June 29, 2005
Cais
[Na ilha] — São Tomé @ 1:18 pm

Vou dizer que por vezes o sem-sentido venze-me e fai-se grande de mais a estupidez que há que aturar e o jeito em que o questionam a um traslada-se a vários ámbitos
e entom chega-se até esse ponto idiota no que se sinte que, de tam baixo, só se pode olhar para acima
e olha lá que desta volta vejo-che lá grande entre as ondas do trebom
e sinto que me salvas um bocado
num certo cais de sentido.
(E num cais que era só cais
somente mar ao rredor
somente mar ao rredor)
June 28, 2005
Ar
[Na ilha] — São Tomé @ 8:51 am
Tampouco vou dizer que tenha quilos de esperança, mas quando menos, nom tedes a impresom de que se respira um bocadinho melhor?
Com que larguem ENCE, vaiam parando os encoros e arranjem um par de aberrações mais, já me dou cum penedo nos cairos 
Em fim: FESTA!!!
June 23, 2005
Reflexiono (non me queda outra) sobre por quê levo tam mal os silêncios telefónicos.
Nom falo de nom chamar, senom desses momentos em que o interlocutor cala e toda a comunicaçom fica reduzida ao ruído de fundo, os sons afastados doutras comunicações que se cruzam, a respiraçom no micro. E da outra banda da linha há umha pessoa da que, transitoriamente, nom se sabe rem.
Será pola minha malformaçom que nom podo evitar pensar em quê jeito nos condiciona desta volta o meio. Um silêncio tendo diante a pessoa é tolerável, plausível, matizável mediante a gestualidade, a aperta, o agarimo ou o olhar.
No telefone, o silêncio equivale a umha caste de morte. Só o concibimos coma expresom de catástrofe máxima ou dumha ruptura na comunicaçom. O telefone está feito para falar, nom para calar, o tempo no telefone custa, é um aparelho alheio a nós co que devemos minimizar contacto (só tenho que ver o jeito em que o colhe a minha avoa), aceitamos o seu milagre pero só se pode empregar para falar, e ainda em comunicações curtas… Acumulo os preconceitos que acumulamos sobre o processo de comunicaçom telefónica.
De qualquer jeito nom encontro umha justificaçom racional à minha dificuldade para aturar esse silêncio electrônico.
June 22, 2005
Figem por nom o crer antes e tampouco crim domingo. Nom celebrei. Nom crim na possibilidade de o PP ficar a um da maioria.
Desde aquela, reconheço sem embargo que me venhem dando pequenos golpes de certeça buscando-me a credulidade. Primeiro foi a ideia de que, efectivamente, iam fazer falhar muitos votos para o conseguir. Mas bom, é sabido que tenhem de onde os tirar.
Depois a consciência de que é difícil que superem o resultado das anteriores eleições, nom tendo Madrid da sua banda. Mas bom, seguimos sem nos fiar.
Logo chegárom os primeiros testemunhos da precipitada retirada de Sam Caetano e a destruçom de provas.
Ainda depois a possibilidade de perderem mais um por Ourense.
Novos testemunhos de que estám a recolher tudo e que tentam deixar-lhes comprometido ao máximo o orçamento para os vindeiros anos…
Nom duvido que ham atacar duramente, que tentarám voltar antes de fim da legislatura, que ham ter cartas gardadas, que virá um governo de coaliçom que há dar para muito nos rir e muito chorar… Mas começo a ir albiscando, aos poucos, a possibilidade de que amanheça… A ver se nom ma fodem.
Respirade fondo, calmita para todos. Nom fará falha que diga que som estes dias de encontros casuais pola rua, de que marche o serám de caneca em caneca e que se faga tarde de mais e que o sono aperte. Também tempo de equívocos, falta água para lubricar os contactos.
Juntai elementos. Se era pouco o solstício, temos de agasalho umha lua gigante esta mesma noite…
Eu polo momento estou esgotado e com gosto travaria-lhe aos de sempre…
June 21, 2005
E do mesmo jeito em que a distáncia serve para plantar sementes (que deam em àrvores)
o ver-te aos anacos tem também de bom
que vém de cada vez a ledízia do encontro
e traslada-se entom o ritmo quebrado
às cadeiras
e aos beijos.
June 20, 2005
Conta-me Caladinha que umha vez, sendo nenas, ela e mais Arroás vírom umha aranha extranaturalmente enorme, umha auténtica tarántula enriba dumha porta.Fitárom-se surprendidas e no lapso mínimo de olhar de novo o animal comprovárom que dessaparecera sem deixar pegada. Só a confirmaçom mútua de te-la visto lhes impediu classificar a experiência coma umha visom.
