Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá...
Álvaro Cunqueiro Si o vello Sinbad volvese ás illas

September 26, 2005

Treze planetas [Na ilha] — São Tomé @ 11:37 am

Conjunçom astral estranha. Deixou-me tocado a lua,
a ti também e é entom complexo o proceso
de voltar as cousas à órbita.
E é entom que tenho que remexer muito nas cinzas das velhas canções para lhes encontrar ainda calor
e ainda assim lhe engado a minha voz crebada às vossas companheiros,
que nom deixa de aquecer estarmos tudos na comunhom da mesa
e aquece ainda mais a comunhom de carne em que nos encontramos e sabemos.

Entre as questões problemáticas estám
o silêncio, o futuro imediato, a perda e a despedida, o remexer no mato a buscar umhas chaves, as obrigas sociais, as obrigas laborais, a necessidade de o fazer tudo a correr, um bocado de debilidade que arrinca desde o estómago, a ressaca imensa que deixa o tabaco, un museu fechado, umha falta de agasalhos, as generalizadas baixas pressões em que todos nos movemos (a meio inflar) nos últimos tempos -fica entom o nosso caminhar perdido, Bibenduns faltos de ar.f

Mas nom é cousa de parar as canções.

September 21, 2005

Caminhar sozinha [Crónica da reforma] — São Tomé @ 9:54 am

Aos poucos, como era de prever, a mai vai-se desembaraçando dos fios que a atavam à sua rota e aos seus costumes. Agarrada ainda à casa e aos seus labores coma base de operações, vai medrando a área de domínio.
“Tenho gana de caminhar soa, sem ninguém, que nom me contem nada, caminhar para adiante e via, já escuitei gente abondo”.
E nom lhe falta razom. Ainda virám depois os outros passatempos para além dos passeios, e voltarám os livros e iram-se instalando as rotinas de ócio.
Polo de agora, gosto de pensá-la a caminhar com fúria entre os pradairos e o rio, a minha mesma velha rota.
Ainda é maravilha o tempo livre para ela, como nom.

September 20, 2005

O amarre (obrigado) [Na ilha] — São Tomé @ 9:11 am

Amarro-me nestes dias, em que me senta bem a soidade e, como conta Velaqui, gosto de organizar couas pequenas (e mais que arranjaria), a este agasalho(DVD).
Outorgou-me Nadador a graça da B.S.O. deste fim de verao.
Desbroço a modo a selva sonora, repito um par de discos para lhes saber bem o sabor. Escuito esse agasalho anexo que foi o último de Calcanhotto. Aqui também, modero o apetite para nom ficar enchido, embora o frio e o vento e a terra que tira este à cara dam boa gana de se encher e ficar deitado a escuitar e digerir.

Encontros [Acotações] — São Tomé @ 9:01 am

E vejo já as primeiras mandas de folhas que se apressam a cruzar o largo a toda a velocidade em manifestaçom leve
os estorninhos a se instalar na Berenguela
encontro um carreiro cheio de maçás caidas a arrecender na sombra
enquando a inclinaçom do sol nesa mesma tarde e o vento que brua
afastam as últimas nuvens de verao
e ponhem no céu aqueloutras
que nos chamam aos bares e à roupa de abrigo
e no meio (luas fora) aperto-te.

September 16, 2005

Cruzamentos [Na ilha] — São Tomé @ 9:36 am

Ok, tou cruzado. A habitual combinaçom de sono de mais, discussões, algumha óstia bem dada no ánimo, muitro trabalho, problemas tecnológicos e a acumulaçom de encontros, recados e obrigas sociais deixam-me aqueloutrado estes dias.
Decato-me de como os factores som os mesmos. De como tendem a se reproduzir e a coincidir com a lua. De como é nesta altura do ano quando encontro de novo a Luzia repetidamente pola rua.
Canda a todas estas cousas, e a refrendar a sensaçom de que se acumula tudo, chegam as minhas maos por diferentes caminhos, às vezes bem intrincados (um livro que me enviaram por correio passou dez dias na mao dum vizinho que nom conhecia e que conseguiu entregar-mo através das raparigas do andar de abaixo), umh acheia de cousas que chamam a atençom. Livros, e livros revistas, BDs e BDs.
Chamadas imprevistas, necessidade de desbotar algumhas citas, a mestura enfim da lua nesta quinta estaçom

September 9, 2005

Os primeiros dias [Crónica da reforma] — São Tomé @ 1:17 pm

Acaba a minha mai de se reformar . A história e longa e dá para muitos contos.
Para começar, ainda estou a assimilar aos poucos (e acho que nom me deixo) o conceito de ver fechada a tenda cos andeis baleiros. Encontrar os meus pais a se erguer mais tarde do que eu num dia da semana.

Polo momento vam poucos dias. Ela continua a fazer a mesma rota, da casa à tenda, da tenda à casa, com a excussa de ir lá umhas horas com Hermínia, ver a vizinhas, cobrar algumha conta, liquidar algumha cousa. Semelha no entanto que estivesse ainda a se afazer a ver as ruas ao tempo que percorre o invisível rail que guiou a sua vida nos últimos corenta anos.
Dá ainda a impresom de estar a se espreguizar dalgum jeito. Abrir as às. Olhar arredor, um bocado de medo por esse mundo que até o momento só chegava, dia a dia, através do balcom-frigorífico.
Suponho que a sensaçom é, amplificada, a mesma dum oficinista qualquer nas estraordinárias ocassões nas que se enfronta à manhá da cidade (o mundo da outra banda da fiestra). Pero desta vez, é para sempre.

Fico à espreita das suas mudanças, de como irám medrando os caminhos, de como tirará de enriba o po
e em que jeito vou olhar os ocos que ficam na paisagem da infáncia ainda preservada.

September 5, 2005

Sigamos juntos [Na ilha] — São Tomé @ 1:04 pm

Imos alô meu bem, que estamos em intres de se apertar à luz, que nom nos faltem forças (que nom faltem), que virem bem os ventos que nós
imos alô,
que vem o outono e
arrea-lhe duro, linda, vira Noroeste, deixa o trebom passar,
e venha a lua e as marés
que che busco o jeito (a pousar a mao no teu cadril) e me encontras os passos que nom tenho certos
nem sei bem por onde, para quê nos imos enganar
mas imos,
que para quê separar-se
em puidendo ir contigo
e por quê nom?
(e sigamos juntos)

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