Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá...
Álvaro Cunqueiro Si o vello Sinbad volvese ás illas

November 21, 2011

Amor de inverno [Na ilha] — São Tomé @ 1:49 pm

Ando a procurar os modos de te amar no inverno. Do mesmo jeito que te descobro a cada momento, aprendo também a te querer com os pés frios, com o aquecimento posto, entre as sopas para a ceia. Exploro como empregar as maos e os beijos para che aquecer as façulas, e as zonas do corpo que mais che precisam umhas fregas para apanhar calor na cama.
Atopo-te enredada entre os apetites da época, e indago como é te amar com a chúvia fóra nestas noites tam longas, e cómo che acaem as folhas secas e o ar fresco. Amo-te entre bares, refúgios, infusiões e guisos, arroupados no sofá e a caminhar polo monte.
Abraçamo-nos embaixo dos garda-chuvas e entre abrigos, e tirar-che a roupa volta-se umha operaçom que exige calma
quando toca abafarmos os vidros da janela com as nuvens do alento.

November 16, 2011

Razões de amar [Na ilha] — São Tomé @ 12:33 pm

Vai já um tempo ao teu carom. E cá, ainda me surprende descobrer-te. Andar nesta altura dos meses a ver-che mecanismos, gostos, afeições.
Atopo dia a dia como es cansa, sonolenta, carinhosa, apanho-lhe o jeito a como te moves na cozinha ou te enfrontas ao trabalho, à gente nova, ao frio, aos pratos novos, aos imprevistos.
Ainda me apanha de surpresa às vezes o momento no que algo che esperta o riso forte. E os ataques de agarimo que nom sei bem por onde che jordem.

De vagar como andamos, intensos e intermitentes, demoramos essas explorações pequenas e fundamentais.
É assim que há sempre cousas novas ao te ver, que nom há jeito nem necessidade de me afazer.
E nom é cousa tua, é claro, mas dos nossos tempos e distáncias. Mas agradeço-che de qualquer jeito que me vaias dando assim aos poucos
ainda mais
novas razões para te amar.

November 9, 2011

Agardar Novembro [Na ilha] — São Tomé @ 7:19 pm

Finalmente chegou. Sei lá por quê, nom estava à vontade em outubro.
Como se o nome nom se lhe ajeitasse ao tempo, como se precisasse dizer Novembro para me sentir plenamente inserido nesta época, com os pés bem postos na terra e as folhas secas aos cobrer, com o alento já a fazer nuvens e a noite temperá.
Cá está Novembro a se demorar na língua com o seu nome de lã, e eu desfruto-o nesta friagem na que me reconheço.
Deixo medrar as unhas, arrumo-me em harmonia e mergulho-me em horas contadas no calor do teu cabelo.

Caminho arroupado e tranquilo, a atravesar com os olhos o ar mais transparente.
Contemplo cum degoiro necessário a luz inclinada, como a bebê-la em sabendo que, desta vez sim, nom tem volta, vai logo desaparecer.

Será que o frio nos limpa a perspectiva, que nos fai refugiar dentro de nós mesmos, que tira o ruído das noites.
Será que me compria dizer Novembro como dizer garabulho, como umha pedra donda a rolar na língua, como um caramelo
Novembro Novembro Novembro.

October 29, 2011

A irmandade da chúvia [Na ilha] — São Tomé @ 7:17 pm


Caiu o outono de socato, e apanhou-nos no meio.
Ficamos atrapados, como o tempo, nesta chúvia de domingo pola tarde
que irmanda as cidades e as horas. É assim que Ponte Vedra é já, no ritmo da água,
Paris há dois anos, Compostela sempre, o Día de Santos no cemitério de Tálhara, as tardes da infáncia a olhar pola janela
como se formavam as poças e corriam os garda-chuvas,
Bonn e Munich e Bruxelas em cadanseu momento, o Harlem baixo o temporal.
Ficam conectadas todas as pedras do chao, o asfalto, as farolas de metal brilhante a través das pingas que venhem.

Poida que apenas seja por estas que caim no primeiro frio, as que tenhem também o poder de mudar os arrecendos ou, melhor dito,
as que sintonizam à fim os nossos receptores para o Outono
a fazer já impossível qualquer outra estaçom.
É assim que nos decatamos de como solta o chao o frio tudo, que arrecende o lume na madeira e nas castanhas, que reclama a néboa todo o espaço baleiro
menso entre as sabas e os corpos.

Velaí a importáncia
de contar contigo na cama
a fazer lume
a lhe dar sentido, por fim, aos cobertores.

October 26, 2011

Pensar contigo [Na ilha] — São Tomé @ 4:22 pm

Nom fago mais do que pensar em ti.
E nom é certo, por suposto. Penso e olho e leio e sinto as mais variadas cousas. Caminho esperto polo mundo. Mas, no entanto, descobro-te lá sempre no meio.
Estás entretezida em cada sinapse. Andas inserida no meu cérebro e apareces sem me decatar quando percebo a rua e os solpores, quando fago a lista da compra, quando armo os meus planos para arrumar a casa, a estudar, no trabalho, na meditaçom ou nos momentos de antes de durmir.

E nom o fas coma um ruído de fundo que me marcasse sei lá quê ritmo, mas como se a tua presença (ausente) afiançasse as curvas que dou no cérebro, como se fosses mais umha parte da armaçom que me sostén cada ideia, e lhe desses mais força .
Botaches raízes no meu magim, ficas integrada como parte imprescindível dos neurônios . E nom quero que seja doutro jeito.
Fago mais do que pensar em ti, é contigo tudo o que penso.

