Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá...
Álvaro Cunqueiro Si o vello Sinbad volvese ás illas

August 31, 2005

Calor de fogar [Na ilha] — São Tomé @ 11:02 am

Será que efectivamente enfria o mundo aos poucos e converte-se a casa numha caste de refúgio. Nos últimos dias, para além da menina que fica polas manhás agochada entre as mantas, está a se me encher a casa de insectos de vários tipos numha abundáncia superior à de todo o verao.
Polo meio dos seus voos, aparições, choques e escapadas, nom deixamos de nos abraçar num anaco de paz, embora nom escapa a certeza do tempo a esvarar (e é sempre costa abaixo) nem a importáncia do outono que chega e se achega.
Cobra força dia a dia a luz da lámpada, o seu calor nestas noites que descem temperás.

August 26, 2005

A subir a maré [Na ilha] — São Tomé @ 9:47 am

A confirmar o caminho dum outonar indiscutível, encontro ontem o primeiro cirrus de estorninhos a fazer vos de prova. Som só um bocado e pousam num telhado deste o que olham os seus habituais aloxamentos nas palmeiras, sem se atrever ainda a ocupar o ninho. Surpreende-me encontrar de novo esses chios, o jeito de voar nervosso e acelerado, as formações aéreas. Semelha que andam ainda a comprovar se lhes deixárom as andorinhas campo livre ou se ainda ficam no ar os seus trilhos.
Mas aginha há chegar o exército enteiro, e num solpor veremos de novo os esquadrões a encher o céu, ruidosas escumas escuras das ondas do vento, sempre é cara ao inverno essa maré.

August 25, 2005

Quinta estaçom [Na ilha] — São Tomé @ 9:55 am

Como já ia supondo, logo de comprovar que as andorinhas abandonárom a cidade por algum lugar do Sul, confirmam-me ontem que estamos já na quinta estaçom chinesa, chamada Canícula na traduçom. Disque o elemento é terra, que o órgano é o estómago e que a sensaçom correspondente é a ansiedade e a preocupaçom. Olha lá que curiosso, quanto se me achegam os conceitos à realidade e como vai resultar que fum eu fruito dessa quinta estaçom por nascência e que é ao melhor por isso que me sinto tam a miudo um bocado por fóra das cousas, dos calendários em quatro tempos.

August 24, 2005

Os tempos [Na ilha] — São Tomé @ 11:54 am

Caminhámos, e nom é metáfora, por entre as pedras incríveis do Monte Sacro. Ali estava reunido um espaço de maravilha como o puidem ter sonhado muitas vezes. O briom no seu lugar exacto, as pedras em posses inpossíveis e os caminhos retortos arredor. Os carvalhos medravam no bom jeito, dispunham-se as sombras no plano ajeitado e abriam-se os ocos onde se tinham que abrir para chamar a curiossidade.
E sem embargo nom estava tam maravilhado como sei que me havia corresponder.
Decato-me entom de que fiquei nalguns aspecto com aquela mesma imagem de mim
com dez anos de menos.
E de que, como me lembras, ainda houvo vida polo meio.
E ainda bom.

August 17, 2005

Embalar o mundo [Na ilha] — São Tomé @ 12:23 pm

A lista de lugares é ampla, e volto canso (A Frouxeira, Vilar de Donas com Cunqueiro, Ribadeo, Foz, ruínas de fábricas, ruínas militares, Estaca de Bares, Viveiro, Cunqueiro, Sargadelos, Catedrais, Cunqueiro, beijos e jantares e beber de mais um bocado, céus amplos, luas vermelhas e volto canso).
Entom finalmente, enquanto tu falas ao fundo por telefone e fago umha parte da ceia, vem aos meus beiços a segunda estrofa e mentres ferve a auga, achego-me à fiestra onde o céu colhe o azul do tempo de agosto e canto-lhe à noite, canto-lhe ao mundo coma se fosse umha cançom de embalar para que continue a se portar bem, para que acougue e nos deixe viver e descansar novos intres coma estes.

