Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá...
Álvaro Cunqueiro Si o vello Sinbad volvese ás illas

July 3, 2009

A tarde demorada [Da propriedade dos lugares] — São Tomé @ 10:00 am

É nestes dias que a tarde demora até o ponto que o dia semelha nom rematar, de tam largos os céus.
Apresenta-se a noite entom penetrada de sol até no escuro, indissolúvel da vida.
Nom val repregar-se, fugir, fechar os olhos, fazer-se durmidos.
Há que ir, baixar as costas, olhar a gente por toda a parte, caminhar umha capa por baixo do quotidiano, inseridos mais fundo na cidade
e no bater do seu ritmo ir dançando noite através, a ser o que nos reclama, partes inexcusáveis de verao, actores do sol nas horas escuras
em desespero, jogo e leda saudade.

June 19, 2009

Memória de lugares neutros [Da propriedade dos lugares] — São Tomé @ 10:31 am

Jantámos num bar comum, rua anodina, pratos do mais básico, tudo aduvidado com o encanto do descuido e dumha certa pobreça.
E fago memória agora de lugares semelhantes e neutros onde tenho atopado agocho.
O assador de arnóia, com jeito de nave industrial. Aquel lugar onde jantamos um prato combinado em Alhariz, cum filme ambientado no século XVIII no televisor. Aqueloutro assador onda Ribadeo, com máquina de Pepsi fóra entre dous postes. Um bar em Viveiro com vistas a um insulso jardim onde jogavam os nenos. O comedor do Zé da Rampa, onda Santo Tirso. O bar de chineses perto da Fira de Barcelona. Aqueloutro no Parallel, tam azul. O Sam Roque mesmo onde nos citávamos Jandro e mais eu, ao agocho de ouvidos indiscretos.
Espaços pequenos sem nada de extraordinário onde tudo está no seu lugar - os cartazes, a televisom, a letra impresa das ementas, as suciedade nos recantos- e é como deve ser. Comida e refúgio, deixam umha estranha pegada de paz no bandulho.

June 9, 2009

Procurar a primavera [Na ilha] — São Tomé @ 12:09 pm

Abonda já. Há que crebar um pau, ligar para o sol, botar a vida à erva. Que lá vai a primavera e nom a conhecémos, ficamos todos molhados (já para sempre) em Compostela.
Há que se conjurar: combinemos nos parques molhados, enchamos as terraças coma se fosse certo, vaiamos de camissola e sandálias tomar com gelo os cafés todos, olhemos para o céu coma se nom estivesse coberto.
E agardemos que já por fim assim chegue a primavera perdida e nos tolee de bom jeito,
que o verám nom chega ainda a sonho
e temos já o Norte orfo das ledízias simples
dos pés descalços .

May 6, 2009

No equador? [Na ilha] — São Tomé @ 11:03 am

De socato, atopo a Cesária a me aleccionar nos auriculares…
E veras-te no equador, São Tomé?

SÃO TOMÉ NA EQUADOR
São Tomé bô tem uns tonte di nos
Bô é parte d’nos storia e nos dor
Na bô seiva bô tem Bantu, Crioulo e Angolan

São Tomé bô tem uns tonte di nôs
Bô é parte d’nôs estoria e nôs dor
São Tomé na bô veia ta corrê um so sangue

Bô fui lugar di sofrimento, ma ligria bô podê da
S’tud bôs fidje bô contempla
São Tomé bô tem riqueza

Ma fortuna maior é valor e amor
Di tude bôs fidje
E sês vontade na vivê djunt’
Num terrinha ondé verde é mas verde

São Tomé, São Tomé
Ka esquecê quem pa bô luta
São Tomé, São Tomé
Na equador di nos dor

São Tomé, São Tomé
Caminho longe ja vra mas perto
Bem mas perto di bô futuro
Passode é so peso

Ressentimento ka ta construi
Realidade é perdâo
E perdâo podê ser uniâo
Di tud bôs fidje, São Tomé

May 4, 2009

Gromos [Na ilha] — São Tomé @ 4:30 pm

Tenho por sabido o dos gromos e a primavera.
Mas agora tenho um alien a medrar-me desde as costas e a embarulha-lo tudo com braçadas cegas. Fago por ajeitar anacos no afundimento. Tendo a roupa. Recolho. Extremo as precauções e, nem deixo copos no bordo da mesa nem caminho chaos molhados.
Mas nom tem a ver. Medra, dói e atafega, e o único remédio hà ser apanhar a sua força para turrar mais um bocado adiante e alienígena.