October 19, 2011

Presente contínuo [Na ilha] — São Tomé @ 5:01 pm

Atopo-te no meu passado, com certa surpresa.

A questom é que a vida contigo vai transcorrendo num presente contínuo, entre as margens dos dias de nos ver e nom nos ver, entre idas e vindas e arranjos no calendário.
O horizonte anda polas fins de semana, e é tudo um estar (e que bom que estejas) no que nom semelha correr o tempo.

No entanto, já vai um tempinho ao teu carom.
E ao andar a arrumar a casa, atopo lá restos de viagens que já figemos juntos, descobro-me com lembranças que já som também tuas
e vejo que andas também metida em essoutra parte do cérebro que toma conta dos dias que forom, que podemos contar histórias que compartímos.

E nom tem mal nengum. Gosto de comprovar como te fincas também nessoutra parte de mim
e gostava que, à inversa, nos dias para vir,
instales também comodamente
o teu passo
neste meu caminho
que já é teu
que se fai também por ti.

October 4, 2011

Nom ter nascido rei [Na ilha] — São Tomé @ 5:00 pm

Gostava de voltar a Irlanda numha viagem, e fazer cousas daquelas que os reis antigos do país tinham proibidas.
Sentar em outono nos túmulos sepulcrais da dona de Maine. Ir á feira de cabalos de Raht line entre os moços de Dal Araidhe, escuitar o canto dos pássaros de Linn Saileach logo do solpor. Embarcar umha segunda logo de Belthaine e durmir entre o Dothair e o Duibhlinn com a cabeça virada cada a um lado.
Havia de ser bom divertir-se na festa de Loch Lein dumha segunda á seguinte, acudir a umha assembleia de mulheres em Seaghais e beber da água de Bo Neimhidh entre dúas luces ou no crepúsculo.
E, com o sabor fresco ainda na boca, dar-se os parabéns por nom ter nascido rei.

(”The ancient kings of Ireland, as well as the kings of the four provinces of Leinster, Munster, Connaught, and Ulster, were subject to certain quaint prohibitions or taboos, on the due observance of which the prosperity of the people of the country, as well as their own, was supposed to depend. Thus, for example, the sun might not rise on the king of Ireland in his bed at Tara, the old capital of Erin; he was forbidden to alight on Wednesday at Magh Breagh, to traverse Magh Cuillinn after sunset, to incite his horse at Fan-Chomair, to go in a ship upon the water the Monday after Bealltaine (May day), and to leave the track of his army upon Ath Maighne the Tuesday after All-Hallows. The king of Leinster might not go round Tuath Laighean left-hand-wise on Wednesday, nor sleep between the Dothair (Dodder) and the Duibhlinn with his head inclining to one side, nor encamp for nine days on the plains of Cualann, nor travel the road of Duibhlinn on Monday, nor ride a dirty black-heeled horse across Magh Maistean. The king of Munster was prohibited from enjoying the feast of Loch Lein from one Monday to another; from banqueting by night in the beginning of harvest before Geim at Leitreacha; from encamping for nine days upon the Siuir; and from holding a border meeting at Gabhran. The king of Connaught might not conclude a treaty respecting his ancient palace of Cruachan after making peace on All-Hallows Day, nor go in a speckled garment on a grey speckled steed to the heath of Dal Chais, nor repair to an assembly of women at Seaghais, nor sit in autumn on the sepulchral mounds of the wife of Maine, nor contend in running with the rider of a grey one-eyed horse at Ath Gallta between two posts. The king of Ulster was forbidden to attend the horse fair at Rath Line among the youths of Dal Araidhe, to listen to the fluttering of the flocks of birds of Linn Saileach after sunset, to celebrate the feast of the bull of Daire-mic-Daire, to go into Magh Cobha in the month of March, and to drink of the water of Bo Neimhidh between two darknesses. If the kings of Ireland strictly observed these and many other customs, which were enjoined by immemorial usage, it was believed that they would never meet with mischance or misfortune, and would live for ninety years without experiencing the decay of old age; that no epidemic or mortality would occur during their reigns; and that the seasons would be favourable and the earth yield its fruit in abundance; whereas, if they set the ancient usages at naught, the country would be visited with plague, famine, and bad weather”.
James Frazer. The golden bough

Em castelhano: James Frazer. La rama dorada)

September 29, 2011

A dama Margarida [Na ilha] — São Tomé @ 11:46 am

Tem a Margarida cousa de dama no gesto.
Seja a falar, a dançar ou a rir, na praia ou na rua, mantém umha compostura que convida a lhe dar lume quando tira o cigarro já rolado da cigarreira, a lhe convidar ao whisky com guaraná.
É dona de luz baixa, e fai-no a um bem mais gentleman ao seu carom. Dá gana de se vestir bem para a acompanhar.

Presta-se a rapariga a deixar-se ir na conversa da noite ao seu carom. E chegado o momento, lhe abrir a porta do carro para que vaia embora, e beijar-lhe a mao na despedida.
Depois, na casa, dá gana de desenhar os mapas daqueles caminhos que se transitárom na sua companha para os colar na parede. E olhá-los devagar, para comprovar quanto consegue ela levá-lo a um bem para além de sim mesmo, e deixá-lo anovado, e diferente.

É cousa de a ver a escuitar jazz, de lembrar na rua em voz queda com ela as canções do Vinícius, de sentir que como che conhece sem necessidade de contar res.

Gosto de voltar de quando em quando vê-la, e comprovar que lá continua ano a ano
a fazer-me sentir à vontade, a abrir janelas novas
na vida.

