Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá...
Álvaro Cunqueiro Si o vello Sinbad volvese ás illas

April 29, 2005

Os trilhos do céu [Acotações] — São Tomé @ 10:40 am

Já estám cá de volta. Está a se encher o ar de frenéticos assubios e de pinchacarneiros aéreos. Voltárom as andorinhas. Semelha que andam a comprovar os trilhos do céu, vendo como estám os ares que ficaram abandonados no inverno da sua ausência, recuperando os espaços dos telhados que lhes ocuparam as pombas e os pardais.

Quiçais andem também a olhar como mudárom as nossas vidas terrestres e comecem por acaso o jogo esse de arranjar-nos, em aliança com a primavera, encontros casuais, malentendidos estúpidos, para nos fazer perguntar de novo o que nos quer a andorinha (se voaras mais ao perto).

A Terra nos pés [Da propriedade dos lugares] — São Tomé @ 10:20 am

Às vezes, quando caminho por determinados lugares desta cidade polos que nom passo muito, e a luz se pom no ángulo ajeitado (veja-se as farolas da Fonte de Santo António quando começa a noite e ainda passam os carros, ou por vezes um sol que fulmina Sam Lourenço), sinto coma se estivesse a caminhar por um meu próprio passado que pessa nos movimentos e fai a vida estranhamente mol. A sensaçom é que com cada passo levo debaixo dos pés um anaco de terra. Nom moi grosso, apenas umha lasca de briom ou de erva com algumhas folhas enriba, um recorte de chao (como aquel co que se cura o enganido) que me marca os movimentos e do que penso se, quiçais, nom sinalará também a escassa profundidade das raizes que ainda começam a medrar acô.
(Ao acabar de escrever, encontro a fotografia, exacta).

April 28, 2005

Para temperar [Mantras de teimosia] — São Tomé @ 9:09 am

Ainda a descobrim há bem pouco, mas está a fazer números esta curiosa cançom do Kiko Veneno para se fazer um mantra de teimosia.

y Ella vuelve pronto y sola
no sabe qué hacer sin él
él no sabe que hacer con el cuerpo…

Polo momento, levo-a na cabeça enquanto vejo mais umha vez como andam umhas distáncias que semelha há ainda que temperar um bocado.

hoy he visto en la playa
la espina de un pez rosado
y una cuerda rota
ay si tú pudieras ver sus hilos dorados

April 27, 2005

Um corno [Na ilha] — São Tomé @ 10:46 am

Às vezes penso que, de ter cartos, havia mercar um corno de narval. Como algumhas das outras cousas que me fascinam, este objecto vaga entre a lenda e a realidade. Desse jeito é que na minha vida tem estado presente maiormente através das páginas dos livros e que só umha vez cheguei a ver um real, nalgum velho museu de Ciências Naturais.

Nos meus antigos sonhos dumha casa cheia de cousas (coma o talher dum zapateiro, coma a Ilha Negra), o corno havia ficar apoiado na parede ou acima da chimené. E nos intres em que, coma nestes dias, a realidade se infiltrasse de volta reclamando maiores espaços da existência e um maior peso corporal, achegaria-me a el e agarraria-o coas maos, sentindo-me um bocado amarrado a umha lenda.
Já noutros tempos tinha na casa umha espada. E nas horas longas em que, sozinho, a melancolia da adolescência me colhia com força, colhia-a e olhava-a, coma se naquela folha barata de recordo de Burgos estivesse umha versom material dalguns meus anceios dum mundo mais sinjelo de compreender.
O corno do Narval, sempre na sombra do Unicórnio é assim também um nexo entre mundos, um jeito de ter na mao unha outra realidade na que nom se cansa um de querer crer e que tem um jeito de mais verao ou de luz.

Acomodaçom [Na ilha] — São Tomé @ 9:20 am

Remexo-me nos espaços desta Trapobana de novas cores. Nom se me ajeitam as letras. Dum jeito semelhante remexo-me nas horas, coma numha cama em insónia, fazendo por encontrar um acomodo que nom sei se será veramente possível entre as variadas questões que che suscita e me suscita a ausência mútua e as cousas que fago e as que ficam por fazer e deste jeito, (o kippel invade-me) os dias transcorrem entre a inquedança e a satisfacçom do mesmo jeito que passam entre a chuva, o sol e o frio (embate final dum inverno que nom nos quer deixá-lo esquecer). Anda o po ergueito arredor ainda, proceso de solidificaçom de nuvens. Precisarei dum anticiclom ou doutra modalidade de estabilidade atmosférica para me apoiar e ver mais claro. Mas é Sam Marcos tempos de trebões…

April 25, 2005

A Trapobana branca [Trapobanas] — São Tomé @ 12:31 pm

Por vezes, Trapobana ve-se desde o ar branca contra o Oceano. Semelha entom umha nuvem baixa que pousou na água, um contorno de ilha sem grossor nengum. As praias ficam daquela com a apariência e mesmo a textura do vapor da água e os seus habitantes voltamo-nos também etéreos e confusos, mesturados com o próprio contorno, um bocado como contava o Cunqueiro que acontece na Cotovias.
É este um jeito mais polo que somos e nom somos ao tempo (dialéctica mágica e cotiá), polo que hoje estamos cá e manhá e acolá, levados polos ventos que premem nas abas dos nossos montes imensos forjados entom de fume e inflamados no contacto.
Nestes dias, foi vista Trapobana algo ao Norte, polo Gran Sol, confundida nalgum claro dos que deixárom as nuvens.
Cum bocado mais de matéria e em volta, continuamos rota por latitudes mais habituais. Avante toda.