Lembrei entom pequena história que, no meio das seiscentas páginas autobiográficas de Blankets, Craig Thompson dedica a umha experiência semelhante. Di o Tbompson que umha vez, sendo novos, el e mais o seu irmao descobreram umha cova onde antes nom a havia. Que se metérom dentro dela e jogarom toda a tarde. Ao dia seguinte voltárom e encontrárom que o oco diminuira de tamanho e que só podiam entrar agochados. Um dia depois ficava um buraco no chao. E finalmente dessapareceu. Anos depois, de novo a lembrança compartida era a única prova de veracidade dum feito ao que nom lhe encontravam explicaçom.
Lembrei entom algumha outra história. Gaiman a contar como no começo da sua puberdade umha bola de luz foi medrando desde o céu até iluminar a noite toda no lugar no que el estava. Por exemplo.
Pola minha banda, só umha semelhante me acodeu, e xuraria nom foi sonho (como aquel que durante anos me acompanhou, convencido de que era lembrança, no que umha águia vinha cara a mim desde a árvore imensa de diante da casa).
Era eu também mais novo e decidim investigar o oco polo que desembocavam os sumidoiros da chuva do pazo fronte ao que joguei todos aqueles anos. Cabia-me justo o braço, e deitado no chao, sem me preocupar por xiringas nem ratos nem quaisquer outro perigo, estirei-me todo o que puidem e encontrei lá no fundo, no límite do braço, primeiro um e logo outro tijolo branco e maciço, possivelmente de mármore, perfeitamente cortados e conformados.
Tivem-nos nas maos um anaco, perguntei-me que seriam, gostei deles e entom, sem saber bem o quê fazer, voltei deixá-los no seu lugar, conhecedor agora dum segredo que ficava por baixo do chao no que jogávamos todos os dias.
Quando anos depois mudárom o firme da praça, levantárom o passeio aquel tudo que ia por cima daquel buraco. Acheguei-me a ver se os obreiros deixáram aqueles meus blocos e, embora puidem ver a canle pola que metera o braço no medio do entulho do passeio, nom havia pegada dos mesmos.
E fiquei entom com a incerteça do caso.
E pergunto-me se nom teremos tudos momentos de difícil realidade incrustados na infáncia, espaços nos que só umha olhada comum ou apenas o próprio convencimento nos dim que foi. Lugares que ficam soterrados na memória dos dias comuns, afastados destes tempos nos que nos pessa mais o mundo…
E ainda assim, aferro-me à ideia da primavera, sempre, inexorável.
(…Hay gente que cree en un cambio,
que ha practivado el cambio,
que ha hecho triunfar el cambio,
que ha florecido el cambio…
Caramba!… La primavera es inoxerable!
Pablo Neruda. Los Comunistas)
June 17, 2005
Embora vaia encontrando polos recantos dos que tiro o po, (os livros abandonados, os papeis enrugados que ficárom ai meses) anacos de calma e de ledízia, continua a estar a vida composta basicamente por equívocos e perdas de paciência que aparecem unidos sem transiçom nenhuma.
E assim logo de dançar na cozinha, a pensar que já vinha a paz nalgumha das lufadas coas que o vento metia na casa sinais das hortas, venhem ai os teus silêncios e as complicações velhas que agora, é claro vem-se mais.
E logo algumha conversa e a paz no sono.
Mas fica um já condenado à alerta e ao medo a que fagam cunha os equívocos pequenos
que, chegados em mal tempo,
partem as pedras mais grandes da canteira.
(Cantemos o João Afonso, mentres):
Deixem-me sair qu’eu hei-de ir com o peito aberto
Deixem-me seguir uma rota no deserto
Estou no autocarro, chove na janela
estou desempregado e só penso nela
chega na paragem, vem gente a correr
o mundo não para, só para te ver
Chinelar na rua numa vida à toa
eu vou pró caniço , tu vais p’ra Lisboa
nos palmares de Anjuna, uma saia voa
olhos como os dela, só nas cores de Goa
O mundo olhei da janela
acordei cedo demais
na noite que segue o dia
amar nunca foi demais.
June 15, 2005
Um clássico dos meus mantras, para o cantar baixinho quando o mal é algumha cousa triste e calada que tem dentes de serra pequenos que se deixam sentir e sem embargo nom morre a esperança.
Ánimo, companheiros. Nom há ser o mesmo em estandomos uns e outros ai.
Now I’m stepping out this old brown shoe, baby, I’m in love with you.
I’m so glad you came here, it won’t be the same now, I’m telling you.