September 26, 2011

Amor de recantos [Na ilha] — São Tomé @ 5:59 pm

É o nosso um amor de recantos.
Amamo-nos quase às agochadas, metidos no teu refúgio fora do olhar das famílias.
Tampouco os amigos sabem às vezes quando é que estás de visita na cidade, quais som os nossos traslados.
Fazemos movimentos discretos
e aproveitamos os ocos da vida, as casas baleiras, as tendas de campanha que nos emprestam,
os espaços curvos entre os dias correntes e a fim de semana.
É nesses recantos que nos apertamos
que me aparez o teu sorriso,
que exploramos os nossos prórpios recantos
nos intres que ficam entre chegarmos à casa e começar a durmir.
Vivemos nos minutos de agarda polo autocarro nas estações, nos tempos mortos, no caminho dum compromisso ao seguinte.

Agochamo-nos cobertos
polos bordos que unem as horas
damo-nos beijos ao calor que fica
nas margens dos dias.

September 23, 2011

Se nom soubéssemos do outono [Na ilha] — São Tomé @ 4:01 pm

Se nom soubéssemos do outono, podiam ser estes últimos ainda dias do verao.
Iriamos à praia sem remorso, e nom nos haviamos recolher tam cedo pola noite.
Olhariamos o céu sem as fisuras da despedida, e sem medo,
decatariamo-nos de que vai calor.
De certo haviamos ser quem
de reivindicar as sandálias
pantalões curtos, calções de banho
e o direito a nos deitar na erva.

Quiçais vinhesse logo maior o golpe
quiçais nos surprendesse mais o frio.

Por bem ou por mal
cá temos a noite
cada dia mais cedo
para nos advertir.

August 23, 2011

Datas de caducidade [Na ilha] — São Tomé @ 7:36 pm

Como a ler o futuro, olho as datas de caducidade dos alimentos que mercámos e que ficam na neveira de semana a semana. Estám aí os restos arqueológicos de nossos encontros, das receitas que nom figemos, os pacotes de cervejas dos dias que havia pouca gana de beber.
Um de setembro, di o leite. Doze de dezembro, sostenhem os bricks de tona.
Contenhem esses números um possível nosso primeiro outono, a história de vindeiras idas e voltas em seráns mais frio e escuros, de nos atopar cá e acolá, ajustando os dias e as noites. Para essas jornadas ignotas quero imaginar-nos juntos na cozinha, de novo a botar a massa na água ao pouco de chegar eu no autocarro. A tentarmos mais umha vez que o cafê saia perfeito enquando dançamos um bocado.

Agarimo os pacotes, as latas, as garrafas, o queixo, como se dalgum jeito gardassem na sua existência efémera e marcada um jeito de ponto. Leio os números como umha escritura profética que marca um baleiro de saber de nós logo dos dias que anúnciam. Um espaço além no que é mais difícil imaginar-nos, como se as suas datas explicassem até onde nos podo conceber sem botar a voar de mais a imaginaçom.
Assim que
imos fazer a compra
meu bem
imos escrever novas datas pequenas e nossas
por riba de todos os pacotes.

August 21, 2011

Construír a ausência [Acotações] — São Tomé @ 9:38 am

Agora ando a desfazer as malas, apanhar nelas, nas lembranças da nossa recente viagem, os anacos com os que vou construíndo esta tua nova ausência.
Já nom val o achar-te de menos doutras semanas. Agora vimos de botar tempo juntos, vim-me reflectido de jeitos diferentes nos teus olhos, passárom por nós milheiros de intres pequenos dos que nos conformam como as marés e os ventos.
De jeito que nesta altura estou a ver como te acho de menos, quais som as linhas (feitas das nossas noites, dos quilómetros, das paisagens, das praias tam agochadas que nom as dávamos atopado, das nossas danças na rua, dos momentos perdidos) polas que vam transcorrer estes dias sem te ver.
Ainda me estou a afazer, polo de agora ando numha confusom de jeitos de nom estares na que se mesturam as melodias. Mas sei que hám cristalizar, que haverá beiras afiadas e espaços para o calor que sempre achegas, mesmo na distáncia.

August 9, 2011

A maravilha que cobre as paredes [Da propriedade dos lugares] — São Tomé @ 8:12 pm

Ficam as paredes da cidade cubertas dumha maravilha espesa e grumosa, que os olhos dos turistas cuspem contra as pedras antigas.
Andamos estes meses por umha cidadade peganhenta e brilhante, na que se superpom um aspecto mítico e histórico sobre os espazos nossos de cada dia. Brilha essa mucosa fantástica e chama-nos a olhar dum outro jeito as nossas papeleiras, as pedras nas que tropezamos com as gomas de mascar pegadas, os cabos que atravesam todas as fachadas e dos que nem nos decatamos.
Som muitas olhadas as que lhes vam apondo capas de imaginaçom e lhes dam um sentido antíguo às casas e às ruas. Poida que nós mesmos, habitantes cotiáns, sejamos para os visitantes já também elementos lendários dumha vida sonhada: boémios, estudantes, artistas, gente que ri e ceia e conhece os secretos do cenário que apenas começam a vislumbrar.
A questom é que, tam penetrados da fantasia com a que nos olham, pode em qualquer momento deixar de semelhar estranho que atopemos cunchas de trilobites baleiras polas escadas, que se somem os dodos à fauna da fachada da catedral, que os jograres percorram as ruas, que medrem flores fóra de tempo ou que a lua seja por defecto vermelha cada dia.
Poida que nos vejamos infectados da irrealidade que nos prestam os olhares e que as nossas histórias transmutem para argumentos mais estranhos, que se nos multipliquem as casualidades, que nos deixemos levar pola intuiçom ou o ponto de tolémia.
Nas manhás de sono, nos dias em que nom, entra-me gana de me arrefregar contra os muros, por ver se me cobro dessa substáncia de maravilha, a ver se podo me descobrer também nesse universo de olhares.

