October 27, 2005
Prender solidamente nuvens na ponta dos rizomas
espir os pés no ar e tomar a chuva sem filtro de solo.
Tirar os nutrintes que tingem o céu, jantar de saraiva.
Nom faz mal de quando em quando dar a volta
e exibir de jeito impúdico as raízes
que sempre aproveitam estes intres inversos
para se olhar, apertar, reogranizar, dançar, e medrar vizossas
também nalgumha nova dessorde
que nos há fazer companha.
October 26, 2005

Começo a manhá a procurar no mapa a origem do brote de pessimismo que bateu em mim à noite. Encontro lá o mesmo vento do Sul que me malumorou a passada semana, a barrer um bocado o país.
Nom sei se será. Mas ontem à noite encontrei-me na cama a ver nidiamente soluções para a vida, calmo e dessafectado, era sinjelo ponher tudo na orde, botar-se a andar, arrumar os instantes, valorar luzidamente vantagens e problemas.
A dar as voltas que me separavam aos poucos do mundo, ficou-me ainda humanidade abonda para me assustar e me erguer a umha manhá para rachar com tanta temível coerência.
Apanhei entom o Bilal, saim do quarto e deixei-me tocar mais umha vez pola história da Jill Bioskop
que sempre me remexe as vísceras de jeito limpo e fondo coma se me furasse coma a antena do Script-walker.

Em apenas vinte páginas (a morte de John, o hotel Victoria, o Támesis cor-de-sangue, as espectaculares incoerências do Londres aquel) fiquei calmo, um bocado triste e de novo cheio de humanas contradicções e de pequenas dores. Pronto para o sono, lubricado e ionizado de jeito negativo, pronto para que alguém me figesse o favor e me desse para sonhar arredor dos poemas de amor do Dario Xohán Cabana.
Afinal há sempre alguém a quem lhe pedirmos, coma o Nikopol,
“Nom me apagues, Jill. Nom me apagues”.
October 21, 2005
A gana básica e de deixar-se ir, e apanhar do andel o livro de versos, subir a música, amolecer no sono que reclama o seu quinhom, dançar na casa nalgum velho som, sentir-me à voz ao cantar calmo de canções que criáram aranheiras, olhar a chuva, mastigar umha maçá, reler velhas cartas, ver-se um bocado desde esse chao que nom afunde, ordená-lo quase tudo e encontrar as cousas pequenas que se agocham entre o lixo, gostar da gente de novo arredor da cerveja, agasalhar umha flor ou umha boa palavra, contar com alguém e apousentar em fim ao jeito das folhas que começam a manifestar o Grande Outono nos passeios da Alameda, e a ver se a chuva nos lava desse nom sei quê.
October 19, 2005

Ergo cheio de sono e começa o dia cumha série de desastres pequenos que me fam pensar em voltar para a cama. Dou voltas polo corredor para colher a garrafa de leite, o pam, as botas, o bolso, a maçá para o meio da manhá, coma se estivesse perdido na própria casa. Nom encontro a roupa, enredam-se-me os pés, quando dou baixado à rua tenho que subir para colher o gardachuvas, e ao baixar de novo apaga-se a luz e quase caio, e subo de novo até o interruptor. Depois ainda nom prende o computador, acumula-se o choio e continuo a ter um grande sono.
Quase esqueço, numha destas qualquer, que os indícios sinalam hoje coma um desses memoráveis dias que se acabam por amanhar.
October 18, 2005
Mudárom as garrafas de La Trappe, há já uns anos. Eu gardava duas das velhas, baleiras, que alguém me agasalhou um dia. Ainda que bem podia esquezé-las, ao igual que o seu lixado origem, o tempo que botárom comigo conseguiu limpá-las de tudo mal. A de cerveja preta ficou cuberta de cera de cores (vermelha escura, um bocado de amarelo pálido). A outra sostem-me os livros agarrando ademais umha rosa seca que chega também dos mesmos velhos tempos.
Ontem à noite demorei-me a colar a preta, que rompera em quatro anacos. Apliquei-me em calma, sem sentimento, sem decatar-me de por quê o fazia. Simplesmente gosto da garrafa, e olha como fica limpa e fica comigo.
Hoje tenho os dedos ainda lixados de cola, é esse tudo o mal.
October 17, 2005
Olha lá que nestes dias escuito à Bethânia e mais ao Caetano a lhe cantar a cançom homónima. E nom podo nom lembrar nessa letra e mais na voz crebada da cantante à Margarida a beber whisky com guaraná, umha outra dama da bossa que bem sei, vinda também dum outro tempo e dessoutro mundo de filmes a branco e preto, de festas cheias de música e de arte, de glamour e dum savoir faire que hoje fai-se pouco comum e que marca estas donas com o seu invenítável encanto, cheio também de saudade.
(Maria Bethânia
Tu sentes saudades de tudo bem sei
Porém, também sinto
Saudade do beijo que nunca te dei)
October 6, 2005
No final do dia visito-lhe por fim a casa à Rebe.
Encontro um espaço aberto e livre, cumha grande terraça-telhado de gatos.
A fiestra que dá à rua e quase tam de joguete que dam ganas de se ponher a cantar serenatas embaixo e tentar agatunhar pola parede para entrar por ela fazer as vissitas.
Quando volto à casa, saio à fiestra do salom, saudamo-nos e damo-nos as boas noites a berrar dumha banda a outra da rúa, que adquire também deste jeito mais umha certa condiçom de fogar.
October 5, 2005

Até hoje mesmo nom era para mim mais do que essa postal que estava colada na parede ao carom do armário. Eu mesmo ficara estranhado polo jeito em como me chegara aos olhos. Fora lá no quiosque a carom da estaçom de combóios de Bonn. Sei que merquei três postais em tons terra, umha para mim e mais duas para as amigas. Pensei que nom era o tipo de imagem postmoderna do que habitualmente gosto para ponher na casa, mas gostava e deixei-me ir pensando que vem podia ser umha ampliaçom das minhas preferências estéticas. E lá foi.
Hoje fico com a referência do autor e umha curiosa história da obra. E nom deixo de gostar, lá continuam esses dous a dançar na praia no meu salom, enquanto quiçais, maiordomo e doncela vivem desde os estremos a sua própria e distante história de amor.
October 4, 2005
Leio, logo de muito, muito tempo, um bocado de Neruda, quase ao acaso, em voz alta.
Esquecera quase o tacto de pelouros que colhe a língua a recitar poesia (eram esses outros tempos).
Encontro ai a minha velha dualidade de sentimentos cara a Inglaterra, lembro de O’Connell, aceito que, efectivamente,
nom podemos contrariar o outono
ou luitar contra a primavera
e penso que gostava também de lhe dizer à dona que nom tema por mim
que eu também
saberei acarinhar as novas flores
porque ela me ensinou a tenrura
e que há cousas polas que nom lhe deixo nunca de estar agradescido.