar e acelero ainda no esvarar no tobogám sonoro de a summer wasting
e já nom vai frio e dá tudo (a cançom, o frio, o inverno, o regato, o facto de fazer mais umha vez este caminho pequeno, onde tenho bicado, fumado em companhia, chorado, brigado e retornado umha e outra vez) para pensar em muitas cousas e sará essa a razom pola que acelero de novo, atravessando o tempo.

December 20, 2005

Cousas pequenas tuas [Acotações] — São Tomé @ 10:10 am

É a manda de cadelos de globos que campa polo meu salom, as flores incháveis, as espadas brandas.
O percorrer casas baleiras, o pisar entulho, entrar nas covas, olhar o céus de formigom de fábricas silandeiras botar a tarde a olhar os céus perdidos nalgum ponto entre Compostela e o mar.
É a capacidade de se ilusionar a fazer caminhos e aldeias, o jeito em que gostas de que che agasalhe um ovo, a paixom com a que te entregas aos jogos da carne ou como valoras os arrecendos que ficam na cama e os abraços de dormir.
Som enfim, umha série pequena de cousas pequenas as que me deixas e das que gosto.
Sem grandes temas, sem debates sisudos, que já há um mundo completo disponível para essas questões, e abonda.

December 19, 2005

As horas de cafê [Na ilha] — São Tomé @ 6:04 pm

Escrever sobre a história da BD na Galiza é ter a sensaçom de repetir umha e outra vez um mesmo clichê.
Um grupo de rapazes que roldam os vinte anos unem-se cheios de ilusom para editar um fanzine.
Rim, escolhem as histórias, buscam publicidade, dam o melhor de sim nas histórias que vam dar à foto copiadora (há casos de imprensa, é certo).
Imagino-os com facilidade a todos eles, com as caixas de material recém saído, cópias e cópias ainda quentes, com o orgulho do trabalho feito e o acrescendo de tinta e tóner que é, no entanto equivalente ao do pam morno.
E depois ir livraria a livraria, convencer os amigos e familiares para que comprem, falar com o amigo jornalista para conseguir umha mínima resenha no jornal. E recortar e conservar coma um tesouro o artigo aquel. E acarinhar novos projectos. Certames, exposições, álbuns, algum dia viver do conto este.

Logo dum tempo mais ou menos longo (os teimudos de Frente Comixario ainda botárom uns anos), a gente medra, ou cansa-se ou bota moça ou lança-se a outros projectos bem mais grandes e complexos ou tudo ao tempo. E a cousa esmorece.
Ao tempo, um grupo de leitores ainda mais novos que os anteriores lem os fanzines destes fulanos e dim: “Vaia merda! Nós podemos fazé-lo muito melhor!!” E continuam o ciclo.
Quiçais agora estejam a mudar um bocado as cousas, mas tanto tem. O caso é que nom podo evitar vê-los e comprendê-los (embora nunca participara eu num fanzine desses), mentres escrevo das contínuas tentativas. E olho ao tempo também como alguns de entre todos eles continuárom mais ou menos no seu.
Desenhadores, activistas, debuxantes, escritores, professores.

E, é quiçais por umha banda de querer render umha homenagem às horas e horas de cafetaria, à ilussom imensa ai impressa. E é quiçais por albiscar dalgum jeito um bocado de futuro. Que escrevo e olho e danço neste campo, confiando como todos eles, que desta volta sim é a definitiva e que esta iniciativa sim vai revolucioná-lo tudo.
(E mentres, boto as minhas horas de café, já mais gastas, as minhas juntanças, o meu esforço, as minhas ilussões, também num certo rendido homenagem, também convencido daquel jeito, de que o estamos a fazer melhor).

December 16, 2005

Inglaterra por canles [Na ilha, Acotações] — São Tomé @ 11:36 am

Sonho dumha viagem por Inglaterra, um lugar sempre anuviado, umha fabulossa rede de canles, os preços elevados por toda a parte e o dinheiro que sempre acaba antes do que um contava (e isto, é claro está tirado da via real), o idioma difícil de digerir.
Cola-se no meio umha barca coma um aviom. Umha persecuçom nas canles, coma nos pantanos da Florida, um temoeiro coma o condutor dumha diligência, e tudo arredor do rio as árvores nas que botei sonhos de pequeno. Umha viagem a Bonn através dos rios.
E resulta o contorno tudo bem familiar, quiças porque antes de fechar os olhos, a ler um conto, pensei nas Highlands coma num lugar que vem podia ser agradável para umha vida discreta.

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