August 4, 2011

Um ano [Acotações] — São Tomé @ 6:41 pm

Olho-me no espelho. Estou a lavar os dentes para ir para durmir numha casa na que nunca estivera.
Abaixo há gente a falar da que nada sabia há um ano. Daquela estava eu a partir para África.

Estou cómodo e contente, acabamos de tirar os disfrazes da festa de hoje.
E assim, de volta em mim mesmo, dá-se essa pequena sensaçom de surpresa reprentina, de me decatar quê incrível semelha tudo, como fórom as coincidências e as correntes que nos juntárom a todos cá nesta noite.
Penso em se som eu, em se continuo a ser eu com tanta mudança, se som aquele dos quinze anos ou se virei algo totalmente diferente.
Decato-me quantos sonhos se me tenhem cumprido e ando como quigem e quero
enquanto saio do banho e me vém à cabeça

em quê jeito exacto se deu a combinaçom que me levará, em breves instantes,
para a tua cama.

Irreversível [Acotações] — São Tomé @ 4:24 pm

Cada passo como se fosse o último, cada decisom com o peso tudo da existência.
Vives ao bordo do colapso, num ponto no que no gesto de escolher sapatos adivinha-se o abismo.
Tanta presom fai o ar denso, de ai essa sensaçom de afogo que che ataca, som essas as atmosferas que che transformam em bágoas a luz do olhar e fam renger os movimentos como se fosse partir o osso.
E é certo que cada escolha é definitiva e nom há volta, é esse o nosso signo.

Mas, ao tempo, som infinitas as possibilidades em cada intre, e sempre se pode ler entre linhas, ou nos ocos das palavras ou nos buracos das letras, e lá moram universos inteiros. Cómpre alinhar ajeitadamente o olhar, nom é um truque singelo.
Cabe a possibilidade de rachar as páginas e de negar a leitura, pode-se mudar de livro, caminhar para o lado.
(Em ocasiões, mesmo os caminhos dam reviravoltas completas e há cousas que semelham segundas oportunidades)

É unicamente o corpo próprio o que sinte a presom, o fenómeno nom existe fora da sensaçom na pele, da mente.
Nom todos podemos. Nem sempre. Mas há que fazer por afortalar os pulmões, aprender a respirar em águas túrbias, disolver os momentos mais obtusos
e mesmo no fundo do buraco
aprezarmos um bocado a luz
em sabendo que isto também há passar.

July 12, 2011

Feito de anacos [Na ilha] — São Tomé @ 4:26 pm

Tenho gente perto da que sempre ando a aprender. Pessoas que admiro e que me fam ser melhor.
Aprendo com uns a nom depender de olhares externos, a nom prejulgar, a deixar invejas e andar mais centrado no que um tem e é.
Colho dalguns um certo jeito de levar a vida com calma dosificar correctamente o optimismo e os carinhos.
Ensinam-me outros ainda a ler entre linhas, e como há jeitos lenes de ajudar e estar ai polo calado.
Deixam-me às vezes assombrado, dando-me lições prácticas de amizade, umha escola bem agradável que procuro nom deixar de pagar em cervejas e abraços e encontros e em tempo de escuita se compre.

Som esses alimentos os que me fam medrar e me conformam, a base de botarmos tardes de recados, cafés, conversas fóra da hora.
Descobro como organizar encontros, ter a casa e a vida equipadas, nom lhe ter medo ao trabalho,
discernir exactamente quê é o que paga a pena.
Há também aprendizagem ao contrário. Das cousas que descobro que nom gosto. Dos jeitos de levar a vida que nom comparto e alternativas que nom me acaem bem. De tudo se apreende.

Afinal, vou-me fazendo assim de anacos, sei lá se componho umha figura estranha, nem importo.
Gosto de reconhecer a origem de alguns dos jeitos que levo ou que tento levar
aquecem bem mais em sabendo de onde chegam, com a pegada da gente
que mos achegou, mesmo sem saber.

July 11, 2011

De jeito natural [Na ilha] — São Tomé @ 5:26 pm

O caminho à casa desde o trabalho é o que é. Embora podia escolher outro, fijo-se e figem-no a base de dias e de passos e forjou-se sólida costume. Nom cabe o questionar.
Fago-o sem o pensar, aceito-o, do mesmo jeito em que nom me estranha, segundo avanço por ele, que nesta altura vaia sol e haja turistas, nem que arrecendam no ar as comidas do verao às três da tarde. No seu tempo vam secando as flores dos couselos nos muros dalgum tramo, e mais adiante medram verdes as folhas das vides baixo os cantos das andorinhas.
Na casa verifico que o sol se pom mais o Norte. A louça frega-se agradavelmente com água fria. A roupa seca rápido. Os signos do verao sucedem-se sem muita variaçom, chegam e instalam-se
e nom é para os pensar.

De jeito semelhante decato-me
que me resulta por vezes tremendamente natural o estares tu ai
que che apanho sem muitas mais voltas e aceito e aceito o ritmo de idas e vindas (ondas, estações, lufadas lenes de vento)
nas que nos imos fazendo.