April 29, 2009

Dores de parto [Na ilha] — São Tomé @ 11:17 am

Contraturas, artrites, insónios estranhos, erros. Fago por os encarar coma se fossem dores do parto.
Atopo, no bordo dos olhos incongruências na paisagem. Piscam as luzes, esvaem-se os braços da lámpada se olho para o centro tempo abondo. Abanea algo no ar perto do chao do banho.
Albisco a possibilidade de que haja buracos na realidade, de que seja possível turrar por eles para derrubar o conjunto e achar, por fim a tramoia da vida. Outra cousa será sermos capazes de manexar os mil fios que agora olhamos coma casualidades.
Atopo ecos de mim mesmo em todas as paisagens e as canções, no jeito de estar, nos anos e nas ausências.

Há, como corresponde à época, cousas que querem sair, e dam em provocar moléstias. Mercar, mudar, arrincar, ler, demorar, olhar, ver mais gente, outra gente, refazer anacos de vida que nom tinham mal nengum ata o de agora.
Deixo-me levar.
Erro, racho, lixo e trabuco-me.
Actuo como jeito de único de me ir achegando ao que tenha que ser, com curiossidade por como me hei reconhecer logo de tudo.

April 27, 2009

Apreender a casa [Da propriedade dos lugares] — São Tomé @ 12:31 pm

Por vez primeira na nova casa, ajudado pola dor do pescoço, atopo-me deitado, coma quando neno, a olhar o patrom dos fios do cobertor, o jeito em que incide a luz da fim da tarde sobre os andeis cheios de livros. Aproveito o momento de imobilidade e fago por reter o friso de folhas que há no cabeceiro da cama, a cadeia da que pende a lámpada, a fendas na pintura do teito.
Lá estou por fim a me fazer dono da casa, a goçar-lhe a imobilidade da tarde de domingo. Tento esculcar até que altura chega o curuto da torres que podo olhar no espelho no armário, recortadas contra as nuvens. Verifico quantos aviões tenho afinal no quarto, busco-lhe cos pés os distintos finais à cama, angulo a visom para comprovar quê se vê na janela além de céu.
No processo de estar, descobro em certa altura a perfeiçom do intre, apreendo esse meu reino, quarto de luz queda e livros, e decato-me que nunca desejei cousa nengumha que nom esteja lá.

April 22, 2009

Proximidade da primavera nas Hortas [Da propriedade dos lugares] — São Tomé @ 9:20 am

Ao baixar pola minha velha rua olho os lixos, as plantas que medram ridículas entre os passeios e os muros da casas assolagados polo sol, coma tantas outras tarde. Mas há algo estranho nos estómago e na cabeça, umha certa dúvida de que sejam exactamente os mesmos, o medo a ter perdido no inconsciente momentos cruziais no agromar das sementes dos telhados, de nom ter visto, coma aquela manhá, o jardim de garrafas de mil cores onda o contentor.

Enfiando polas Hortas, atopo-me ao carom da primavera coma em sítio nengum da cidade, e penso até que ponto me afastei desses ritmos. Cá está a figueira, a cerdeira pequena, as estrugas e as ervas que medram sen controlo nengum entre corta e corta baixo o sol. E nom estivem nas mudanças.

A sensaçom é quase de vertigem, mas sei que ainda é cedo. Que um dia qualquer, em baixando as escaleiras desde o obradoiro, há vir a rua empurrada polo sol da tarde e me há dar nos focinhos com toda a força. E me há fazer chorar, ou deixará-me parado no meio e meio, atoutado pola açouta.

April 16, 2009

Um lugar ao sul do Barbança [Da propriedade dos lugares] — São Tomé @ 11:22 am

Na geografia dos meus sonhos, há umha vila marinheira pequena ao Sul do Barbança, encirrada entre montes. Para ir lá apanhámos umha autovia que estava sem rematar. Baixámos lá algumha vez, no casco histórico havia casas abandonadas e ruas com passos por cima. Há dois dias sonhei de novo com o lugar. Numha cala havia restos dum antigo templo: colunas baixo a água, a tumba dum herói com espada… Ao espertar, decatei-me da localizaçom real: Tenho que ir por Monte Louro.

April 13, 2009

Amar as vilas [Da propriedade dos lugares] — São Tomé @ 4:51 pm

Há que amar Mondonhedo, Celanova, Monforte, Ribadavia, Ortigueira, Betanços, Caldas.
Há que ir e olhar e sentir as ruas pequenas, as glórias passadas, as vidas concentradas no espaço e a sempre saudade que acompanha as velhas vilas galegas.
Há que caminhar até o rio de vagar e olhar-lhe as trasseiras às casas, os comércios parados nos anos, as janelas de guilhotina, os lugares abandonados.
E lá querer ficar, por compartir o devalar miudo, a erosom existencial que lhes provocam as corrente, como se nalgum momento tivessem saido do próprio curso e decidissem ficar à margem, onde ainda ressistem.
E como se fosse lá possível ainda se salvar um bocadinho, ralentizar o ritmo, manter os anos amalhoados e i-los ceivando mais aos poucos
embora fosse com o temor da enchente inevitável.

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