Sou amigo de abraços. Mais do que de beijos fugazes nas façulas ou de dar a mao.
Gosto dar o sentido dos meus braços nas costelas, abraguer a gente.
Fazer sentir algum jeito que poden lá contar com a minha força toda.
November 18, 2009
Abraços
November 16, 2009
A roupa grande
Logo de perto de cinco anos sem os ver, os meus tios adquirírom um jeito como de títeres com cordar frouxas, vestidos com roupas grandes. Já nom é o ser eu inevitavelmente mais alto, o termos todos emagrecido. É a sensaçom de os ver mover-se como fora do contorno, faltos dum nervo que nunca lhes faltara e que ainda nom acho em falta nos meus próprios pais.
A espalda curva, a cabeça botada para adiante, os olhares algo mais perdidos, os sucos do tempo neles e entre eles e mais eu, e arredor a estranheça inevitável dum velório.
November 12, 2009
Copiloto
Gosto de viaxar onda o condutor, a olhar a estrada, atender a rádio, planificar a rota, contemplar a chúvia bater no cristal, achegar comida ou bebida
e de quando em quando ficar calado e me abstrair.
( É bem certo que agora mesmo o gosto tem a ver com as viagens que fôrom contigo, mas já lá as vam
e deixa-as estar com as cousas boas que tivérom e que hei fazer por gardar)
November 11, 2009
Olhar
Gosto de olhar pola janela o que vier
dos momentos mortos em que me decato da casa, dos parques, dos céus
dos anacos em que som apenas olho.
November 9, 2009
Tinta na água
Levo dentro os velenos
coma a tinta na água.
Adoitam ver-se-me nos olhos, sempre vermelhos,
(e às vezes tam cheios da vida e do mundo).
Tenhem vezes de subir até as bonecas, inchar-me as maos,
dar em doer e me insistir no pouco que se val
que ai está a enfermidade e o corpo e nom há volta.
Afinal, tenhem as suas próprias marés, ou serám as minhas
(ou as tuas que ainda ficas também
inoculada
e es quem de mover esse tinte
-sei lá se querendo, sei lá se som eu mesmo ao me virar na cama para tentar dumir-
e me lixar algumha ledízia)
e vam e venhem por dentro e no devalo arrastam-me a velhas furnas.
Estám lá contigo as inseguridades, a irracional tendência a pequenas destruições, as invejas, o querer ser eu o primeiro em rejurdir, o nom saber quanto e como se me quere desde longe, a tensom profunda entre passado e presente (lembrança e resto seco) que em ocasiões ameaça com me esgaçar por completo, o silêncio e tantos outros.
Mas no entanto, estám em mim
é com essas peçonhas com as que jogo também
a fazer figuras enquanto danço
ou choro
ou laio tóxico
e fico assim eu também
forma na água.
November 6, 2009
A chuva dentro

A chuva da rua está cá no interior, doe na mao, achega umha tritura velha e molhada.
Somos um agora em corpo e água.
Embora sempre agocho anacos de sol na ponta dos dedos, debaixo do cabelo, nas axilas ou nos recantos de detrás dos joenlhos, ando anuvado e nom os dou prendido ajeitadamente.
É assim que nesta altura, cheio o corpo de humidade, ando meio por fora
e nom podo evitar, como é habitual nestes casos, atopar nesse contorno estranho
lembranças fragmentárias, paisagens antigas
nos que nom faltas
nem estás de mais.
October 30, 2009
Obras interiores
Gosto de reformas interiores, especialmente em velhos edifícios. Adoro essas casas já rematada por fora, a gardar dentro o espaço caótico, mau iluminado, cheio de trabalhadores e móbeis sem arrumar.
Gosto do arrecendo de madeira cortada, das colas, da silicona, da pintura, do suor e da cerveja que fica nas latas. O som das serras, os traslados de vultos e o frescor incrível que habita estes espaços, os estranhos móveis e aparelhos que se atopam lá.
Será cousa de ter estado em tantos destes lugares com o pai, de rapaz, e atopar lá um bocado do seu carinho.
October 29, 2009
Apenas as folhas
Ressistimos o outono. Ainda imos às terraças, deitamos nos parques, olhamos o sol a dessafiar o calendário e caminhamos de camissola polas ruas.
No entanto, vem cá a noite ceda a nos insistir: nom tem volta.
Embora pensemos nas flores temperás da cerdeira, nom é ainda momento para a primavera.
Olhamos as árbores, apenas as folhas dam razom do tempo que nos passa.
Lá nas polas ou deitadas primeiras na verma da estrada, targetas de visita.
October 27, 2009
Meditaçom
Gosto da sensaçom de deixar fluír os pensamentos.
Sentado no chao, a olhar a paisagem correr detrás dumha janela ou de pé e com movimentos espontáneos do corpo a acompanahar esse movimento. Sentir como eslue o sentido e fica apenas o passar duns para outros, sem sequer ficar no estranho das conexões.
E contemplar como vam apagando, aos poucos, em luz sem cor nengum.
October 23, 2009
Outras saudades tuas
Nesta altura da chúvia, acho de menos as viagens no carro, a escuitar repetidamente as mesmas canções na rádio, fim de semana trás fim de semana. Também os passeios outonizos no parque do Viaduto, com Fiona e Fuco a correr.
Lembro a tua capazidade para me fazer rir, muito de quando em quando, como pouca gente sabe.
Mas nom tem mal. É bom fazer reconto de boas cousas
limpar com a chúvia as lembranças
que som o que fica,
e nom preciso mais.