July 8, 2011

Solidez na chuva [Na ilha] — São Tomé @ 12:38 pm

Na chuva atopo jeitos mais sólidos de estar no mundo. Serám as baixas presões, a água que nos achega ao chao, o obrigado acurtamento da olhada contra horizontes difusos. A cousa fai-se mais evidente quando a borrasca é ocasional.
A mudança repentina pom-nos alerta, a luz das poças arrasta a olhada ao chao e ao tempo as nuvens completam-nos umha margem reduzida de actuaçom para a paisagem.
E assim caminhamos, algo mais constrenhidos, mais materiais, batendo a casa paso com as pingas
com o pouso do pasado que sempre vem com a áuga
e que apresenta esse dias umha maior resistência ao avanço.

July 6, 2011

Cartas [Na ilha] — São Tomé @ 9:53 am

Por vezes, gostava de te escrever cartas demoradas, que tardassem dias em chegar e que fossem polo caminho fermentando a tinta das palavras, colhendo peso e substáncia no papel baixo o sol da viagem.
A distáncia e os tempos nom dam para isso, no entanto, e fico entom calado e pouco mais escrevo do que listas para a compra, possíveis notícias que dar cada dia ou novas palavras em francês.
E havia ser bem melhor dedicar o pulso e os dedos a te acarinhar a base de papel e de caneta, demorando em curvas caligráficas (que nada tenhem que fazer fronte à paisagem macia das tuas costas).
Gostava de afazer a mao a pensar em ti desse jeito, como se estám a afazer as gemas dos dedos ao teu tacto e os teus recantos, como se acostumam as palmas a pousar amplas no teu corpo.
Poida que seja essa a medizinha que me falta ainda para as dores das articulações
do mesmo jeito que outras dores, pouco conscientes,
fugírom ao sopro dos teus beijos.

June 13, 2011

Buscar o lugar [Na ilha] — São Tomé @ 1:00 pm

E desse jeito andamos. A quadrarmos calendários, criar costumes, inventarmos o código ainda para nos comunicar.
Imos testando, encontro a encontro as piadas e as palavras familiares com a que nos hemos ir definindo. Buscamos a beira da cama que lhe corresponde a cada um. Tentamo-nos os gostos, as teimas e os pontos sensíveis.
Jogamos enfim, necessariamente, a nos buscar de jeito mútuo tu e mais eu
o lugar numhas vidas já bem cheias e ocupadas.

Mas afinal, nom é difícil, acho.
Ao meu ver
nom há melhor lugar para estarmos
do que bem perto
e ao carom.

June 10, 2011

Ruas abertas [Da propriedade dos lugares] — São Tomé @ 12:39 pm

Ultimamente acontece-me que, às vezes, ao caminhar, levo o olhar dalgum jeito um bocado mais longe do habitual.
E tenhem a bem as ruas amosar-me umha série de linhas de fuga bem marcadas, um chao bem mais uniforme do que lembrava. Configuram-se já nom como umha sucessom de lastros e de pedras, mas como espaços contínuos que se amosam amigáveis e firmes baixo o passo.

Dalgum jeito, as ruas sorrim para mim e erguem-me sobre a sua superfície, como se diminuíssem as costas, tirassem os buracos e afastassem do meu caminho os papeis.
Vou cum passo mais asentado, adentrando-me num espaço que sinto tem umha maior perspectiva cara à fronte.

Caminho como cum esquelete mais forte, um prestar-lhe menos atençom às fendas da via, cum passar lene como sobre tapetes.

E algo há nesse jeito de olhar e de caminhar, cousas que nom podo precisar,
mas que sei certo
que venhem de ti.

June 2, 2011

Vai embora a primavera [Na ilha] — São Tomé @ 4:34 pm

Era sabido. Inexorável como é, a primavera veu

e já vai embora.

Mas, é claro, toma-se-lhe carinho.
Nova como é, cheia de flores
com as suas noites demoradas a dançar até o amencer
a reclamaçom do sol primeiro em Bonaval,
as novas amizades, as ceias com a janela aberta
os encontros e as gentes que jordem ao acaso
enleados uns nos outros como as cereijas
ao jeito de carícias breves no decorrer da vida.

Desta volta, forom no seu signo uns meses de me fazer, eu também, algo mais novo
e vém agora outro tempo no que viver
nom mais velho
mas sim
algo mais instalado no cámbio florido
que trouxo.

Obrigado.

June 1, 2011

O cerco de Paris [Da propriedade dos lugares] — São Tomé @ 11:31 am

Já levava Paris um tempo a me cercar.
Levo semanas a olhar como se achega, com ecos em múltiplas lembranças, com Camille a cantar, com fotografias de couchsurfers na parte de atrás de Notre Dame, a mesma vista na que nos fotografamos no seu dia.

Andava a me roldar com mais insistência nestes dias, com as BDs de Larcenet e a possibilidade dumha nova visita nas férias, com acampamentos em Bastille.

E já com os vídeos de La Blogothéque enche-se tudo das avenidas que caminhei, dos cafés, dos recunchos secretos que a cidade sugire por toda a parte (pátios, edifícios fechados, jardins, catacombas que ninguém sabe) e que som tam difícis e conhecer. E mesmo atopo lá a tenda de reparaçom de bonecas da rua Parmentier, tam perto da tua casa.

A fechar o cerco, recebo um feixe de fotografias de há quase um ano, nunca fora de hora, sentados num bar, e pergunto-me se será este o ataque final da cidade que busca me derrubar.

E será que Paris tem algo para além de vós, caras, um veleno que me inaculou mesmo com as suas fealdades e reclama-me de volta.
Terei ainda que ir lá para vermo-nos as caras a cidade e mais eu, para reapropiar-me dela e te-la dum outro jeito,
com as ruas grisalhas
os ruídos
o lixo
os solpores que só se adivinham por cima dos telhados
as flores das árvores agochadas no verao

sem aqueles abraços já.