April 22, 2005

Saindo da néboa [Da propriedade dos lugares] — São Tomé @ 9:05 am

As paragens do metro por Baker Street som coma decorados de Bairro Séssamo. Tijolos pequenos e apretados, espazos onde se adivinha o peso do tempo nas capas de po que se acumulam polos recantos. Chego a buscar umha cidade á que lhe cohezo boa parte dos nomes. Busco o reflexo no ar de tantas páginas nas que passei por tantas destas ruas. Ainda nom tenho claro o que encontro. Imagino que será Londres desde agora, de jeito inexorável, mais umha realidade, que se agochará menos a néboa e na Época Victoriana e na II Guerra Mundial, e nas eclossons do pop e nas séries dos anos 70. E que será deste jeito menos minha. Mas, polo momento, é linda a luz entre as árbores e sinto fóra do tempo cos reencontros.

April 20, 2005

Melhor contigo [Na ilha] — São Tomé @ 10:19 am

Ao longo de mais um dia estranho enchoupado de abril, as sensações variam coma o tempo. Desde a gana de se mergulhar num claustro do final da manhá, até umha certa sensaçom de abandono em diversos momentos da tarde. Calma ao olhar o sol que aparece. Um bocado de agóbio, ilussões sinceras polso bons projectos e um calma final. A vissita nocturna dun mosquito encarrega-se de me lembrar mais aspectos da primavera.
Afinal a vida é complexa nestes días e preciso lembrar-me que som a minha própria medida.
Lembram-em que a época é, lá na China, considerada do elemento madeira, que afecta especialmente ao fígado e que a sensaçom associada a ela é a ira. Como controlam estes cabrons.
Enquanto almorço, olho a capa de “Os combates cotiáns”, mais dumha dessas BDs francesas sobre a vida cotiá das que tanto gosto. “Tudo é melhor contigo que sen ti”, di o protagonista a certa altura. E nom lhe falta razom.

Aferramo-nos a esse tipo de cousas pequenas. Olhamos a paisagem cotiá. Ficamos em paz.

April 19, 2005

Nos petos [Na ilha] — São Tomé @ 8:59 am

Quando, como hoje, a mao direita se fai um anaco quente e pouco útil e saio à rua, gardo-a no peto do abrigo. Tento lá mante-la imóvel, protege-la de rozes e ao tempo oculto-a do mundo, mando-a durmir, bonita, que nom se passsa nada e nom há por quê estar enferma e já tudo vai passar arrorro arrorro.
Ao tempo, adoitam pesar os olhos, e vejo durmir as pombas e dá tudo um ar bem mais grisalho. E a medizinha revolta-me o estómago e da-me calor e ligeiros mareios. Entom nom é estranho q acabe remexendo um bocado nesse peto grande, com o difícil que é fazer outra cousa, e encontre lá todo tipo de sedimentos da vida.
A entrada do último dia que fomos ao cinema. A targeta daquela expossiçom. O anúncio dum par de eventos aos que finalmente nom acudim. O papel da goma de mascar ou o plástico do paquete de tabaco da noite aquela, quando nom era cousa de te deixar sozinha por ir buscar um lugar para o deitar.
Como na vida em fim, frustrações e bons recordos coma os que se vam acumulando no salom e no quarto, levo também comigo essa dosse de passado. E suponho que val essa carga para casos coma este, quando preciso distrair a atençom, quando agardo nas estações de comboios, quando o dia se pom um bocado mais gris.

April 18, 2005

O epicentro de abril [Na ilha] — São Tomé @ 8:45 am

Entre as dores pequenas e as molestias que acompanham o me erguer (enquanto te adiantas na ducha e deixo que a admiraçom do teu corpo me ajude a iniciar o dia) chega-me a pergunta a cabeça. Onde foi o epicentro deste abril?
Em quê misteriosas coordenadas espaço-temporais sucedeu essa explossom cuja onda expansiva nos vai colhendo, um por um, a todos? O coraçom da primavera, o big bang do sangue, o vento este que nom respecta o peiteado de ninguém.
Como era de ver, temos umha vaga de mortes, de rupturas, de dessencontros, de mudanças de humor (e de amor) pouco explicáveis, e na outra banda, boas novas laborais, namoros, projectos inéditos, gromos gromos gromos.
Boto-lhe um olho à Lúa, espreito o vento, busco arrecendos estranhos no ar. E ainda que nada cadra exactamente (estranho este vento do Oeste), tampouco semelha andar fora do sitio. E temo a cheia que ai nos vem.
Primavera em fim. Pergunto-me unicamente, ao ver como imos um a um caindo, onde fica esse centro, esse lugar onde se concentra toda a vida que passa caótica polas nossas veias e nos deixa alterados, cansos, coas dores pequenas do começo do dia, onde ainda bom é estares e lhe dar um teu tom a manhá que começa.

Get free blog up and running in minutes with Blogsome | Theme designs available here