Tenho ainda vagar para encontrar alguns breves anacos desse céu que me define o verao. Um bocado desde a Ribeira, a beber a caneca com o Sérgio. Um anaco desde um desses combóios nos que me estou a instalar ultimamente. Ainda mais um deitado na erva.
Velai anda o verao nas nuvens a se desfacer já nos dias.
Encontro ainda também verao no teu abraço, nos jogos canda as ondas, no sol breve que me acarinha.
E ainda nom é abondo, bem sei que hei querer
encontrar o verao dos teus cabelos, da tua saia longa, das àrbores no vento do tempo nas terraças
e ainda nom há abondar
que nom me canso.
July 26, 2005
Anacos de verao
July 12, 2005
Bola de cristal
A nota da base é o te ver (às vezes sem que me vejas) pequena e parada, a ler com dificuldade umha revista.
Sobre esse tom vai-se construindo a melodia. Existem vários temas básicos. Às vezes es também ti a caminhar com esforço, apoiada em dous bastões já, ou a agarrar com força a tijola ou a remexer na roupa lavada ou deitada a dizer que é na cama que estás bem. E toca-me dentro. E fago por ressistir.
Sobre esses pequenos temas (tam insistentes que já tenho as suas formas gastas impresas em lugares concretos da alma, para que nom fagam ferida) é que se verten as notas concretas, as variações quando por exemplo me contas que há tempo nom ves a carniceira e digo-che que eu, é claro, tampouco, nom a vejo desde que me levavas contigo à praça há como para vinte anos e dis-me, cum aquel de cumplicidade que a carniceira era republicana “até a médula”, que lhe matáram ao pai que andara fugido e que ela lhe levava comida e logo, como se fosse o pior da vida, que o seu irmao tinha um filho que “nom era normal”. E logo ainda me contas e me obrigas a te ver coma umha mulher nova e emprendedora cassada cum homem sem iniciativa, e fas-me que che pense a andar de férias (maçás na Estrada, chouriços em Soutelo, queixos em Santiago) e pensar, sem que mo digas, a quê andarias tu também por ai com esse sangue forte que che caeu em graça.
E ainda me contas outras cousas, e de fondo, acompanhando as palavras, dando-lhe o cor à sinfonia, podo olhar a praçer e sem excussa, polo miudo na casa de enfronte as mesmas fiestras que olhava a praçer e sem excussa quando neno iluminadas ainda polo mesmo sol e me surpreender enquanto che escuito porque ressitem as contras e os marcos das fiestras e mesmo a oxidada placa da “Uniom e o Fénix” que já daquela era ilegível e os barrotes da janela de abaixo e há um homem a lhe tirar umha foto à porta ainda verde e atira-lhe meu, atira-lhe e imortaliza-a, que ainda que eu já a leve tam gravada dentro, nom é abondo, que também está a porta e estou eu sempre à beira da morte e do esquecimento
e de toques ambientais finais vai o mesmo calor e os mesmos arrecendos daquela tarde de olhar o ceu deitado de revés na cama
e entom é tudo já quase de mais e só é a práctica a responsabilidade o nom te assustar que me retenhem para nom deitar a chorar diante tua ante o imenso e terrível da beleça do momento e esse retorno dos meus olhos de neno com as consciência imensa que nom fago mais do que apagar desde aquela
de que ti nom serás de novo como entom, nem eu mesmo nem a minha mai e que tampouco este intre será de novo
volta essa dor à superfície com estas músicas, e ainda a minha mai me ensina um quadro no que se che vê bem mais nova e já é claro que tudo confabula para me venzer e fazer certo esse medo terrível de cada vez que venho
o medo aque rache a consistência da realidade presente, que se veja desbordado o mundo que percebo pola história que contem e que pressiona sem pausa em cada detalhe e momento para o rachar
e que se faga pedaços dum jeito fermosso e temível cortando-me as veias ou o aço ou a razom esse estralar de bola de cristal com neve dentro.
July 2, 2005
A cidade baleira
Continua esta cidade a ser ruas baleiras, passeios sozinhos baixo o sol do verao. Continuam a ser velhas sensações e velhas luzes, e encontrar-se com o verao inexorável no arrecendo da casa de banho depois da ducha, na ligeireza com que porto a humidade polo corredor.
Estám cás as tristuras e os medos que mais me paralisam. Aqueles temores fundos que marcam a vida e que ainda nom conheces bem. Espaços já para sempre perdidos, e caminho nessas ruas, enfronto os medos que só cá podo enfrontar, fico calado
e aferro-me ao caminhar com sandálias, à bris que baixa polas costas abaixo em sombra, á humidade que deixa a ducha, a este tempo calmo e enfermo, ainda nom abafante que se deixa ir na corrente do rio
de vagar.