May 30, 2011

O coraçom quente esgaça-se de vagar [Na ilha] — São Tomé @ 12:52 pm

Mergulhado no teu perfume, que já é ausência, o coraçom quente esgaça-se de vagar, numha dor cálida que quase nom se perceve, de tam a modo que vai caindo.
Lá metido sucedem-se imagens do mais estranho: solpores de plenitude, momentos com os amigos, Paris acaso, momentos da infáncia que dalgum jeito se incorporam ao ronsel de cousas que agochas no arrecendo

e por suposto os teus beijos recentes e o jeito no que me olhas no meio do abraço.

Dum jeito ou doutro, lava-me a tua ausência, a tu roçadura,
voltan-me mais pequeno e lene, fam-me crer de novo sei lá no quê.

Quiçais em que há ainda páginas inéditas,
que nom tudo é um retorno,
que os ecos que acompanham sempre
podem ainda ter novos sentidos
e trazer surpresa

como tu.

May 27, 2011

Vertigem [Acotações] — São Tomé @ 12:27 pm

Há um aquele de vertigem intenso ante a perspectiva próxima do teu abraço.
Aburaca-se o estómago, sube polo corpo até a gorja e dá um certo mareio na cabeça.
Bem sei que me vou lançar lá com gana, e que é bom.
Nom é cousa de medo nengum.
Trata-se dumha gravidade intensa que me arrastra cara a ti cumha força cada vez maior
segundo se achega o encontro
e se deixa sentir como umha perspectiva de perda da verticalidade,
da ausência dum equilíbrio estável lá onde nom estejas
de falta de chao

e quêm o precisa.

May 25, 2011

Paisagem da tua ausência [Na ilha] — São Tomé @ 11:49 am

A nos afastar e achegar, com as nossas forçadas idas e vindas, gera-se na distáncia variável umha estranha dínamo. Provocamos ai umha energia intensa na que se vai gerando, com essas variações, umha paisagem da tua ausência.
Trata-se dum espaço frondoso que exploro (a falta da tua pele), do mesmo jeito em que che investigo as superfícies quando te podo apertar.
Lá atopo de socato grandes picos de desejo, que gardam a febre no cúmio, e espaços, e vales acolhedores cheios de bosques nos que lembro com calma o teu abraço.
Lá jorde da tua falta um rio feito cachoeira que me arrola e me leva na noite, sem atopar resistência.
Há poucas chairas. Aínda é tempo de trevões a tua ausência.

Mais lá ando, a cartografar com gosto
os teus lenes accidentes geográficos
os dos dias a distáncia.

May 19, 2011

Aquele verám [Mantras de teimosia] — São Tomé @ 8:24 pm

Naquele verao lembro baixar da tua casa e atopar os primeiros autocarros da manhá. Durmir três horas, ir ao trabalho, durmir um bocado no meio dia, e logo atoparmo-nos de novo na saída do trabalho. E na Compostela aquela de sol descobriamos concertos e recantos agochados, viamo-nos por vez primeira os amigos, os gostos e as feridas.
Eramos novos.

Era daquela também a descoberta dos nossos beijos demorados, no meio das ruínas que nos inçavam a vida.
Soava Berrogüetto no quarto, e também o Fausto de contínuo.

Mas afinal, foi o Louriano que lhe fixou a trilha sonora a aqueles tempos,
quando ao nos lembrar juntos daquele piso dixo um dia

quê vida boa era a de Lisboa!

(e agora está cá um outro verao, uns outros beijos, umha outra vida boa
com Lisboa achegada bem mais perto)

May 18, 2011

Perguntas parvas [Na ilha] — São Tomé @ 10:17 pm

Quêm es?
De onde sais?
Qual é a tua história?
Quais som os teus traumas?
Es ajeitada para mim?
Como encaixas na minha vida?
Onde imos?
Como imos fazer?
Temos futuro?
Por quê tu?

É-me difícil atopar perguntas, todas semelham igual de parvas quando se trata de ti

especialmente
quando sei que a resposta a tudo é simplesmente
que quero estar contigo.

May 16, 2011

Alfabeto de sol e janelas [Na ilha] — São Tomé @ 4:12 pm

Velaqui o alfabeto do sol e as janelas que atopo cada dia ultimamente ao voltar do trabalho.
Olho com atençom essas estranhas letras ao passar, fago por descifrar esta breve mensagem
e às vezes até penso lhes atopar o sentido.
Mas nem neste texto, nem em livro nengum
atopei indício que me avisasse
da tua surpreendente chegada.

Bioquímica [Acotações] — São Tomé @ 9:11 am

Nom sei
se nom estarei já a mudar as minhas tristuras de Lua por aquelas da tua ausência,
se nom andará a virar cara a ti o desejo.
Ignoro até que ponto
me está a mudar a bioquímica na tua honra.
Decato-me apenas de que há movimentos moleculares,
hormonas que se alteram, sinapses que trocam de sentido
e querem levar-me a buscar o Norte
cara a essa banda
atrapadas no magnetismo do teu cabelo.

May 13, 2011

Os livros do mundo [Acotações] — São Tomé @ 10:55 am

Ao longo dos anos tenho botado muitas horas a tentar descifrar livros dos que nos manda o mundo, a lhes fazer a pergunta.

Som leituras das cousas que nom acaba de entregar o seu sentido completo,
matérias fundas que emiten altas doses de calma e provocam asombros
nos seus padrões aleatórios e repetitivos.