Adeus, estrela brilante
Companheirinha da lua
Moitas caras tenho visto
Mas como a tua nengumha

Adeus lubeirinha triste
De espaldas te vou mirando
Nom sei que me queda dentro
Que me despido chorando

(nano nonai nonai nonai no naino
nano nonai nonai nonai ni nai no…)

(Afinal lembro também quê especialmente ajeitado é o título para a época. Achega-te a mim, Maruxa. Faga favor.)

August 12, 2005

Dia de silêncios [Na ilha] — São Tomé @ 9:41 am

Nom gardas as palavras.
No entanto
sem te decatares
fas é
ceivar o silêncio.

Nom fas ideia como som os ecos dessa falha.
Quanto tenho o interior mal amoblado,
vai-me o teu silêncio
de parede a parede.

Eu arrumo as mesas,
acumulo os almadroques,
soam as alarmas -a responder o barulho silandeiro-
de todas as outras fendas.
Rengem as portas e os ossos
e eu movo camas
ponho parches
coma se nom soubesse ainda
que es ti que calas
e pensasse acasso
que é em verdade tudo o resto.

Fico afinal
eu também calado
a anhorar vozes
sem me laiar
que nom é jeito
nem o momento.

August 9, 2005

Um reino onda o mar [Na ilha] — São Tomé @ 10:35 am

Lembra-me Mss. Bloomfield (cujo reino nom é deste mundo) a frase “a kingdom by the sea” e volta-me à cabeça o poema de Poe, que eu conhecim originalmente através do senhor Auserom e a muita honra.

It was many and many a year ago,
In a kingdom by the sea,
That a maiden there lived whom you may know
By the name of ANNABEL LEE;
And this maiden she lived with no other thought
Than to love and be loved by me.

Linda história. Embora em ocassões fiquemos em beiras diferentes do mar, em reinos distintos.

August 4, 2005

Buscas [Na ilha] — São Tomé @ 10:43 am

Nom dou assentado. O verao é ainda um tempo inestável. Busco um aquel de firmeça no bater do sol contra a pedra nos recantos da cidade. É assim que fico em silêncio nas terraças e olho polo miudo as paisagens urbanas. Fago por encontrar também o ritmo desta estaçom a olhar os ventos a abanar a paisagem da horta e ao limpar por fim bocados da casa com calma e em ficar sentado sozinho e calado e revissar velhos livros.
Ainda nom o tenho. Ainda me parece um começo de outono no que nom se estabelece nada, onde falta gente e nom se iniciou o tendido de cabos sociais que, à base de citas, de encontros, de novos conhecimentos, nos ham marcar no longo inverno.
Polo momento ficam as andorinhas, e parecem-me já fora de tempo, nestes já prévios momentos de setembro.

August 2, 2005

A chegada do tempo [Na ilha] — São Tomé @ 12:22 pm

Para além de por riba de todas as outras cousas deste mês (viagens e vissitas, encontros e distáncias, concertos e descansos) nasceu já Berta. Por suposto, é pequena e tem que vir o Tino a me explicar, traço por traço, como é que saiu igualzinha à mai.
Finalmente, com a notícia, define-se em mim a sensaçom que acompanha a acontecimento. Tino e Bibi achegárom, com Berta, o elemento futuro às nossas vidas.
Agora já vivemos da outra banda da página, passou o tempo em que eramos o último elo, a mocidade. Agora antolha-se a vida umha folha em branco na que nos havemos fazer maiores vendo crescer a menina.
E bem sei que nom é certo. Como já lhes digem a eles, ham vir ainda sacudidas que nos fagam voltar atrás e sentir-nos novos again, há haver festas e responsabilidades que nos fagam mais fondos os anos.
Haverá festas e já nom serám doutros os meninos a jogar arredor. E haverá ainda também celebrações inconscientes em que há ser ainda possível a ilusom estúpida de espertar com alguém estranho ao carom.
De volta na casa (férias fóra) fago por assentar numha vida ainda em especial tránsito e indefiniçom por uns meses, penso em ti de quando em quando, oscilo com as horas do dia, fago pola calma com a que se supom deve viver um homem já maior, já de novo tio, já com a história no envês da folha.

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