Desde neno levo a ler, com o olhar fixo e o pensamento perdido
cousas como

as vetas de madeira nas portas
as partículas de pó a voar na luz da manhá de domingo
as letras que formam os reflexos do sol nos vidros, sobre o chao
as formas da nuvens fugindo cara o Norte por Vista Alegre
os reflexos da áuga no teito, ou nas folhas das árvores
o sol na folha dumha espada
as engurras da roupa da cama
os recantos sempre inéditos que se descobrem nas casas
as paisagens que fogem desde a janela do carro ou do trem

E sempre jurdiu lá,
se nom resposta,
quando menos a maravilha que sempre agocha o mais pequeno.

Ultimamente, centro as minhas leituras demoradas
nas curvas tam perfeitas das andorinhas
na lentura do solpor,

sinto que poderia botar horas na observaçom
que quase chego a comprender que nom há cousa nengumha lá
que a maravilha me leva inteiro.

May 12, 2011

Os topónimos pequenos [Da propriedade dos lugares] — São Tomé @ 1:53 pm

Dalgum jeito ensinárom-me de neno a nom gostar de certos topónimos do contorno rural mais achegado.
Figueirido, Cerponções, Mourente, A Caeira, Vila Boa eram lugares cheios de muros de blocos, onde nenos brutos e bem mais fortes do que nós eramos asejavam e jogavam no meio da estrada a cousas estranhas, caçavam passaros e tudo estava sujo.

Era bem que certo que aqueles nom eram os lugares dos meus pais, que havia um outro carinho ao dizerem eles Merelhe, Souto de Abelendo, Sobre Vinhas, Pena do Ouro… E também eu olhava diferente aquele mundo de fantasia (também com as suas galinhas e os seus agros), como o espaço cheio de histórias em branco e preto. Era lá onde o meu bisavó se agochara durante a guerra ou saltava o muro da horta para ir onda a vizinha, naquel recnto a minha avoa lançara pedras aos raparigos e perdera um dente. Ali lhe escaparam as vacas a um meu tio, ou aqueles meus outros tios tinham umha casa grande na que dava medo se perder. Lá foram nenos os meus maiores, algo inimaginável naquela altura.

Levou o seu tempo superar essa autojenreira, descovrer com o fermoso dos nomes em sim mesmos. Biduido, Forcarei, Cambados, Ponte Caldelas, Xunqueira de Ambia, Alhariz, Vila Nova… Os amigos e as viagens mudárom-me a olhada, derom-lhe sentido a nomes: Muimenta, Jove, Silheda, Cristimil ou Abelheira.
Mas, ainda hoje, gardo certos reparos nem sei a quê, e há nomes que convidam bem mais do que outros, que tenhem o aquele de lendas dos espaços da infáncia dos pais.
Xiabre, Pico Sacro, Ponte Ulha, A Ilha, Mondariz…

Sei lá quantos lugares terei que olhar, como me ham conquistar aqueloutros nomes pequenos que ainda hei conhecer, quem lhe outorgará sentido a essas palavras escuras
que ainda me agardam.

May 10, 2011

Coraçom brando [Na ilha, Achados (de menos)] — São Tomé @ 10:22 am

Está visto: ando com o coraçom brando.
Por se nom ficava claro com os choros ledos, os ataques de felicidade, a certa facilidade com o que o abro à gente e aos momentos, hoje deu-me outra prova.

Olhei umha foto tua, deste tempo já longo e tam bom de nom nos ver, pareceches-me linda, e apertou-se-me a víscera.

Mas, como já saberás nesta altura, nom tem a cousa nada a ver contigo. Deixa-te ir.
Som os montes de lembranças comuns que leváches sem despedida, som os cadelos que tanto acho de menos, som os lugares aos que fomos e algumha gente comum.

Tes ainda nesse campo umha força semelhante à que possuem amuletos como as fotos da infáncia, os velhos joguetes, os adornos de Natal que podem ainda crebar-me.
Fas parte tu também dum mundo já fantástico, um bosque preto que tivo o seu tempo, que já nom existe e que só polo facto de nom existir transmite em ocasiões essas vagas de mágoa

que eu, agora, recevo ao sol:
nom é a ti a quem anhoro.

May 9, 2011

Processo primaveral [Acotações] — São Tomé @ 1:33 pm


Chega abril e já nos pensamos instalados na primavera como num espaço fixo e definido. E, no entanto, nom é tal.
Ainda faltam as andorinhas polos céus, o som dos grilos nas hortas, o sol demostra que é quem se pôr ainda um bocado mais cara ao Norte, e há árvores que ainda nom recuperárom ajeitadamente as folhas desde o inverno.
Afinal, é esta apenas umha estaçom intermédia, dias nos que imos esvarando com paso demorado cara ao verao, cum pé ainda no frio.

E é assim que um dia nos decatamos de que há arrecendos novos, que som flores diferentes as que andam a desabrochar. Outro olhamos um primeiro caracol a cruzar a rua, provamos o primeiro pemento de Padrom
ou chegam as cereijas

e mesturada nelas, no seu tempo,
apareces.

May 6, 2011

Causas cruzadas [Acotações] — São Tomé @ 10:41 am

O sacrifício de Bin Laden na lua nova de maio provoca umha vaga de desajustes. Racham computadores, relógios, imprsesoras.
A gente apanha humores cruzados, pom-se triste, fecha-se na casa. Como se faltasse um muro contra o que bater o inconsciente, faltos um inimigo-referente reconhecível, o mundo esfarela-se um bocado. Sentimo-lo nós, os aparelhos electrónicos, o clima.

Venhem enfermidades e nascimentos com a mudança de ciclo. À cobertura dos telemóveis dá-lhe por reaccionar aos arrecendos das padarias, do mesmo jeito que tu te amosas receptiva quando há mais sinal. Os berros das andorinhas incidem nos accidentes de tráfico, atopo no chao um yin-yang que há estar relacionado com as carrinhas de repartos do casco histórico, e na chuva hei atopar hipóteses dos teus beijos.
A minha tristura, no entanto, já chegara adiantada dumha origem ingnota e agora caminho calmo no meio do trastocamento das causas
seguindo-lhes uns fios que até atopo divertidos.

May 2, 2011

A pergunta [Na ilha] — São Tomé @ 12:55 pm

Como se cada recanto fosse um Aleph, quando ponho esses olhos de neno sério, quando projecto algo que nom sei o que é con intençom de mudar a realidade,
a pergunta que fago é algo do tipo “por onde che apanho mundo? onde tenho que premer para que te abras e descobras cá mesmo, neste anaco do quarto, entre as cadeiras a mesa e o chao, tudo?”.

Olho e quero crer (Aleph) que a totalidade pode estar contida em qualquer recanto, e falta apenas a chave para a extrair.

Tem de ser desse jeito, às vezes percebe-se com facilidade que a realidade lateja com tudo o que contém por baixo da superfície. Rebordam os espaços significados ao olharmo-los fixamente (e é assim que achega ecos e ecos de ecos inconexos à cabeça), fede a Tudo por toda a parte
e o meu neno de dentro nom quer deixar fugir essa hipótese de comprender, quer saber por fim que tudo o que já foi continua cá, inserido baixo as táboas do chao, nas fendas dos muros, nos livros fechados baixo a luz do sol e que nom há ser tanta a tragédia, que há consolo possível.

(E quiçais sejam esses os olhos com gadoupas que se me ponhem quando estou espido,
o rosto sério
de quando indago também por onde che hei apanhar, como che hei botar a mao
para que perdas o sentido totalmente
no prazer)

Um contra o outro [Na ilha] — São Tomé @ 12:51 pm

Atopo-me de socato a olhar cum olhar que sostém umha curiosa dialéctica com o mundo.

Do mesmo jeito que quando neno, há um ego pequeno e sólido como umha pelota que interroga o mundo que contemplo, que bota contra umha realidade que se nega a aceitar sem mais e quer atopar-lhe um sentido, pergunta-lhe com força por quê (por quê vai acabar passando, por quê tem esse feitio exacto, por quê me esperta as sensações intimas que esperta).

Esse ego que olha fai por amarrar a cena, ao tempo admira-a e rejeita-a como algo alheio. Do mesmo jeito que quando criança, fico com os olhos fixos num recanto do quarto até que esvaem as formas.

Quê distinto esse olhar daqueloutro dos momentos de harmonia, quando tudo é bom, e simples e é sem mais e o integro nem sei onde.
Há nestouros olhos força e jenreira, umha busca de sentido que necessariamente resulta criativa.

De jeito semelhante a essa parede, por vezes tenho dias em que é nos teus olhos que me reconheço, nos teus braços que me sostenho, a bater contra o teu peito, a ver se o abro, que me construo.

E quando falta contra quê bater, afundo.

April 27, 2011

Esta tristura [Acotações] — São Tomé @ 9:19 pm

Nom sei exactamente de onde vem esta tristura que me arrasa.

Sei -com certeza- que há passar.

Desintegrar-se [Na ilha] — São Tomé @ 4:48 pm

Desfazer os nós que, inevitávelmente nascem na cabeça como nos troncos das árvores,
exige sempre olhar para longe, baleirar-se um bocado
(deitar-se ao sol é umha grande ajuda).
É cousa boa narrar-se um bocadinho e atopar-se de novo nas palavras coas que nos descobrimos ao outro
como cantar.
Afinal a questom é desintegrar-se polos olhos, encher-se da maravilha que -sempre- agarda fora
respirar e deixar-se passar um mesmo
dum jeito semelhante a aquele
em que te deixo ir.

April 26, 2011

Enredado nos teus momentos [Na ilha] — São Tomé @ 6:46 pm

Chegaches tarde e carregada. Deitamo-nos no parque, e nom querias ir embora, fazer outra cousa. Vim-che nos olhos a gana no caminho. Paravas nas pastelarias e nas tendas da fruita a contemplá-las como um menino, e tiravas fotografias de tudo.

Mais tarde olhámos a lua desde a minha janela, e também tu deitada na cama e eu ao teu carom. Sentimos as ervas nos pés, como nom, e caminhámos nomeando as flores e tentando-lhes o arrecendo (as mesmas flores para mim com alguém, eram completamente novas para ti).
O sol de abril dava-lhe a tudo um ar de intensidade, mesmo ao carom do rio pequeno, na igreja, nos muros e nos espaços feios.

Ceias demoradas, conversas parvas nas que querias parar o tempo e ficar no abraço. Olhar a cidade desde a janela, fazer-nos piadas, o teu olhar a comprovar se eu falava a sério de quando em quando. Amosar-che o meu mundo pequeno. Compartir a primeira auténtica chúvia da primavera.
A tua garrafa de champanha, caprichos de menina, os asombros ante as cousas mais cotiás.

A tristura intensa de pensar na tua marcha. A surpresa que essa tristura provocava. O me sentir vulnerável.

Deixei-me arrolar por esses momentos, e fiquei prendido em ti por dias. Ainda bem que estava o Sul lá, a me marcar data e rumo e destino. E que havia lá mil vidas que viver.

Afinal ficou disso a tua cama baleira no meio do salom, um rasto ainda do arrecendo de pintura da minha casa, mais um bocado de desorde ainda por acô, lembranças e lugares vencelhados a elas
que ham voltar sozinhas sem que eu as reclame
nem lhes ponha freio.

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